Escreve-me um dos meus mais caros leitores, porque um dos meus guias da juventude, levantando a seguinte questão que tomo a liberdade de tornar pública (quer dizer, compartilhar com um punhado de amigos pacienciosos que leem às vezes este blog):
“Quanto aos abalos que sofrem setores empresariais, de capital majoritariamente nacional, por conta de ações do MP e da PF, dando a esses empresários argumentos para demitir empregados, queixar-se de impostos ( os que exportam não pagam, favorecidos pela Lei Kandir) e do peso da burocracia, além de reforçar seu posicionamento favorável às reformas do Temer da Previdência e das Leis Trabalhistas, penso que é temerário buscar por aí aprofundar a crítica necessária à seletividade, tendenciosidade e às atividades espalhafatosas dos ‘templários da moralidade'”.
O comentário se refere a um texto em que defendo que a Operação Lava Jato é um projeto de destruição da economia nacional, particularmente dos setores com projeção no mercado internacional.
Ambos concordamos: há seletividade nas investigações dos “templários da moralidade” (gostei da expressão) da República de Curitiba. Mas para mim permanece a pergunta: por que os setores em destruição são precisamente aqueles que nos últimos anos chegaram ao mercado internacional?
Certamente não há como defender os modos de ação dos empresários na construção de uma forma de governança que se exerce através de propinas (esquema em que caíram, e gostaram de cair, alguns dos líderes em que depositávamos confiança para mudar o jogo mas que passaram a jogar da forma que eticamente sempre condenamos).
Quanto ao fato de estes setores estarem demitindo empregados diante da redução de sua participação na economia nacional (e internacional), parece ser consequência e não causa da ação dos “templários”. Quanto à reclamação dos impostos: fazem-na muito mais as empresas que não estão sendo investigadas, particularmente aquelas da FIESP. O sonho de todo empresário, como disse um economista cujo nome não recordo, é pagar menos a seus trabalhadores e não pagar impostos. E isso que não pagam imposto algum, porque todo o imposto, até aquele sobre a renda, está bem calculado no custo dos produtos e são pagos, portanto, pelos consumidores. As empresas apenas são, neste sentido, agências de arrecadação. E agências quase sempre desonestas: cobram, mas não recolhem os impostos, de modo que os pagantes destes impostos não veem o resultado social dos custos embutidos nos produtos. Basta dar uma olhada na lista dos devedores da Previdência. Basta dar uma olhada nos resultados de uma operação da PF que desapareceu da imprensa, a Operação Zelotes.
Mas a crítica que recebi tem razão de ser: na luta de classes, empresários (da natureza que forem, nacionais ou multinacionais) são parte do nosso contraponto, estão do outro lado. Por isso apoiam as reformas tenebrosas, nunca a torto e a direito, mas sempre à direita.
Mesmo sendo eles o outro lado da luta de classes, mesmo sendo nossos adversários políticos de fato, ainda assim é preciso defender o estado de direito (burguês, é certo e por enquanto, mas um avanço civilizatório em relação à lei de talião), estado que também deveria ter norteado a experiência soviética. Não sou do tipo “nós” (trabalhadores + empresários) e “eles” (governo ou judiciário). Sei quem são nossos inimigos de classe, mas também sei que para além da contradição principal, há contradições a serem exploradas em conjunturas específicas, para que se chegue um dia à mudança da estrutura, que tarda, que não veremos, que se acontecer, acontecerá por exaustão, não mais por solidariedade e união dos trabalhadores (eles votaram em Dória, e pensam o que registrou a pesquisa da Fundação Perseu Abramo). Dizer que é falta de politização, de consciência de classe, que não são culpados por pensarem o que pensam, ideias que um dia defendi ferrenhamente, hoje tomo por um paternalismo insuportável. A consciência ingênua de que falou Paulo Freire não é nada ingênua: o que querem é muito triste para quem defende uma sociedade justa, livre e socialista.
Enfim, concordamos no ponto essencial, ainda que continue eu a acreditar que a destruição da Petrobrás e das empresas brasileiras (das empreiteiras aos frigoríficos) responde a um projeto muito claro de submissão do país ao destino que lhe quer dar a sede do império. Ou seria por mero acaso que o ataque se dá precisamente em setores que concorrem no mercado internacional?
João Wanderley Geraldi é reconhecido pesquisador da linguística brasileira e formou gerações de professores em nosso país. Há já alguns anos iniciou esta carreira de cronista-blogueiro e foi juntando mais leitores e colaboradores. O nome de seu blog vem de sua obra mais importante, Portos de Passagem, um verdadeiro marco em nossa Educação, ao lado de O texto na sala de aula, A aula como acontecimento, entre outros. Como pesquisador, é um dos mais reconhecidos intérpretes e divulgadores da Obra de Mikhail Bakhtin no Brasil, tendo publicado inúmeros livros e artigos sobre a teoria do autor russo.

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