Dias Toffoli vai a Belo Horizonte e, em um encontro internacional sobre Direito Tributário, fala sobre o “protagonismo do judiciário” na política brasileira. Diz que poderá o judiciário cometer, como se já não tivesse cometido, “o mesmo erro dos militares em 1964, querendo se achar donos do poder”, se a política for criminalizada e o Poder Judiciário “exagerar no ativismo”. (http://oglobo.globo.com/brasil/toffoli-judiciario-pode-cometer-mesmo-erro-de-militares-em-1964-20127195#ixzz4KWkEnJ00).
Não riam! Quem está se manifestando é o acólito de Gilmar Mentes, o militante do PSDB que nas horas vagas atende por ministro do STF. E como se sabe, enquanto os mandados e as prisões preventivas eram executados todos visando o PT e Lula, nem Gilmar nem Toffoli se manifestaram contra. Agora, com tanto mandado, com tantos investigando, com tanto alarde, eis que é preciso blindar a “companheirada” do PSDB! Acostumados a mandar arquivar processos contra Aécio Neves (sabe, eles podem ter provas, mas não têm convicção), contra José Serra, Geraldo Alkmin e outros menos cotados, eis que agora começa um “abafa”.
Tudo isso depois do espetáculo midiático de Dallagnol e companheiros. Como a peça acusatória causou constrangimentos nos meios jurídicos, apressadamente sai atrasado o Sr. Dias Toffoli a pedir menos ativismo!!! Somente bobo vai acreditar que esta é a razão efetiva do ministro. Teve seu nome enxovalhado numa “denúncia” que não era denúncia na revista VEJA, para inviabilizar uma delação efetiva de Léo Pinheiro da OAS, que agora somente poderá falar na delação, com seu prêmio garantido, sobre o caixa 2 das campanhas da “companheirada”, reaparece o ministro não para informar as providências que tomou contra a VEJA, somente querendo menos ativismo. Mas dará seu voto favorável a transformar em não crime o caixa 2 de campanhas, para salvar José Serra, Aécio Neves, Geraldo Alkmin e companhia… Tudo pelo não ativismo político do judiciário.
Não é à toa que o Globo rapidamente repercutiu a fala de Belo Horizonte. Depois disso, aparecerão os “analistas” (Miriam Leitão e Elaine Cantanhêde puxando o cordão) para dizer que tem toda razão o senhor ministro. Criar-se-á com rapidez a unanimidade a propósito do excesso de ativismo do judiciário. E começará o descarte da equipe da Lava Jato! Já cumpriram o seu papel, agora precisam se retirar da cena. É bem verdade que os procurados, na ânsia de prestarem mais serviços, escorregaram feio na denúncia contra Lula. Entretanto, sabem que Sérgio Moro, retornando hoje dos EEUU, já recebeu a incumbência de aceitar a denúncia porque partilha da mesma firme convicção, na falta de provas…
E eles, os procuradores, continuam respirando bem. O Conselho Nacional do Ministério Público acaba de rejeitar a liminar contra o espetáculo da quarta-feira passada! Mas o CNMP pediu informações aos procuradores envolvidos. Todos os membros fazem de conta que não viram, não ouviram, não estavam presentes quando do espetáculo circense da denúncia contra Lula, Dona Marisa e mais outros… E voltarão a estar ausentes quando o impoluto e imparcial juiz, segundo despacho de outro ministro do STF, Sérgio Moro aceitar a denúncia! Isto tudo pode, só não pode “ativismo exagerado”, e ativismo exagerado é contra membros do PSDB, do PMDB e adjacências…
Assim, que acrescentarão como defesa os procuradores-atores do espetáculo? Nada mais, nada menos do que argumentos como “me acusam de ser ação partidária se são 50 ou mais pessoas que estão envolvidos na investigação”. Logo, como são muitos, todos são não partidários! Oram vejam… Mais um argumento ontológico. Eles existem; eles são muitos, logo não são partidários.
E infelizmente ficaremos neste “ora vejam…” se imaginarmos, mesmo que reconditamente, que Dias Toffoli não faz parte da equipe de membros do judiciário que está implantando no país, sob a batuta dos neoliberais de carteirinha, um regime policial-jurídico-midiático para calarem e depois assaltarem o futuro do país! A polícia de Geraldo Alkmin estará à disposição do Sr. Ministro Dias Toffoli na próxima manifestação popular que se atrever a mostrar que não há unanimidade no país, que o projeto do golpe é de uma minoria que perdeu as quatro últimas eleições para a presidência. E perderá novamente em 2018! Para evitar isso, talvez o STE, sob a presidência de Gilmar Mentes, suspenda as eleições em nome da estabilidade do país, como fizeram os militares no passado.
Aliás, Gilmar Mentes já prometeu que em 2017 haverá o julgamento da cassação da chapa Dilma/Temer, uma espada com que cutucam diuturnamente o golpista Michel Temer para que faça o que querem que feito seja. E então, explicou na mesma ocasião o douto militante do PSDB, haverá eleições indiretas para a presidência. Henrique Meirelles e Sérgio Etchegoyen já disputam entre si dois programas distintos na aparência: o da incivilidade neoliberal e o da força bruta do capitalismo armado.
Somente as ruas poderão deter o golpe e o golpe no golpe que se avizinha apressado, graças ao ativismo de juízes como Dias Toffoli..
Não
João Wanderley Geraldi é reconhecido pesquisador da linguística brasileira e formou gerações de professores em nosso país. Há já alguns anos iniciou esta carreira de cronista-blogueiro e foi juntando mais leitores e colaboradores. O nome de seu blog vem de sua obra mais importante, Portos de Passagem, um verdadeiro marco em nossa Educação, ao lado de O texto na sala de aula, A aula como acontecimento, entre outros. Como pesquisador, é um dos mais reconhecidos intérpretes e divulgadores da Obra de Mikhail Bakhtin no Brasil, tendo publicado inúmeros livros e artigos sobre a teoria do autor russo.

Comentários