Os Poderes apodrecem na distribuição do butim

Rompida a ordem constitucional com o impeachment sem crime de responsabilidade, apenas atendendo o desejo dos derrotados que achavam que chegava de brincadeira e precisavam assumir o poder quisesse ou não a população, abriu-se o tempo e o espaço para tudo… E como cada um quer tirar sua casquinha, haja lima para amaciar asperezas!!!

Estou rindo de camarote! Agora até a imprensa está achando que estamos numa crise institucional! Quando não havia crime, mas convicção de que a presidente eleita deveria deixar o cargo, não havia crise institucional… As instituições estavam funcionando as mil maravilhas… Segundo a mesma imprensa imbecilizada pela própria mentira… e o tempo da pós-verdade estava atrás da porta! E a porta começou a se abrir…

Estamos em crise institucional desde que um corrupto reconhecido começou a impedir que o Executivo trabalhasse, com suas pautas-bomba e com seus projetos sabidamente descabidos… Mas então estava tudo certo! Ele precisava desestabilizar o governo eleito. De outro lugar espacial, mas não de outro lugar ideológico, a operação dos santos deuses curitibanos se responsabilizava pela parte substantiva do golpe: destruir a economia nacional para que empresas brasileiras não fizessem concorrência com a matriz onde se formou e de onde trouxe todas as informações para agir como salvador o nosso Santo Juiz. Forças unidas.

Pois jogaram por terra a vontade popular. Assumiram o Executivo. Com votos do Legislativo, com aplauso dos tribunais. O Grande Serviço estava feito. Mas aí começou a confusão! Ou melhor, a defenestração. Cumprida a tarefa, foi preciso se ver livre da musa do impeachment, Eduardo Cunha. Depois de cinco meses com o processo na mão, o ministro Teori Zavacki o afasta do comando da Câmara e do cargo de deputado.

Com a criminalização da política, tudo estava aberto e poderia acontecer, já que as regras constitucionais deixaram de prevalecer um momento, logo poderiam deixar de prevalecer em outros.

NO Executivo, nem esquetaram cadeiras muito menos começaram a trabalhar, e as trapalhadas vieram aos borbotões. E cai ministro, e cai ministro, e cai ministro… parece não ter fim. O último que caiu transformou o próprio presidente em moleque de recados fazendo-o transmitir a outro ministro que queria porque queria a liberação da construção do seu apartamento… Mas dizem que o apartamento é do Lula!!! Geddel é apenas testa-de-ferro. Lula é dono de tudo. E também é avô do El Niño! A Lava Jato tem firme convicção!

E então o Legislativo, já relegado ao ostracismo depois de ter feito o serviço encomendado, com um de seus protagonistas nas garras de Sérgio Moro, e outro nas garras do STF, resolve mostrar a cara!!! E a Câmara altera a vontade dos procuradores… Que desrespeito!!! E ainda aprova que abuso de autoridade é crime. De desfaçatez!!! Saem agentes públicos a dizer que renunciam a fazer aquilo para que são regiamente pagos; um  juiz diz não brinco mais, vou entrar em licença sabático e retorno para meu país.

E esta “vindita” legislativa, incluindo uma tal comissão para verificar salários superiores ao que determina a Constituição, não poderia continuar! Decreta-se monocraticamente o afastamento do presidente do Congresso. E decreta-se açodadamente. Com base numa votação que não se completou e portanto não é coisa julgada. O afastamento de Renan, que não é flor que se cheire, foi um gesto de imposição de autoridade. Afinal, o mandato termina daqui a 9 dias! Afastá-lo agora da Presidência – quando o Supremo tinha um processo em curso há anos e jamais julgou – é um ato com cheiro de revanche! A liminar não precisava ser dada, e se era para ser dada, deveria o ministro não agir com açodamento.

E então, a mesa do Senado não acata a ordem do STF!!! E diz que acata a decisão do STF, não de um ministro do STF. Seria uma discussão interminável de vírgulas e firulas das leis… Sempre encontrarão alguma Ordenação Manoelina que dê razão para um, enquanto Ordenações Joanina dão razão para outro! Tudo em latim ou em juridês. 

A merda foi para o ventilador! Os moços das camisas azuis e barbas escanioadas desapareceram. Em momentos de crise, os ratos vão para as tocas e voltarão depois cagando moralidades e jurisprudências com seus longos ou curtos bicos e biquinhos.

Assisto de camarote. E rio a bom rir! Nem temo pelo futuro, porque ele já era sabido e por isso já não amedronta. Amedrontados estão eles: pensavam que seria fácil, facílimo dividir entre ávidos o butim. Está dando no que está dando.

E só consigo rir. Choro apenas quando a polícia, atônita e pronta para lhes prestar serviços, bate com facilidade, mas já não sabe a quem está servindo dentro imbróglio de golpistas… Mas isso fica para a próxima crônica.

João Wanderley Geraldi é reconhecido pesquisador da linguística brasileira e formou gerações de professores em nosso país. Há já alguns anos iniciou esta carreira de cronista-blogueiro e foi juntando mais leitores e colaboradores. O nome de seu blog vem de sua obra mais importante, Portos de Passagem, um verdadeiro marco em nossa Educação, ao lado de O texto na sala de aula, A aula como acontecimento, entre outros. Como pesquisador, é um dos mais reconhecidos intérpretes e divulgadores da Obra de Mikhail Bakhtin no Brasil, tendo publicado inúmeros livros e artigos sobre a teoria do autor russo.