Partituras escalonadas

PARTITURAS ESCALONADAS

Aqui estão os que, de mão na mão,

arriscaram tudo; tudo dão

tudo oferecem com generosas mãos;

aqui estão os que se sentem irmãos. (Nicolás Guillén)

PRIMEIRA PARTITURA

Das entranhas amorosas

às vielas delituosas

de La Habana Vieja,

era chegada a hora e a vez,

não de destemidos aventureiros,

mas de seus pátrios heróis

revelando para o mundo

ensandecido condutor

da vitória contra o impostor.

Ou quando debandavam do alto

das montanhas cruzando o planalto,

claro, promovendo escarcéu

aos olhos e ouvidos ao léu

até as margens do Malecón.

Entre rubras tumbas

encharcadas de sangue,

inquietante amuleto

da destra mais vermelha

dos possíveis insurreto.

Nessa exata tropelia

habitavam todas as vilanias.

Contudo, sabe-se,

a barbárie não finda,

preexistindo ainda

em cruel trilha,

sempre em vigília

no solo do Caribe.

Da barganha letal

à balela espanhola,

o ódio é consensual

quando delega e assola

o destino dos filhos

nativos, já de olhos vedados

através do terror camuflado

na libertinagem dos gatilhos.

Na ocasião, como se fossem aves

de rapina em seus rompantes

rápidos e traiçoeiros,

formam ativo instrumento

de horror, causando desalento

e dor, num fogo rasante

sobre o povo  das Antilhas.

SEGUNDA PARTITURA

Há espólios de livros.

Aquele, por excelência,

Testemunha inequívoca

De ascéticos manuscritos.

Quase absoluto, ainda,

o fascínio dos escribas

no mapa-múndi dos arquivos.

De igual modo,

não se limita

na euforia

tamanha altivez

de cada dia.

Resta, então, a chama

visionária  dessa trama.

Muitas vezes, há indícios

de um tempo ilícito

em sintonia recriada,

mediante tolerância alicerçada,

corrosiva, na ótica reverente

desse sestroso exsurgente.

A fúria do clamor,

apenas exorciza

litania precisa no estupor

desses indormidos

arrebatos e bramidos

em que foram forjados

sob o máximo e o mínimo

exercício da crueldade.

No auge das atrocidades,

lendárias maldades.

Na condição do homem

aquece o credo sibilante,

muito antes, intempestivo

no arremedo dos nativos.

O bravo profetizador

até então aglutinador,

o poeta José Martí

por esses anos afora,

ao reverenciar a pátria

no exercício da lida,

delega obstinada

esperança na vida

dos cubanos.

O desentoar das lutas

reponta em saga absoluta

por terra e por mar.

Em todas as milhas

na extensão da Ilha,

intumescidas rotas

de aferidos patriotas,

criando laços de convicção

se adensam no panteão,

como proféticos heróis

de uma suprema nação.

Do Caribe ao Atlântico,

a epopeia de um povo

que se aviva de novo

nesse ideário-cântico.

(Políbio Alves. La Habana Vieja: olhos de ver. João Pessoa : Mídia Gráfica e Editora Ltda, 2015)

João Wanderley Geraldi é reconhecido pesquisador da linguística brasileira e formou gerações de professores em nosso país. Há já alguns anos iniciou esta carreira de cronista-blogueiro e foi juntando mais leitores e colaboradores. O nome de seu blog vem de sua obra mais importante, Portos de Passagem, um verdadeiro marco em nossa Educação, ao lado de O texto na sala de aula, A aula como acontecimento, entre outros. Como pesquisador, é um dos mais reconhecidos intérpretes e divulgadores da Obra de Mikhail Bakhtin no Brasil, tendo publicado inúmeros livros e artigos sobre a teoria do autor russo.