Por que o mercado ama Pedro Parente?

Para um cronista que semanalmente escreve sobre a situação política, esta é uma terça-feira gorda! Tanto aconteceu deste a última terça-feira que fico rodando sobre que comentário fazer. Há alguns que são desnecessários, como a total desmoralização do Executivo comandado pela quadrilha do “Coisa”. Foi trapalhada atrás de trapalhada. E depois de acordar o que foi necessário para o país não parar, ninguém obedece: somente a rede BR reduziu por completo o valor do diesel – precisamente a estatal que querem vender…  O Judiciário, o de sempre: o ativismo incontrolável desde a judicialização da política e a politização do judiciário que se tornou um partido com a força da autoridade a que nada se pode contrapor. O ativismo se tornou de tal monta que agora estão decidindo até a idade em que uma criança deve começar o ensino fundamental. Como especialistas de tudo e sobre todos, ministros togados se arvoram psicólogos, educadores da infância, psiquiatras e psicanalistas. E cagam jurisprudência sobre qualquer coisa obrigando seus “jurisdicionados” a cumprirem. Jurisdicionados é como gosta de chamar a população brasileira a D. Carmen Lúcia. E na casa da mãe–joana ninguém se ama, mas todos se entendem em nome da lei máxima que preside a dança: a colegialidade. Ah! ia esquecendo do chamado “poder” legislativo. Mas aprendi uma regra de boa civilidade: não se bate em gato morto.

Então fico mesmo com este paradoxo “mercadológico”, Pedro Parente, vezeiro no crime de lesa-pátria. Cantado em prosa e verso pelo mercado, espaço em que qualquer bafo derruba cotações, o simples fato da possibilidade de vir a dirigir a BRF, a gigante da área alimentícia, suas ações subiram imediatamente. Como ele mesmo afirma e canta que seu compromisso é “com os acionistas”, os que detêm a maioria das ações que se cuidem… porque com este mesmo pensamento ele esqueceu por completo, quando na Petrobrás, quem detinha a maioria das suas ações! Assim, se houver um e somente um acionista que seja estrangeiro, ele dirigirá a BRF de olho e no interesse deste único acionista, porque o seu negócio é o “mercado”…

Ele protege ferrenhamente o “mercado” quando em cargos públicos. Esteve no Banco Central quando da hiperinflação do governo Sarney; foi ministro da fazenda de Collor no confisco das poupanças e dos saldos em conta-corrente; esteve no FMI quando o país sentou no pinico de pires na mão pedindo empréstimos depois que foi quebrado pela “eficiência” na condução liberal e neoliberal da economia; foi ministro de minas e energia durante o apagão de FHC, que ocorre, é óbvio, depois da privataria. O apagão enriqueceu as distribuidoras de energia e ainda assim, passada a crise, todos tivemos que pagar para o fundo de compensação dos “lucros cessantes” destas mesmas empresas! Afinal, uma das características da privataria tucana era essa: quem recebesse o bem público não poderia ter qualquer prejuízo, porque o capitalismo não pode ter riscos. Perdendo, divide-se o rombo com a população; ganhando, os lucros são somente deles… E isso é global, lembremos o rio de dinheiro público que levaram bancos e empresas na crise que eles mesmos criaram em 2007/2008.

Ora, como não defender um homem com tamanha eficiência? Foi em sua defesa que saíram, em voz uníssona, as leitoas da Rede Globo de todos os matizes e de todas as raças. Grunhiam: a Petrobrás perdeu tantos milhões de valor com a saída de amado de sua presidência… a Petrobrás não perdeu coisíssima nenhuma!!! No jogo dos valores das ações, a empresa nada ganha e nada perde. Se sobe o valor das ações e o dono vende, quem ganha é o dono das ações; se desce e ele vende, quem perde é o dono das ações. Nenhum centavo entra ou sai do caixa da Petrobrás, de modo que dizer “a Petrobrás perdeu…” é para enganar trouxa. Eles dirão que é óbvio: perdeu valor de mercado! E o que o valor de mercado tem a ver com o valor real de qualquer empresa? Ao não explicitarem o funcionamento do mercado de ações, para a patuleia fica a informação: a Petrobrás perdeu… e é no que leitoas e leitões, chafurdando no lodo e ganhando muito, querem que acreditemos.

Pedro Parente já vai tarde… e sonhemos todos: que nunca mais volte a ocupar cargo público, porque se ocupar, usemos todos cuecas e calcinhas de aço que ele virá para nos arrasar… e ele mesmo dando tudo para o seu querido mercado.

 

João Wanderley Geraldi é reconhecido pesquisador da linguística brasileira e formou gerações de professores em nosso país. Há já alguns anos iniciou esta carreira de cronista-blogueiro e foi juntando mais leitores e colaboradores. O nome de seu blog vem de sua obra mais importante, Portos de Passagem, um verdadeiro marco em nossa Educação, ao lado de O texto na sala de aula, A aula como acontecimento, entre outros. Como pesquisador, é um dos mais reconhecidos intérpretes e divulgadores da Obra de Mikhail Bakhtin no Brasil, tendo publicado inúmeros livros e artigos sobre a teoria do autor russo.