O Sr. Otávio Azevedo, ex-presidente da Andrade Gutierrez, permanece delator premiado. Isso é o que espanta. Quando acusou a campanha de Dilma/Temer de terem recebido um milhão de reais de dinheiro de propina, em troca de contratos com o governo federal, o escarcéu foi enorme. E a declaração não foi feita assim ao léu. Ela foi uma declaração oficial, enquanto delator premiado, na operação Lava Jato.
Acontece que o cheque de um milhão apareceu, e não era ao portador: tinha o nome de Michel Temer!!! E a partir daí foi para a campanha da chapa, com recibo assinado pelo tesoureira da campanha, como manda a lei.
Então o Sr. Otávio Azevedo é chamado para depor no TSE, no processo que julga o pedido do PSDB de cassação da chapa Dilma/Temer. E no novo depoimento muda a versão. Agora, que o cheque apareceu, o dinheiro é limpinho, cheiroso e retirado do caixa da empresa sem provir de qualquer contraparte a contrato qualquer.
E o sujeito continua premiado. É que delatores se enganam dependendo dos interesses momentâneos de que lhes pergunta. Quando era para produzir efeitos sobre a presidenta, a declaração era de que o dinheiro era sujo, repelente, asqueroso. Propina. Sorriam delegados, procuradores e juiz da Lava Jato.
Sem que esperassem, a campanha de Dilma apresenta o cheque e o caminho que percorreu. Aí tem que mudar tudo. A declaração anterior foi um engano. Agora o dinheiro é bonzinho. Porque é isso que quer ouvir o ministro do TSE. É isso que querem os agentes da Lava Jato.
E, no entanto, o delator continua premiado. E será ainda mais premiado com a nova versão necessária à boa condução da justiça. Ela é cega. Nada vê e julga de modo imparcial. De modo que a nova versão, dita para autoridade mais augusta, será a versão melhor, a definitiva. A não ser que aconteça alguma coisa por aí, e o delator tenha que ser novamente inquirido para dizer que se enganou desta vez, não na anterior… Mas por ora, o que vale é que pelas mãos de Michel Temer, estando presidente, somente passa dinheirinho limpo e cheiroso.
Será que o juiz da Lava Jato não vai se sentir incomodado com a mudança de versão? Vai engolir o sapo? Vai premiar ainda mais o delator, diminuindo a pena ainda mais? Quem sabe ele, de fato, nem corruptor foi! Acho que ele podia mudar a versão… Ah! Esqueci, toda a versão não pode mudar, porque daí tudo cai por terra e não fica bem. Muda-se a versão em partes para garantir as partes que garantidas devem ser para manter condenações desejadas e para livrar a cara de outros que não devem ser condenados. Tudo nos “conformes”.
Todos já sabem, agora, como funciona uma delação premiada. Afirma aqui, nega ali, reafirma acolá, tudo ao sabor dos ventos e da cara do freguês.
E assim caminha o mundo, dentro de seus eixos, sem perigos de colisões porque todos os desvios são possíveis.
João Wanderley Geraldi é reconhecido pesquisador da linguística brasileira e formou gerações de professores em nosso país. Há já alguns anos iniciou esta carreira de cronista-blogueiro e foi juntando mais leitores e colaboradores. O nome de seu blog vem de sua obra mais importante, Portos de Passagem, um verdadeiro marco em nossa Educação, ao lado de O texto na sala de aula, A aula como acontecimento, entre outros. Como pesquisador, é um dos mais reconhecidos intérpretes e divulgadores da Obra de Mikhail Bakhtin no Brasil, tendo publicado inúmeros livros e artigos sobre a teoria do autor russo.

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