Dizem que cada oferenda feita no dizer ‘sim’ ao impeachment era uma senha do custo do voto. Não acredito nisso. Um boato destes camufla os fatos. E o fato essencial é a forma de eleição dos ditos representantes da sociedade que sequer são representantes de seus eleitores. Eles se apresentam descaradamente como representantes de seus próprios interesses, o principal deles sendo a recondução para a mesma posição nas próximas eleições.
E como eleições no Brasil são caríssimas – e em certo sentido são compradas – os interesses pecuniários não deixam de estarem presentes sempre. Isto é tão forte, que até um ministro da Suprema Corte – Gilmar Mentes – pede vistas a um processo em que seu ponto de vista já havia sido derrotado, para que não houvesse decisão a fim de que recursos empresariais – claro que aqueles destinados aos candidatos de dito juiz eram legais e os destinados a candidatos contrários eram ilegais – fossem canalizados para as últimas eleições de 2014. Somente um ano e meio depois as ‘vistas’ se encerraram, o que é desculpável face às dificuldades visuais de dito ministro.
Mas há ainda algo a considerar além do financiamento eleitoral: o modo como os ditos representantes são eleitos: varia o número de votos necessários de estado a estado, logo a Câmara de Deputados não representa a população e sim estados como se fora um Senado ampliado; muitos não foram eleitos, mas chegaram à Câmara dos Deputados graças aos votos recebidos por outros menos afortunados ainda. Neste sistema em que coligações elegem não eleitos, os partidos descaradamente vem a público oferecer sua legenda para que qualquer um se candidate: um voto a mais pode significar a eleição de um deputado não eleito, mas ‘eleito’ pelo sistema que eleva a representante quem não obteve votos necessários para sê-lo.
Somente quando a reforma política afastar estes dois empecilhos à democracia – e eles não serão afastados por quem deles se beneficia – teremos realmente uma Câmara espelho da sociedade que somos (o primeiro passo para um avanço social é reconhecermos o que somos). Em 2013 foi proposta uma reforma política através de consulta a todos os eleitores. A proposta não foi aceita precisamente por aqueles que vieram ao microfone oferecer seus “sim’; aqueles que nos envergonharam diante do mundo no dia 17.04.2016. Aqueles que acham que, recebendo seus dividendos, farão do país um país feliz para sempre, condenado à felicidade radiante diante das benesses que a eles lhes aprouver.
… “E ficamos ali, extasiados: a barreira tinha sido enfim rompida. Daí em diante seríamos felizes para sempre. Não fomos. Claro que não fomos. Felizes para sempre? Essa não. Felizes para sempre… Como piada, serve. Só como piada”. (Moacir Scliar, Mãe Judia,1964).
João Wanderley Geraldi é reconhecido pesquisador da linguística brasileira e formou gerações de professores em nosso país. Há já alguns anos iniciou esta carreira de cronista-blogueiro e foi juntando mais leitores e colaboradores. O nome de seu blog vem de sua obra mais importante, Portos de Passagem, um verdadeiro marco em nossa Educação, ao lado de O texto na sala de aula, A aula como acontecimento, entre outros. Como pesquisador, é um dos mais reconhecidos intérpretes e divulgadores da Obra de Mikhail Bakhtin no Brasil, tendo publicado inúmeros livros e artigos sobre a teoria do autor russo.

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