Aqueles que são da minha geração e têm boa memória talvez lembrem dos cadarços do General João Batista Figueiredo, chefe do SNI e conhecido na caserna e na comunidade de informações da ditadura militar.
Indicado pelos generais, brigadeiros e almirantes como candidato à presidência nas eleições indiretas na “democracia” daqueles tempos – afinal, estava previsto na constituição de então, logo era democrático como dizem é democrático o impeachment mesmo sem crime de responsabilidade, pois está previsto na constituição – o Gen. Figueiredo precisava se tornar conhecido também da população. Os “delegados” do povo (deputados e sentadores, ops! senadores) afinal o elegeriam presidente!
Eis que é chamada a equipe de marketing para torna-lo popular. Brilhantes, eles armam uma estratégia. Figueiredo deveria agir como um cidadão comum, fazendo algo bem popular. E definiram. Em Florianópolis, se minha memória não me trai, mas a cidade não importa, o general entrou numa loja e comprou cadarços! Os áulicos da imprensa falada e escrita imediatamente começam a elogiar o futuro presidente de turno como uma pessoa simples, comum, popular. Comprador de cadarços! Já então sapatos e tênis duravam menos do que os cadarços que vinham de fábrica, mas valeu a intenção marqueteira, já que o gesto nada tinha de constante entre o povo… mas alguns lembraram que antigamente a gente comprava cadarços (acho que na minha tenra infância).
Pois Temer não desfruta de maior popularidade do que o general de plantão daqueles idos. E precisava realizar algum gesto bastante popular – entre os chineses – para conseguir lá a popularidade que não encontra aqui.
Então entrou numa loja e comprou sapatos chineses! Obviamente a industrial de calçados do Brasil deve ter entrado em êxtase. Afinal, no mercado internacional, concorrem com seus produtos precisamente com os fabricantes chineses.
Mas o gesto foi brilhante. Ele se tornou tão conhecido entre os chineses – e particularmente entre as autoridades mundiais que estavam presentes na reunião do G20- que um empresário chinês o saudou como o Excelentíssimo Senhor Presidente Fora Temer! Pensou que seu primeiro nome fosse “Fora”, já que estes são os cartazes que vê nas manifestações brasileiras publicadas na imprensa internacional! Talvez o incauto empresário tenha sido levado a cometer tamanha gafe pelos “releases” de nossas embaixadas que receberam ordens do Sr. José Serra de fazerem parecer que Temer seria extremamente popular entre nós, apoiado unanimemente por todos. Não tendo outras fotos para mostrar, os consulados e embaixadas distribuíram fotos das manifestações erradas… porque até os coxinhas já gritaram um dia “Fora Temer”!
Quem olha a fotografia dos líderes mundiais reunidos em 2015, com Dilma Rousseff em lugar de destaque e compara com a foto de 2016, com Temer à esquerda (ironia da história), quase fora da foto, perceberá o quanto nosso presidente estava integrado com as autoridades do mundo!
José Serra lhe havia prometido milhares de encontros, particularmente com Obama. Esperava Temer ouvir do presidente dos EEUU a famosa frase “Esse é o cara!”. Pois não ganhou nem foto de aperto de mão! A imprensa brasileira noticiava de boca cheia que Temer ia a China com montanhas de propostas de negócios para fechar com o mundo. Teve um encontro com empresários chineses onde amargou um “Fora Temer”. Encontrou-se com o representante da mais obscurantista monarquia do mundo árabe: da Arábia Saudita! Nem com a direitista Merkel teve encontro reservado, e isso que o Brasil é o país em que a Alemanha mais investe no exterior, não em fundos rentistas, mas em indústrias.
Temer voltou da China com o rabo entre as pernas. Não teve lá o sucesso que gostaria de mostrar aqui para alavancar sua popularidade. Cabisbaixo, vem obedecendo ao PSDB: encaminhará ao Congresso, ainda este mês, a reforma da previdência para dar o sinal que o PSDB quer seja dado aos mercados! Seus companheiros do PMDB que se lixem nos comícios da campanha eleitoral nos municípios e expliquem porque seus eleitores perderão seus direitos hoje garantidos.
Temer sabe que não conquistará popularidade. Então deve pagar imediatamente os débitos que fez para chegar à presidência: agradar o mercado, destruir os avanços sociais dos últimos 75 anos (a CLT de Vargas é de 1945), vender logo tudo que é vendável, tornar ações estatais necessárias ao bem comum como educação, saúde, saneamento, energia etc. em mercadoria vendável. Tudo para eles se vende, já que a alma “não é pequena” e se foi nos negócios e ócios das privatarias do passado que retorna e nos votos indignos do presente dos deputados e senadores. Vendida a alma, não se pode vender a mãe e não entregá-la! A mãe pátria vai na bandeja desde venha a sobrar “algum” aos vendedores. Para que não entendam mal: este “algum” se refere a prestígio internacional em paraísos do consumo neoliberal. Depois das orações do 7 de Setembro, a conquista do paraíso se tornou mais difícil, mas virá com a graça do São Mercado.
João Wanderley Geraldi é reconhecido pesquisador da linguística brasileira e formou gerações de professores em nosso país. Há já alguns anos iniciou esta carreira de cronista-blogueiro e foi juntando mais leitores e colaboradores. O nome de seu blog vem de sua obra mais importante, Portos de Passagem, um verdadeiro marco em nossa Educação, ao lado de O texto na sala de aula, A aula como acontecimento, entre outros. Como pesquisador, é um dos mais reconhecidos intérpretes e divulgadores da Obra de Mikhail Bakhtin no Brasil, tendo publicado inúmeros livros e artigos sobre a teoria do autor russo.

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