PERTENCIMENTO E POSSE A responsabilidade política no mundo da pressa e do esquecimento

PERTENCIMENTO E POSSE

A responsabilidade política no mundo da pressa e do esquecimento (1)

João Wanderley Geraldi

Uma terra é nossa como uma pessoa nos pode pertencer: sem nunca dela tomarmos posse.

(Mia Couto, Jesusalém)

Yo no miro al mundo con mis propios ojos y desde mi interior, sino que yo me miro a mí mesmo con los ojos del mundo; estoy poseído por el otro. […] Yo carezco de un punto de vista extrínseco sobre mí mesmo, no tengo enfoque para con mi propia imagen intrínseca. Desde mis ojos estan mirando los ojos ajenos.

(Mikhail Bakhtin. [El hombre ante el espejo])

Caminhando por um pequeno lugarejo da Alemanha (Hilchenbach), notei que havia uma longa frase no alto da parede de uma casa. Pedi ao amigo Bernd Fichtner que me traduzisse o que estava ali escrito. Não anotei o enunciado, mas recupero-o de memória: “Esta casa é minha e esta casa não é minha. Ela foi do meu pai e será dos meus filhos. Ela foi do pai do pai do meu pai, mas foi sempre dos filhos. Isto desde 1554”. Desconheço a data da inscrição. Este enunciado remete diretamente a relação entre pertencimento e posse, entre responsabilidade e usufruto, entre amor e submissão. Propositadamente assim expressos: como dicotomias sólidas quando os tempos são de movimentos líquidos, fluidos, matizados e descoloridos. Da crítica aos limites rígidos, ao desconhecimento das zonas de interstícios, deslizamos para os tons cinza, cobrindo o todo e apagando diferenças que o movimento do pêndulo, de um lado ao outro, ainda poderia nos desvelar mostrando as múltiplas cores do percurso, e as distâncias entre a liberdade e a dominação.  

As cores cinza aparecem quando reduzimos tudo a uma só categoria: tudo são relações de poder, de modo que o exercício do micro poder se torna equivalente ao exercício do poder de excluir: não podemos criticar a este porque exercemos aquele. As táticas dos vencidos, dos oprimidos, são mesmo exercício de poder? Cortar as cercas dos latifúndios numa guerra de posições para a sobrevivência é um exercício de poder? Tão poderoso quanto aquele que permite construir a cerca? Somos todos mercadorias, consumidores e compradores, na sociedade do consumo. Compradores com o mesmo poder de fogo? Com a mesma quantidade de café no bule? Se o trabalhador é uma mercadoria, o que vende o patrão que compra sua força de trabalho é da mesma natureza? O patrão também se vende como força produtiva? Cutuco a onça com vara curta, porque é preciso debater, é preciso entrar em diálogo, não em consenso. E porque concordo com Bauman (2008, p. 27): “um diálogo sempre significa se expor ao desconhecido: é como se tornar refém do destino”.  

Habitantes de um planeta de que tomamos posse no presente, explorando ao máximo suas potencialidades, sem preocupações com qualquer futuro, demo-nos conta hoje de que também nós lhe pertencemos: finitos que somos, sabemos da finitude do espaço que habitamos. Na linha do tempo, no entanto, agimos como se imortais fôssemos, como se não viéssemos a conhecer a morte e como se depois de nós não haverá herdeiros da terra. Pode-se “consumir avidamente”, com tranquilidade, em nome do princípio do prazer, “aqui e agora”, escamoteando qualquer responsabilidade pelo Outro, em nome da desregulamentação da vida, do Estado mínimo para as questões antes ditas sociais, mas Estado máximo para salvar o sistema financeiro e as negociatas das grandes empresas, como ocorreu na penúltima crise do capitalismo em 2008/2009? Penúltima porque outras penúltimas virão. Teremos um dia forças para construir a última?

Realmente, “vivemos tempos sombrios”. Polícia e criminosos romperam o pacto de paz; às chacinas policiais nas periferias o PCC responde com mortes de policiais, mas também com mortes aleatórias. Uma luta pelo poder, mas não uma luta necessária para construir um tempo de felicidade. Nestes tempos sombrios de “domínio final do fato”, quantos ainda serão presos? Responderão o Secretário de Segurança e o Governador, nos termos da teoria que permite condenar sem provas materiais, pelas chacinas na periferia? Em tempos sombrios, a mídia julga e condena. E encontra alguém que lhe forneça a sentença. Será saudado como herói. Mas a teimosia dos humanos em quererem ser humanos permanece nas formas de manifestação: todo o estardalhaço feito apenas sepultou o exemplo mais cômico dos processos gêmeos da desregulamentação e da privatização na atual comodificação nas relações entre capital e trabalho. Cômico porque até mesmo os cemitérios públicos de São Paulo foram a leilão para uma privatização que tornaria mercadoria também os defuntos. Não houve interessados…

Foi em função da relação entre o eu e o outro que a humanidade construiu o Estado: espaço político da regulamentação da vida ora para evitar “a guerra de todos contra todos” que “guiaria a conduta individual para a terra desolada da não-sociabilidade” segundo aqueles que veem no homem primeiro a fera que o compõe, ora para restringir e delimitar o excesso do “desafio ético a que os seres humanos estão expostos pela própria presença de outros, pelo “apelo silencioso da face do Outro”. Reduzir a responsabilidade pelo outro, essencialmente incondicional e ilimitada, a um conjunto de prescrições e proscrições  mais de acordo com a capacidade humana de se arranjar (Bauman,2008, p. 114-115) foi o ponto de partida para construir, no passado, a autoridade do Estado, cuja função no sistema capitalista é a comodificação entre capital e trabalho. Nos tempo sombrios das desregulamentações, os Estados de bem estar social foram combativamente destruídos: a apropriação do dinheiro pelos Fundos globais de aplicação anularam o poder do estado e exigiram mobilidade sem limites, sem normas, sem fronteiras. Num Estado assim debilitado, como fazer política? Ainda é possível fazer política, quando estamos continuamente sendo bombardeados pelas mídias que acinzentam todas as posições partidárias e as reduzem a cavernas de novos Ali-Babás? Ainda assim, apesar de todo o poder do qual emana um orbituário prematuro do Estado e da política, os estados sociais emergentes ou redivivos aparecem: Venezuela, Bolívia, e um Brasil que afinal mostra sua cara. Alonguemos o olhar para outros espaços: uma reação começa a emergir na Grécia (que foi berço e está se tornando túmulo da civilização dita europeia); uma olhadela para os países escandinavos (a Finlândia em particular que vem mantendo o Estado de bem estar social, porque democraticamente perguntou a seu povo se devia ou não “salvar os bancos” investindo neles os recursos públicos e deixando de lado as políticas sociais que tão demoradamente foram conquistadas); e enxerguemos os desarranjos nos centros do capitalismo contemporâneo: a crise dos EEUU; a Inglaterra reduzida a bancos e a uma brutal concentração de renda; a Espanha com 25% de desemprego; e Portugal pondo os bofes de fora, num estado que toma medidas ditadas pela Troika (FMI, Banco Mundial e Banco Central Europeu) tapando os olhos aos problemas sociais que se acenderão como um vulcão. Arranjos onde se começou a praticar a política; desarranjos onde a política está a cabresto do mundo financeiro. Globalização? Somente globalizamos a miséria: há novamente pedintes nas ruas de Paris.

Nestes tempos sombrios, tempos de broncas e botas, deselegantes ou brandilisamente elegantes, reencontramos no conceito de responsabilidade/responsividade e na arquitetônica do pensamento bakhtiniano, fundado na relação inescapável do eu com o outro, elementos de uma ética que somente nos pode fazer políticos, porque na política “desde meus olhos miram os olhos alheios”.

  

  1. Texto para a “arena de debates” do Rodas de Conversa Bakhtiniana, 17 de novembro de 2012, Universidade Federal de São Carlos.

João Wanderley Geraldi é reconhecido pesquisador da linguística brasileira e formou gerações de professores em nosso país. Há já alguns anos iniciou esta carreira de cronista-blogueiro e foi juntando mais leitores e colaboradores. O nome de seu blog vem de sua obra mais importante, Portos de Passagem, um verdadeiro marco em nossa Educação, ao lado de O texto na sala de aula, A aula como acontecimento, entre outros. Como pesquisador, é um dos mais reconhecidos intérpretes e divulgadores da Obra de Mikhail Bakhtin no Brasil, tendo publicado inúmeros livros e artigos sobre a teoria do autor russo.