PÓSVERDADE, DOGMATISMO E EDUCAÇÃO ESCOLAR

Publico hoje um texto de autoria do Prof. Antonio Carlos Rodrigues de Moraes. Creio que é um texto que merece publicação e divulgação.  

PÓSVERDADE, DOGMATISMO E EDUCAÇÃO ESCOLAR

11.02.2017
A disseminação de notícias falsas nas redes sociais tornou-se objeto de preocupação universal, principalmente após as últimas eleições norte americanas. Há hoje uma forte mobilização em torno do assunto, desde propostas de contra-ataque dos administradores da maior rede social, o Facebook, até um debate programado pelo Conselho de Comunicação Social do Senado para o próximo mês de abril. Os jornais tradicionais começam também a se mobilizar, colocando-se como a mais legítima instância de investigação da chamada pós verdade, já que possuem quadros técnicos bem preparados para tal e, sobretudo, credibilidade para apresentação dos fatosemsuarealidade.

É fato que as notícias falsas cada vez mais se proliferam nas redes. Mas, há que se discutir, em relação à chamada grande mídia tradicional, dois aspectos de fundamental importância: primeiro, se o pressuposto de sua credibilidade é sólido e, em segundo lugar, a relação que pode existir entre a manipulação da mídia, pelo ocultamento, deturpação e seletividade de notícias, e a intensificação de informações, verdadeiras ou falsas, na mídia marginal (no bom sentido).

Em seu livro sobre Chateaubriand, Fernando Morais retoma um memorável diálogo do grande barão da mídia, antes dos Marinho, com o jornalista David Nasser. Chatô não gostou de um artigo do jornalista e o recriminou dizendo que se quisesse ter opinião própria que comprasse uma revista. A resposta do jornalista foi que se ele quisesse um jornalista sem opinião, que contratasse outro pela metade do salário que ele lhe pagava, porque estava se demitindo. O grande barão da mídia voltou atrás e mudou de assunto. Ele, que sabia muito bem extorquir os poderosos só com a arma da informação, tinha consciência de que, para isso, precisava de credibilidade, que se construía com a qualidade de seus contratados.

Hoje temos uma situação diferente. A grande mídia dispõe de uma maioria de jornalistas que crescem na medida de sua subserviência. Assim, os diretores de jornais, revistas e tv podem facilmente fazer obedecer suas ordens de nada noticiar contra políticos de determinado partido e concentrar informações sobre os seus desafetos, numa mesma investigação policial que envolve pessoas de várias cores partidárias. Os poucos que diferem dos mervais, waacks, mirians leitões, sardenbergs, etc., são defenestrados da grande mídia e se refugiam na mídia marginal, os chamados blogs sujos, cujos escritos são atacados como pouco críveis por suas opções partidárias, como se a grande mídia não as tivesse. É só atentar sobre o que ela noticia (ou deixa de noticiar) sobre determinados partidos e movimentos sociais. Qual a imagem, por exemplo, do MST construída pela grande mídia? Por acaso, alguém viu alguma reportagem sobre a sua produção de alimentos, sobre como administram a partilha da produção, como é sua educação das crianças? Não, só as “invasões” e destruição de equipamentos das propriedades. Já que a sua preocupação é com a “invasão” de propriedades, alguma grande reportagem sobre a grilagem de terras por grandes latifundiários? Há mais de dez anos, quando lecionava em uma escola do Estado, participei de uma excursão de nossos alunos do ensino médio a um assentamento do MST. Uma das alunas ficou em dúvida, se devia ou não participar, até o último momento. Descobrimos depois o motivo: o medo provocado por uma imagem de capa da revista Veja, em que os integrantes do MST apareciam carrancudos, segurando seus instrumentos de trabalho, como foices e enxadas. Felizmente ela foi, entrou em todas as casas, conversou com os assentados e mudou seus conceitos.

É essa mídia que se arvora a possuir critérios sólidos para combater a pós verdade na internet? Mesmo que ainda prezasse a credibilidade, esta, desde o século XVIII não é mais critério suficiente de verdade. Mormente numa situação de polarização política em que vivemos, não só no Brasil, mas em todo lugar onde as forças de direita saíram do armário, as informações tornam-se armas de guerra. Credibilidade de quem e para quem? A lógica nos ensina que o argumento ad hominem é uma falácia. Ou seja, a verdade de uma afirmação não depende de quem a faz. Depende do próprio conteúdo da assertiva. Alguém pode, por acaso, dizer que a afirmação “o gato é um animal mamífero” está errada porque a viu escrita no caderno do seu pior aluno em biologia?

A verdade, seja num canal da grande mídia, seja nas redes sociais ou mesmo num manual de uma ciência ou num livro de filosofia, não é pressuposta de acordo com a credibilidade das fontes, mas, construída no debate. E este só é possível na liberdade de investigação.

E aqui está a grande função social da escola. Ninguém precisa entender de medicina para tratar da própria saúde. Quando precisamos, confiamos no médico. O mesmo, com o advogado, etc. Mas, quando se trata de formação de cidadania, não dá para delegar a ninguém. Cada um tem de aprender a pensar com a própria cabeça, para tomar suas decisões com autonomia. Se o objetivo principal da educação é a formação da cidadania, nada de submissão ao senso comum, ou aos conceitos que o aluno traz de casa. Tudo tem que ser questionado. E para questionar e ser questionado não há necessidade de ninguém se despir de suas opções partidárias. Basta se despir de seu dogmatismo, ter coragem de colocar à prova suas convicções e disposição para investigar sempre.

Se a escola realmente levar a sério essa sua função e ensinar os alunos a ler criticamente as informações com que no dia a dia são bombardeados, não só o interesse dos mesmos será outro, mas as pós verdades tenderão a ter um único comentário nas redes sociais:kkkkkkkkkkk.

Descrição: <a href=https://www.facebook.com/email_open_log_pic.php?mid=548aa9e8b50f5G5af33548c9a1G548aae82153c7G85″ >

João Wanderley Geraldi é reconhecido pesquisador da linguística brasileira e formou gerações de professores em nosso país. Há já alguns anos iniciou esta carreira de cronista-blogueiro e foi juntando mais leitores e colaboradores. O nome de seu blog vem de sua obra mais importante, Portos de Passagem, um verdadeiro marco em nossa Educação, ao lado de O texto na sala de aula, A aula como acontecimento, entre outros. Como pesquisador, é um dos mais reconhecidos intérpretes e divulgadores da Obra de Mikhail Bakhtin no Brasil, tendo publicado inúmeros livros e artigos sobre a teoria do autor russo.