PORTUGAL COMEMORA A EUROCOPA

Quando Davi enfrenta Golias, tendemos sempre a torcer por Davi. O nós aqui não inclui, obviamente, aqueles que gostam de proferir o discurso da submissão a quem tem poder, como aconteceu na diplomacia brasileira dos tempos de FHC e que retornam agora com o chanceler ministro da Chrevron, José Serra.

Assisti ao jogo num telão do Bar Esplanada, em Portinho da Arrábida. Com certeza, torcia por Portugal – não gosto de franceses narizes arrebitados. O jogo foi sofrido. A França dominou o jogo mas não fez gol. Portugal fez. Apenas um, mas o suficiente para estragar a festa preparada no Estádio de França. Muito embora alguns portugueses gostem de proferir o discurso do “Oui, monsieur”, Oui, madame” numa espécie irritante de boas fórmulas, a verdade é que sua seleção jogou com garra, com muito trabalho… Aliás, com a garra a que não estamos mais acostumados com a seleção brasileira, cujos jogadores parecem ser movidos apenas a euros e dólares (sempre achei que para a seleção brasileira contemporânea jogar bem, é preciso que se desenhem euros e dólares na bola em jogo).

Mas o que me chamou atenção na Eurocopa foram os sobrenomes dos jogadores. Na seleção da França, há sobrenomes árabes, africanos, judeus e até franceses! Na seleção portuguesa, embora predominem nomes lusos, há sobrenomes africanos.

O que isso nos ensina? Que todos são europeus! Que a miscigenação já não é atributo da sociedade brasileira. Ao menos no que concerne ao campo de futebol. Certamente os portugueses que estavam no Estádio de França tiveram que economizar bastante para comprar os ingressos da final da Eurocopa. Afinal, os portugueses em França como na Suíça, exercem funções geralmente subalternizadas: serviços domésticos, garçons, lavadores de pratos, lavadores de carro, etc. Mas não se pode dizer que a comunidade portuguesa não estivesse no estádio.

Alegre com a vitória neste momento de Portugal, em que um governo socialista, apoiado pelo bloco de esquerda e pelo partido comunista, enfrenta a Troika (FMI + BCE + Banco Mundial), investiu numa vitória de sua seleção, retomo o pensamento de Espinoza: é mais difícil dominar um povo feliz, alegre. A tristeza do povo somente serve à dominação. Talvez seja necessário rever a história de que o futebol é o ópio do povo! Que o carnaval seja mero ópio. A alegria, o riso, o  carnaval são, sim, válvulas de escape, mas também exemplos de que é possível viver de outro modo: de forma improdutiva, alegre, feliz. A alegria e a felicidade não são impecilhos à produção de bens. Talvez sejam impecilhos à acumulação: como em toda festa há excessos que impedem acumular, acumular, acumular, o único verbo que conjuga o sistema. Infelizmente, fomos todos acostumados a pensar que só se produz quando se está sério, sisudo! Nada mais falso, sabem-no até empresários, mesmo quando estes confundam trabalho assalariado com trabalho escravo, como quer o presidente da CNI com uma jornada de 80 horas semanais, mentindo descaradamente sobre a proposta que tramita na França sobre a carga horária de seus trabalhadores. E é apenas uma proposta. E por causa da proposta a França está em greves contínuas ou em operações-tartaruga (fiz uma viagem de trem de Paris a Genebra há duas semanas; normalmente o percurso dura 3 horas; dentro do trem fomos informados de que por “questões meteorológicas” haveria um atraso de 2 horas; o sol brilhava, e a meteorologia a que se referiam os trabalhadores era a política de arrocho proposta pelo governo).

Enquanto isso, Portugal enfrenta a Troika e sua retrógrada política em que todo o peso cai sobre a classe trabalhadora e está tendo sucesso. E Portugal agora celebra sua seleção, coisa que nós brasileiros não podemos fazer. E como a alegria supera a tristeza, e como a alegria não rouba enquanto a tristeza precisa fazê-lo para acumular as moedas dos cofres fechados da exploração, viva a alegria! E lutemos alegres para podermos também nós voltarmos a viver sem medo de sermos felizes. 

 

João Wanderley Geraldi é reconhecido pesquisador da linguística brasileira e formou gerações de professores em nosso país. Há já alguns anos iniciou esta carreira de cronista-blogueiro e foi juntando mais leitores e colaboradores. O nome de seu blog vem de sua obra mais importante, Portos de Passagem, um verdadeiro marco em nossa Educação, ao lado de O texto na sala de aula, A aula como acontecimento, entre outros. Como pesquisador, é um dos mais reconhecidos intérpretes e divulgadores da Obra de Mikhail Bakhtin no Brasil, tendo publicado inúmeros livros e artigos sobre a teoria do autor russo.