COMO DIZ O POVO
PARA BOM ENTENDEDOR MEIA PALAVRA BASTA
A festa ferida (excerto)
[…]
volta ao passado, amigo, questiona-me.
pergunta ao passado que te mostre o rosto antigo
das colinas de Argel.
creram alguns que estavam afrancesadas.
mas tu meu povo, sabes que ferve e fumega
a caldeira da arabidade.
creram outros que aqui não havia senão a cinza dos mortos,
enxameada pelos ventos e joeirada sobre todos os ares.
mas tu, tu sabes que sob a cinza mantém-se a flama árabe,
o fogo mantido vai-se erguer à luz do dia,
o fogo surdo que a terra do passado
volveu em farol deslumbrante, hoje.
Árabes somos, a arabidade nossa mãe
alimentou-nos o sangue, irrigou as veias.
a arabidade é a fonte que brota no âmago da nossa vida,
mesmo se os discursos se nos esgotaram sobre os lábios.
quem nos invadiu também cercou a nossa língua.
mas a nossa língua e o sonho permanecem sem igual.
árabes hoje o somos pelo sangue derramado;
sê-lo-emos amanhã pela língua e pelo sangue,
soberanos.
(Salih Kharafi. Argélia. Tradução de Adalberto Alves. Rosa do mundo. 2001 poemas para o futuro. Lisboa : Assírio & Alvim)
REFLEXÃO – Para meu amigo João Lima
Las enfermidades del hombre non son sólo limitaciones de su poder físico, son dramas de sua historia. La vida humana es una existência, un ser-ahí para un devenir no preordenado, obsesionado por su fin. Así pues, el hombre está aberto a la enfermedad no por una condena o por un destino, sino por su simple presencia en el mundo. Desde este aspecto, la salud no es en absoluto una exigencia de orden económico que deba hacerse valer en el marco de uma legislación, es la unidad espontânea de las condiciones de ejercicio de la vida. (Georges Canguilhem. Escritos sobre la medicina. p. 88)
As enfermidades do homem não são somente limitações a seu poder físico, são dramas da sua história. A vida humana é uma existência, um ser-aí para um devenir não preordenado, obcecado por seu fim. Assim, o homem está aberto à enfermidade não por uma condenção ou por um destino, mas pelo sua simples presença no mundo. Deste ponto de vista, a saúde não é, em absoluto, uma exigência de ordem econômica que se faça valer através de uma lei; é a unidade espontânea das condições de exercício da vida. [tradução minha]
João Wanderley Geraldi é reconhecido pesquisador da linguística brasileira e formou gerações de professores em nosso país. Há já alguns anos iniciou esta carreira de cronista-blogueiro e foi juntando mais leitores e colaboradores. O nome de seu blog vem de sua obra mais importante, Portos de Passagem, um verdadeiro marco em nossa Educação, ao lado de O texto na sala de aula, A aula como acontecimento, entre outros. Como pesquisador, é um dos mais reconhecidos intérpretes e divulgadores da Obra de Mikhail Bakhtin no Brasil, tendo publicado inúmeros livros e artigos sobre a teoria do autor russo.

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