Os discursos estão ficando bem alinhadinhos, bem arrumadinhos… Todos aqueles que acompanharam a deprimente sessão de 17 de abril da Câmara dos Deputados ouviram claramente que os votos foram “pela mãe”, “pela avó”, “pela tia”, “pela mulher”, “pelos filhos”, “por Deus”, “pelo evangelho” etc. etc. Claro, faltou o “pela amante”. Também faltou o “pelo dinheirinho que virá”. E muitos deles encerraram seus ‘pelos’, de pelos arrepiados de emoção cívica, com o “pelo Brasil”.
Agora o “Pelo Brasil” virou o lema unificador dos discursos. A senadora Marta Suplicy, aquela que foi do PT, que mudou de partido para ser candidata à Prefeitura de São Paulo – atitude de interesse do “Pelo Brasil” – escreveu um texto na Folha de S.Paulo, com o título “Pelo Brasil”.
Na disputa pela “liderança do governo” na Câmara, opõem-se Moreira Franco e Eduardo Cunha. Este mantém seu poder sobre uns 300 deputados do chamado ‘centrão”. Eduardo Cunha, amigo do Temerbroso, lhe prestou o serviço de torná-lo presidente em exercício (esta expressão “em exercício” a imprensa está fazendo questão de esquecer). Temerbroso agora, mal agradecido e traíra como é, pretende se afastar de Eduardo Cunha, apesar do presente recebido. Quer um líder de governo de fora das hostes de Eduardo Cunha. Pois diz o afastado deputado: “É um momento de pensar no País”. Mas se (o escolhido) não for do centrão, espero que não traga problemas na base do governo”. E eis que aparece o lema da Marta Suplicy repetido: “Pelo Brasil”. E para quem conhece o enunciador, obviamente o “mas” introduz uma ameaça velada ao Temerbroso, num jogo de poder em que estão em contenda o presenteador e o presenteado.
E há mais: Geddel Vieira Lima, atual secretário de governo e responsável por sua articulação política, afirma “Não tenho nenhuma dificuldade de diálogo com o ex-presidente Lula e tenho certeza de que, passado esse momento de emoção, o Lula, na condição de ex-presidente, haverá de dar sua contribuição para o distensionamento”. Pelo Brasil.
Neste coral de vozes não poderia faltar o jornalismo ‘sério’. Elaine CASTAnhêde , com toda sua candura, intitula sua crônica “Ordem e Progresso”, e pelo Brasil defende que Temer, o temerbroso, tenha uma trégua para “mostrar a que veio” – como se ninguém soubesse – como se o presidente em exercício tivesse sido eleito e tivesse um capital político disponível para ‘gastar’… Muito casta, muito virgem a moça da massa cheirosa.
Para mostrar união nacional, conciliação de classes etc. etc. não está faltando nem a voz dos empresários. A KIA, uma lídima empresa nacional na definição de nacional ao gosto de José
Serra, nosso coveiro mor, paga propaganda de duas páginas em jornal impresso. Um fundo com uma enorme bandeira brasileira, sem o lema “Ordem e Progresso”, com um trabalhador que a está pintando (dando a entender que as cores da bandeira tinha esmorecido no passado recente), com um texto indicativo do “Pelo Brasil” dos empresários. Em letras brancas, garrafais, lê-se : “Ao invés de falar em crise, vamos mudar o Brasil falando em trabalho, trabalho, trabalho”.
O “pelo Brasil” vai chegando de vagar, sorrateiro, fluido, como todos os lemas um pouco vazio, um pouco cheio. E vai chegando à divergências no interior das estratégias de divergência do partido agora líder da oposição. Diz um: “Nada do que vier desse governo ilegítimo será aprovado por nós” (Paulo Pimenta, PT-RS). Diz outro: “Em princípio, o que nós defendíamos antes, continuaremos defendendo” (Humberto Costa, PT-PE). Um querendo mostrar que o seu “pelo Brasil” passa pelas questões amplas da sociedade desejada; outro querendo mostrar que seu “pelo Brasil” tem pontos de contato com o “pelo Brasil” deles, os que se apossaram do governo. Por aí, estaria aberta a porta de um futuro tenebroso, este sim mais tenebroso do que qualquer tempo temerbroso possível…
Há um precedente histórico, não muito lisonjeiro, deste discurso uniforme que nos atinge. “Deutschland über alls” foi lema e tema, como “pelo Brasil” está sendo lema e tema de atrasados seguidores de um passado temerbroso.
Assim, os usurpadores estão afinados: “Pelo Brasil”. Mas que Brasil? Bom, isto todos sabemos pois a ponte para o passado já nos disse que “pelo Brasil” se trata: ajuste fiscal a ser pago pela redução da renda do trabalho, de modo que o lucro das empresas aumente, pois, como disse o próprio Temerbroso, o Brasil de antes olhou para os pobres, para os trabalhadores e esqueceu que é o lucro o mais importante! Precisamos olhar para os empresários. Ou seja, a bolsa-empresário que custará aos cofres da união neste ano nada menos do que R$ 270 milhões (o bolsa-família custará R$ 28 milhões) ainda é insuficiente. O “pelo Brasil” significa mais privatizações e entrega das riquezas disponíveis ao exterior. O ministro Serra, que faz parte do grupo de brasileiros que tem vergonha de ser brasileiro, lutará com unhas e dentes pela anexação do país aos EEUU através da Alca! Vender o país que dizer “Pelo Brasil”. Mas isso tudo deve ficar por baixo do pano, ser silenciado, quando se apela:
“Pacificação”. “Ordem”. “Trabalho”. “Sacrifício”. “União”. “Conciliação”. “Patriotismo”.
Tudo “Pelo Brasil”.
João Wanderley Geraldi é reconhecido pesquisador da linguística brasileira e formou gerações de professores em nosso país. Há já alguns anos iniciou esta carreira de cronista-blogueiro e foi juntando mais leitores e colaboradores. O nome de seu blog vem de sua obra mais importante, Portos de Passagem, um verdadeiro marco em nossa Educação, ao lado de O texto na sala de aula, A aula como acontecimento, entre outros. Como pesquisador, é um dos mais reconhecidos intérpretes e divulgadores da Obra de Mikhail Bakhtin no Brasil, tendo publicado inúmeros livros e artigos sobre a teoria do autor russo.

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