Em algum momento, perdemos a batalha ideológica. Não foi culpa da queda do muro de Berlim: torcemos todos por sua queda. Havia necessidade premente de acabar com desatinos autoritários de direita e de esquerda. Quando de direita, nas ditaduras, falavam que era “regime democrático”, querendo dizer sistema capitalista.
Pois perdemos a batalha e não sabemos como foi que perdemos. Queríamos apenas um mundo mais justo – nem precisava acabar com a propriedade privada. Ao menos um Estado de Bem-Estar Social, onde as diferenças não são tão gritantes e onde convivem com rendas semelhantes a babá e a professora universitária. Continuaria haver ricos? Mas menos ricos! Uma distribuição do que é finito: das terras, dos recursos, da produção, da arte! E um tempo para viver sem atropelos. Uma civilização não do lazer, mas da alegria. O lazer, para nós, era a alegria comprada.
Mas tudo se foi por água abaixo. A batalha, ganharam os inimigos de tudo o que queríamos. Como nós, perdedores, ajudamos os vencedores? Alguns dos seus representantes foram nossos alunos: leram conosco Foucault, Nietzche, Derrida, Lacan, Saussure, Bakhtin! Não esquecemos nada ou esquecemos tudo: os textos que escolhemos estavam muito além da escuta possível? Eles estão no MBL. No Vem pra Rua, nas redes sociais infernizando blogs alternativos e aplaudindo Bolsonaro. E aqueles a que nos referíamos como a chance de outro mundo, votam em Trump e em Dória. Querem o sucesso individual que não virá para todos, mas isso pouco importa. Fazem universidade graças ao PROUNI, ao REUNI, às novas universidades criadas, às cotas… e depois querem o fim dos programas para que outros não ascendam porque se todos chegarem lá, não há mais o sucesso desejado.
Depois da batalha, perdemos a guerra: a guerra da economia. Não a economia nacional e seus percalços. A economia que queríamos internacional. A globalização é a internacional às avessas. É a internacional capitalista. Esta guerra perdida permite aumentar a miséria, concentrar a riqueza e… destruir o planeta. Trump está tentado. Vai bomba cá, vai bomba lá.
Aí restou o quê? Guerras pequenas, individuais, nas insignificâncias das coisas do dia-a-dia. E entrei na guerra pessoal contra cupins. Cupins da terra. Eles podem ter seu ninho a mais de quilômetro da minha casa! Mas a invadiram como a corrupção invadiu a política e o modo de governar. Com veneno que me expulsa de casa, com bloqueio químico, já sei que perderei a guerra: eles retornarão e comerão novamente a celulose deixando a pequena casquinha de madeira para enganar trouxas como eu.
Tudo comido por dentro, como por dentro faleceram nossos sonhos. Cansaço.
João Wanderley Geraldi é reconhecido pesquisador da linguística brasileira e formou gerações de professores em nosso país. Há já alguns anos iniciou esta carreira de cronista-blogueiro e foi juntando mais leitores e colaboradores. O nome de seu blog vem de sua obra mais importante, Portos de Passagem, um verdadeiro marco em nossa Educação, ao lado de O texto na sala de aula, A aula como acontecimento, entre outros. Como pesquisador, é um dos mais reconhecidos intérpretes e divulgadores da Obra de Mikhail Bakhtin no Brasil, tendo publicado inúmeros livros e artigos sobre a teoria do autor russo.

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