PENSAMENTO DE DIREITA: AS HISTÓRIAS QUE ELES SE CONTAM

Há um poema de Vitor Hugo, traduzido para o português por Castro Alves, intitulado “Palavras de um conservador a propósito de um revolucionário”. No poema, deixa o poeta que fale Elisab, o escriba do templo, sobre o que ele chama de “vadio de Nazaré” cuja morte se impunha em nome da ordem e autoridade augusta.

Pois pensei eu em dar aqui espaço para a voz da direita recolhendo pequenas histórias ouvidas muito recentemente. Elas são instrutivas para se compreender contra quem lutamos e a qualidade intelectual daqueles que nem sabem o que defendem, mas defendem com unhas e dentes. São poucas porque tudo nelas se repete… Apesar de eu estar usando aspas, nada é literal.

1.      E tem mais aquela do menor que foi preso por latrocínio. O repórter pergunta ao criminoso se ele está arrependido do que fez e se continuará matando para roubar. E responde o adolescente:

– Aos 14 anos eu arrumei um emprego num mercadinho. Meu patrão foi multado por exploração de trabalho de menor. Depois arrumei um emprego num açougue e de novo fui para a rua porque meu patrão foi multado porque eu era “de menor”. Então comecei a roubar, porque isso eu posso fazer porque sou de menor. Ninguém multa. Por isso vou continuar roubando e matando se preciso, porque sou de menor e não posso ir para a cadeia.

Este é o Brasil que precisa mudar. Esta gente dos direitos humanos são verdadeiros criminosos! Eu trabalhei desde pequeno e nem por isso tenho qualquer recalque. Não deixam trabalhar e por isso essa gente cria os ladrões e os criminosos!”

Moral da história: quem cria criminosos são aqueles que lutam contra o trabalho infantil e a favor dos direitos humanos.

2.      “A praga do Brasil são os professores. Ninguém tem quatro meses de férias como eles. E ainda fazem greve estes vagabundos. Aqui na nossa cidade, conversei com o Prefeito para ver se não dava para fazer uma lista destes professores que ganham tanto dinheiro e não trabalham. Tem professoras aqui ganhando 14 mil, 13 mil, 12 mil reais num município pobre! E todas borrachas, vivem bêbadas, não trabalham. E ainda fazem greve! Tem que denunciar esta gente e por na cadeia. Os professores são a raça que está perdendo o Brasil.”

Moral da história: fico arrependido de ter feito uma carreira de professor universitário. Deveria ter feito concurso nesta prefeitura para ganhar um salário desta ordem por meio turno de trabalho, tendo 4 meses de férias e fazendo greve anual, sobrando algum tempo para ensinar aos filhos destes que contam estas estórias escabrosas.

3.      “A gente trabalha a vida inteira, compra uma fazenda, e vem estes preguiçosos querendo reforma agrária, invadindo o que nos custou tão caro adquirir durante a vida toda. Por que não trabalham e economizam para comprar uma fazenda? A gente não acha uma empregada doméstica! Se quisessem trabalhar, tem emprego. E poderiam economizar para no futuro terem sua fazenda sem fazer invasões. Essa gente é criminosa. Tem que matar mesmo.”

Moral da história: se você trabalhar de empregada doméstica na casa do narrador, ganhando o que eles pagam, economizando a vida inteira, você terá uma fazenda para cuidar porque terá enriquecido como o narrador teria enriquecido…

Com estas histórias, com as generalizações apressadas, com casos específicos, o pensamento de direita justifica qualquer violência social. Os pobres são pobres porque não querem trabalhar nem economizar. Os ricos dão um duro a vida inteira para juntar e estes pobres querem tomar tudo.

Pior do que todas estas histórias, ouvi uma vez uma frase lapidar proferida por uma moradora de condomínio fechado, socialite, esposa de grande executivo: “Estes pobres estão aqui sujando o MEU planeta.”

 

João Wanderley Geraldi é reconhecido pesquisador da linguística brasileira e formou gerações de professores em nosso país. Há já alguns anos iniciou esta carreira de cronista-blogueiro e foi juntando mais leitores e colaboradores. O nome de seu blog vem de sua obra mais importante, Portos de Passagem, um verdadeiro marco em nossa Educação, ao lado de O texto na sala de aula, A aula como acontecimento, entre outros. Como pesquisador, é um dos mais reconhecidos intérpretes e divulgadores da Obra de Mikhail Bakhtin no Brasil, tendo publicado inúmeros livros e artigos sobre a teoria do autor russo.