No passado, escrevi aqui uma crônica a propósito da dívida pública (orçada em 3 trilhões) e os rendimentos que percebem os credores dos títulos. Considerei uma renda de 12% ao ano, o0u 1% ao mês (quando a taxa SELIC estava acima de 13%). Nesta baixa renda de 1%, o valor dos juros são impagáveis: 30.000.000.000 (30 bilhões). Considerei que este era o lucro dos rentistas, dados aos bancos e similares. Fui criticado por um sábio economista funcionário da UnB. Os bancos detêm menos de 30% da dívida pública, ou seja, algo bem acima de 60 bilhões, o que lhes dá uma renda de apenas 60 milhões mensais. O resto da dívida pública está nas mãos de Fundos, disse-me o economista. Sobre os rendimentos dos fundos, os bancos recebem apenas um percentual de taxa de administração. E dizia-me ele: os mais de 70% da dívida pública estão na mão das pessoas que, como eu, aplicam seus salários em fundos de saque automático e similares. Fiquei pasmo de saber que a população dispunha de tanta poupança. Mas aí pensei que os tais “investidores estrangeiros” devem ser os que detêm grande parte destes títulos. Afinal, é para mantê-los investindo aqui que a taxa SELIC era alta e continua alta – são os juros mais altos do planeta. Aliás, tenho amigos que fizeram hipoteca de suas casas, pagando juros de 1% ao ano, e que aplicaram seu dinheiro como “investidores” aqui no Brasil…
Mas sou incorrigível. Volto à economia, apesar de ter sido chamado de ignorante pelo defensor do sistema bancário. Acontece que às vezes leio textos bastante chatos na imprensa tradicional, aqueles que são publicados em cadernos de Negócios ou de Economia. Pois da minha última leitura destes textos de difícil assimilação para leigos e ignorantes como eu, ficou uma pergunta que não tem jeito de ir para o esquecimento. Discutia a reportagem o fato de que à redução da taxa SELIC não estava diminuindo os juros cobrados pelos bancos em seus empréstimos. Ou seja, o que eles chamam de spread, isto é, a diferença entre o custo da captação de recursos pelos bancos (9,5%) e o percentual cobrado sobre empréstimos feitos (32,82%). Quer dizer, uma diferença de 23,32%… A cifra de recursos captados (saldo médio de depósitos e investimentos), no final de janeiro, era da ordem de 325,3 bilhões.
Justifica-se esta diferença não só pela necessidade dos bancos de lucros estrondosos. É que os riscos dos empréstimos são altos, então o bom pagador deve pagar pelo mau pagador… Só que o percentual de inadimplência ou o calote está na ordem de 3,7%. Mas a alta taxa de spread também é justificada pelos empréstimos direcionados. Diz, no entanto, a reportagem:
“O crédito direcionado é composto pelos financiamentos imobiliários, crédito rural e as operações de crédito com recursos do BNDES. Este tipo de crédito possui juros subsidiados pelo governo, e não sofre o impacto da política monetária da BC.”
Mas aí aparece um economista, João Morais, a explicar que os recursos canalizados para o crédito direcionado, cuja taxa de inadimplência é menor do que a média, produzem um spread alto porque “o subsídio ao direcionado deixa a fatura para o crédito livre”. Quer dizer, a alta taxa cobrada do tomador de empréstimos… Não entendi! Os subsídios de juros não são pagos pelo governo? Ora, se os tais créditos direcionados têm menor risco de calote, se sobre estes mesmos créditos recebem os bancos todos os juros, parte paga pelo tomador, parte paga pelo governo na forma de subsídio, tudo dá a indicar que os bancos preferem aplicar seus recursos – não esqueçamos, não seus, mas os captados a juros baixos – em tais empréstimos, cuja lucratividade é garantida.
Então, sobram poucos recursos para o crédito livre! E aí os agiotas se locupletam: cobram altas taxas de juros… Em suma, os bancos não perdem em nenhum dos lados, tanto nos créditos direcionados quanto no crédito livre. E são absolutamente livres para praticarem as taxas que quiserem, porque qualquer interferência do Estado nesta faceta do capitalismo será considerada “regulamentação” e a ideologia defendida por bancos e seus economistas é a desregulamentação do movimento de capitais. Donde, ficamos com a pergunta: é possível uma política monetária que atue nos dois sistemas de empréstimos fazendo baixar o spread, mantida a mesma concepção de economia neoliberal desregulamentada?
João Wanderley Geraldi é reconhecido pesquisador da linguística brasileira e formou gerações de professores em nosso país. Há já alguns anos iniciou esta carreira de cronista-blogueiro e foi juntando mais leitores e colaboradores. O nome de seu blog vem de sua obra mais importante, Portos de Passagem, um verdadeiro marco em nossa Educação, ao lado de O texto na sala de aula, A aula como acontecimento, entre outros. Como pesquisador, é um dos mais reconhecidos intérpretes e divulgadores da Obra de Mikhail Bakhtin no Brasil, tendo publicado inúmeros livros e artigos sobre a teoria do autor russo.

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