O ataque a todas as políticas sociais que vem sendo perpetrado pelo governo Temer tem resposta pronta de governos estaduais do PSDB. O modelo que pretendem implantar em todo o país está em execução em Goiás, em Mato Grosso do Sul, no Paraná…
Todos sabemos que pesquisas entre jovens sobre as profissões desejadas no futuro, raramente aparece a opção “ser professor”. Ainda que convivam diariamente com professores, ainda que possam ter professores amigos, ainda que respeitem seus professores ou ao menos alguns deles que poderiam ser seus modelos no futuro se viessem a ser professores, a verdade é que os jovens não querem esta profissão para si mesmos.
A consequência disso está aparecendo até mesmo para os cegos dirigentes da educação brasileira: os cursos de licenciatura estão esvaziando. Inúmeras faculdades particulares fecham cursos por deficitários. Ou demitem seus professores e contratam estagiários para formarem novos professores, rebaixando cada vez mais os cursos iniciais de formação.
E o governo federal entra no jogo, jogando pesado: a reforma do Ensino Médio permite, por lei, que qualquer profissional de qualquer área se torne professor por notório saber… Como a reforma não especifica que estes “notórios saberes” somente se aplicariam às áreas de conhecimento nas chamadas opções de formação profissional, mas abrem para qualquer outro componente curricular, com a ausência de empregos, engenheiros serão professores de matemática, engenheiros químicos, com a retração do mercado – a destruição da cadeia produtiva na área do petróleo – se tornarão professores enquanto as coisas não melhorarem… E como há advogados a cada esquina, não lhes custará fazerem uso do notório saber e se transformarem em professores de língua portuguesa, literatura e o escambau!
Mas estes ataques todos são fichinha perto do que estão fazendo os governadores de Mato Grosso do Sul e do Paraná, ambos do PSDB. Em nome de uma reestruturação, neste ano não renovaram contratos de trabalho com professores num número assustador: no Mato
Grosso do Sul perderam o emprego nada menos do que 4.800 professores; no Paraná, Beto Richa não renova o contrato de quase 10 mil professores, numa verdadeira campanha contra o futuro da população de baixa renda (que não interessa jamais ao PSDB, afinal ele é um partido de massa cheirosa, como disse um dia a colunista Eliane CASTAnhêde, pertencente à casta).
Como conseguiram estas “economias” estes governadores de camisas azuis, manga longa, cara escanhoada, “limpa” (a aparência é fundamental!), a maioria deles bons moços, de boa procedência, filhos-família, filhos d’algo, fidalgos no desejo, exemplos para os coxinhas mal postos na vida?
Richa fez uma interpretação esdrúxula: como os professores tem direito, por lei federal, a 1/3 de horas-atividade, fez um cálculo simples – os contratos dos professores são de 20 horas; como a hora-aula é de 50 minutos (10 minutos sempre foram considerados intervalos entre uma e outra aula), então num total de 20 horas-relógio de cada professor, ele teria 13 horas em sala de aula (com algumas vírgulas a mais) e 7 horas-atividade. Como em aula ele está a cada vez 50 minutos, fica devendo 10 minutos. Em treze aulas, sobram 130 minutos, ou seja, poderão dar mais duas horas-aula, subindo de 13 para 15 horas de sala de aula, obrigatoriamente. Assim, todos os professores da rede tiveram um acréscimo de 2 horas-aula cada um. Como o aumento de número de alunos por turma, como reorganização – algo com que sonha dia e noite o governador tucano de São Paulo para sobrarem alguns prédios em zonas valorizadas pelo mercado imobiliário, para por à venda o patrimônio público com urgência, que é a única coisa que sabe fazer, vender, vender, vender – o Sr. Richa, que faz jus ao nome, conseguiu não recontratar professores. Deixou jovens recém formados, que estavam muitos deles pagando as prestações do FIES, na rua da amargura… Enquanto isso, no Palácio, locupletam-se com jantares e regabofes cujos custos jamais saberemos… ao bom estilo Michel Temer.
Como fez para demitir 4.800 professores o governador do Mato Grosso do Sul? Seguindo a mesma cartilha do PSDB. Este é o modelo que eles querem implantar no país inteiro. Um país de desempregados, sem educação escolar, defendendo alegremente junto com os mais tacanhos membros do Tea Party norte-americano que educação e saúde são bens, e bens tem que pode pagá-los!
Isso tudo até que os pobres façam dos ossos dos seus armas para derrubar esta canalha que se julga por direito divino a única que merece usufruir da riqueza produzida por todos, como um dia profetizou D. Hélder Câmara, durante outra ditadura.
João Wanderley Geraldi é reconhecido pesquisador da linguística brasileira e formou gerações de professores em nosso país. Há já alguns anos iniciou esta carreira de cronista-blogueiro e foi juntando mais leitores e colaboradores. O nome de seu blog vem de sua obra mais importante, Portos de Passagem, um verdadeiro marco em nossa Educação, ao lado de O texto na sala de aula, A aula como acontecimento, entre outros. Como pesquisador, é um dos mais reconhecidos intérpretes e divulgadores da Obra de Mikhail Bakhtin no Brasil, tendo publicado inúmeros livros e artigos sobre a teoria do autor russo.

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