PRIVATIZAÇÕES ÀS PRESSAS; NEGÓCIOS DA CHINA À VISTA

As gestões neoliberais (PSDB ou do atual PMDB) sempre se apresentaram como eficientes, competentes, de decisões rápidas e acertadas como exige a economia do mundo contemporâneo. Todos nós, mortais a eles submetidos, sabemos o que isto significa: venda do patrimônio público (privatização não é concessão, é venda. A Cia. Siderúrgica Nacional foi vendida; as estradas de ferro foram vendidas, a Vale foi vendida etc. etc.) e aumento da dívida pública. De permeio, um apagão por falta de investimentos e a falta d’água nas torneiras. Isso é a eficiência do PSDB. Estamos fartos de saber. Comem o abacaxi, depois entregam a casca  para outros arrumarem a casa, pagarem as dívidas e os empréstimos do FMI. Então eles ressurgem, por golpes ou por engodos eleitorais, sempre alardeando que são eficientes, competentes, rápidos, eficazes etc. etc.

Agora o desgoverno de Michel Temer porá em prática parte deste eficiente programa: o das privatizações, uma exigência do “mercado” e do PSDB, Serra à frente. Para tanto reservou nada mais nada menos do que 30 bilhões para financiar as empresas que estiverem interessadas em comprar qualquer coisa que possa ser privatizada: desde creches até o aquífero guarani. Tudo é mercadoria para os neoliberais (inclusive suas almas e consciências).

Eu fico pensando cá com meus botões e gostaria que algum leitor mais esclarecido me explicasse as vantagens destas vendas. O programa prevê que as empresas entrarão com 20% de recursos próprios. O governo financiará a longuíssimo prazo os 80% restantes, na forma de emissão de debêntures da dívida pública sobre que por seu turno pagará juros. Obviamente que o financiamento através da emissão de papeis da dívida pública será apresentado como “participação do mercado financeiro” nos empreendimentos (que não é novo empreendimento, mas simplesmente venda de um empreendimento com as consequências previstas para os trabalhadores: as fusões sempre produziram desemprego e grandes lucros).

Suponhamos uma situação de venda de alguma empresa pública. Por exemplo, o Banco do Brasil. Mas para efeitos de raciocínio usemos valores fictícios e baixos – afinal nem sabemos lidar com as grandes cifras com que lidam banqueiros e seus executivos, tipo Joaquim Levy ou Henrique Meirelles. Daremos uma avaliação inicial ao Banco do Brasil de 1 bilhão (como se sabe as avaliações iniciais de tudo o que se vendeu na época de FHC foram baixíssimas para poderem alardear o ágio ganho no leilão, porque “empresário é burro e paga mais do que vale”…). Este banco cujo valor é de 1 bilhão produz semestralmente um lucro líquido de 100 milhões, ou 200 milhões ao ano. Vamos vendê-lo, dizem Serras e Meirelles acolitados por Aloysio Nunes, Romero Jucá e aplaudidos por Leitões, Cantenhêdes e Sardenbergs na imprensa falada e escrita. Moreira Franco toma as providências. Abre-se o leilão.

Cena 1. Os executivos do Santander se reúnem. Decidem comprar o Banco do Brasil. Farão a oferta de 1,5 bilhão. Vencem o leilão.

Cena 2. Miriam Leitão e Eliane Cantenhêde têm orgasmos múltiplos; Sardenberg dá pulinhos no Jornal da Globo. Todos elegiam o acerto da venda e o ágio conseguido. Ninguém questiona a avaliação inicial e ninguém explica porque o Santander foi tão burro de pagar mais do que “vale” o Banco do Brasil segundo esta avaliação.

Cena 3. O Santander deposita no Tesouro Nacional os 20%, isto é, os 300 milhões. E vai ao BNDES e a dona Maria Sílvia Bastos Marques empresta, através da emissão de papeis da dívida pública, ao Santander os 80% previstos, ou seja, nada mais nada menos do que 1 bilhão e 200 milhões. O dinheiro que o Santander aportou ao Tesouro o governo usa para pagar os juros da dívida pública, ao mesmo tempo em que a aumenta em 1,2 bilhão em debêntures emitidos para ter o dinheiro para emprestar ao Santander.

Cena 4. O Tesouro recebe o 1,2 bilhão que emprestou ao Santander (totalizando então a entrada de 1,5 bilhão). O Tesouro não resgata imediatamente as debêntures que emitiu aumentando sua dívida. Fica com dinheiro em caixa para “investimentos”, como fez no passado em que as privatizações não reduziram a dívida pública em um centavo. Esta é a eficiência do PSDB e do programa neoliberal. Do passado, ninguém sabe o que fez com o dinheiro. Não será diferente agora. Este 1,5 bilhão vai sair pelos ralos dos juros e das necessidades de agrados a alguns setores (como o aumento para os magistrados do STF, dos procuradores e outros agrados menos explícitos).

Cena 5. Sobre os papeis emitidos como dívida, o governo pagará juros de 14%. Sobre o empréstimo feito para o Santander receberá 6% de juros anuais. Em boa matemática, arcará com um prejuízo de 8% ao ano sobre o valor de 1,2 bilhão, ou seja, 96 milhões anuais.

Cena 6. Obviamente, o Santander é um banco e como tal vive precisamente de aplicações financeiras. Ele mesmo, através de seus próprios fundos, comprou os 1,2 bilhão de debêntures que o governo emitiu para lhe emprestar este dinheiro. Portanto, estará tendo uma renda anual de 96 milhões, descontados já os 6% de juros que estará pagando sobre o empréstimo feito.

Cena 7. Em negócios desta envergadura, o empréstimo do BNDES teve um tempo de carência para que o Santander pudesse se “recapitalizar” e começar a pagar anualmente as prestações devidas. Digamos, uma carência de 5 anos.

Cena 8. Durante este período, o Banco do Brasil continuará a dar ao Santander um lucro anual de 200 milhões. Somados estes 200 milhões e mais os juros pagos pelo governo para as debêntures, no primeiro ano o Santander já terá recuperado os 300 milhões que tirou de seu caixa para a compra do Banco do Brasil. Continuará devendo 1,2 bilhão, mas têm em mãos 1,2 bilhão em debêntures do próprio credor, isto é, do governo. E neste jogo estará ganhando anualmente aqueles 96 milhões já apontados.

Cena 9. O Banco do Brasil continuará a produzir lucros de 200 milhões anuais. Em 5 anos, o Santander recuperará os 1 bilhão que que investirá em novos papéis com um juro de 14% ao anos, ou seja, de 140 milhões. Quando começar a pagar sua “dívida” disporá destes 140 milhões mais os 96 milhões da sobra no jogo de juros da primeira compra de debêntures. Ou seja, disporá de 236 milhões somente em juros, além do lucro do banco adquirido, de 200 milhões. Ou seja, disporá de 436 milhões anuais. Como deve pagar a dívida em 5 anos, terá uma prestação anual de 240 milhões (mais os juros de 6% ao ano). Terá dinheiro de sobra para quitar este empréstimo somente com os lucros e os juros.  

Cena 10. Enquanto isso, o governo perdeu os 200 milhões de lucro anual do Banco do Brasil, que vendeu. E está pagando juros das debêntures deste negócio na ordem de 96 milhões ao ano (apenas 8%, pois os outros 6% ele cobre com os juros que recebe do Santander).

Cena 11. Quitado o empréstimo, dez anos depois, o Santander terá o Banco do Brasil que pagou com os juros e lucros percebidos e com grandes sobras; terá em mãos as debêntures no valor de 1,2 bilhão do início do negócio.

Cena 12. O governo terá aumentado a dívida pública em 1,2 bilhão; não será mais proprietário do Banco do Brasil.

Então a venda efetuada trouxe para o governo um valor de 300 milhões no início da negociação, coisa elogiadíssima pela imprensa (na verdade, um valor líquido de 204 milhões porque devemos descontar os juros de 8% que estará pagando pelas debêntures emitidas). Ora, se tivesse ficado com o Banco do Brasil, o país teria aumentado seu patrimônio em 200 milhões graças aos lucros do Banco. Então o negócio em termos patrimoniais, foi feito para ter em mãos somente 4 milhões!

E tudo isso foi feito em nome da alavancagem da economia brasileira. O “empreendimento” do Santander não é “sangue novo” na economia. É redução da máquina que gira a produção. Como seu viu, só depois de já ter os lucros amealhados e já rendendo outros lucros que começará a pagar o “empréstimo” que recebeu. Ou seja, o Banco do Brasil saiu de graça para o Santander!!!! E o governo ainda continua com a dívida, em debêntures, do 1,2 bilhão que deu ao Santander, e sequer conseguiu pagar os juros nestes cinco anos de carência, de modo que teve que aumentar a emissão de papéis da dívida pública que aumenta desta forma “eficiente e competente”!

E tudo isso será vendido à patuleia como vantagem. Não é de estranhar que com negócios desta ordem, FHC tenha terminado seu mandato de pires na mão pedindo, por duas vezes, empréstimo ao FMI. Mas a boa imprensa, as Leitões, as Cantanhêde, os Sardenbegs, ninguém relacionou estes empréstimos do FMI com os negócios da privatização.

Ficam então perguntas. Eficiência em benefício de quem? Alguém pode me explicar? Estarei totalmente equivocado neste meu raciocínio? Os economistas neoliberais tipo Mendonça de Barros poderiam me explicar a vantagem dessa venda???

Se você fosse o proprietário do Banco do Brasil faria este negócio, emprestando você mesmo o seu dinheiro para o comprador e para ter esse dinheiro para emprestar faria uma dívida a juros altos, cobrando juros baixos?

Talvez eu esteja pensando no Estado brasileiro e seus interesses. Na população brasileira e seus interesses. Mas talvez os neoliberais estejam pensando em vantagens para o Santander, para os compradores e para si próprios, como já mostrou Amaury Ribeiro Júnior, no livro A privataria tucana. Serra e adjacências jamais comprovaram que o jornalista estivesse errado.

Enquanto isso, os empréstimos do BNDES para empresas brasileiras realizarem grandes obras no exterior, gerando emprego para brasileiros e elevando nossa capacidade técnica, estão sendo considerados crimes de Lula! Afinal, pensar no Brasil e em suas vantagens é um crime de lesa-pátria nas mãos de Sérgio Moro.  

João Wanderley Geraldi é reconhecido pesquisador da linguística brasileira e formou gerações de professores em nosso país. Há já alguns anos iniciou esta carreira de cronista-blogueiro e foi juntando mais leitores e colaboradores. O nome de seu blog vem de sua obra mais importante, Portos de Passagem, um verdadeiro marco em nossa Educação, ao lado de O texto na sala de aula, A aula como acontecimento, entre outros. Como pesquisador, é um dos mais reconhecidos intérpretes e divulgadores da Obra de Mikhail Bakhtin no Brasil, tendo publicado inúmeros livros e artigos sobre a teoria do autor russo.