Verbetes do novo dicionário da política brasileira, elaborado pela imprensa tradicional, impressa e televisiva, para uso corrente de cronistas, analistas, comentaristas e outros profissionais da nossa nova imprensa.
1.Preenchimento de cargos na administração federal
Ontem: toma-cá-dá-lá, “ocupação de cargos como ‘mercado’ para agregar votos nos parlamentos atenta contra a moralidade, a eficiência e o interesse público” (Paulo Soares Bugarin, procurador do Ministério Público de Contas)
Hoje: criteriosa e excelente construção de densidade parlamentar. O sentido anterior permanece em alguns usos quando estes se referem a prefeitos da raça desejada em extinção, como Fernando Haddad.
2. Relações com os países vizinhos
Ontem: diálogo e esforço de construção de uma união fortalecedora de uma região do mundo que desde os primórdios da modernidade foi explorada como se fosse um quintal dos países desenvolvidos.
Hoje: Repúdio aos vizinhos que tiveram ousadia de se relacionar com o governo anterior, com objetivo do atual governo de se tornar confiável à matriz, numa diplomacia que busca, no fim e ao cabo, uma anexação aos Estados Unidos da América através da ALCA.
3. Justiça
Ontem: expressão de definição ambígua, mas extremamente significativa, que anda pelas bocas dos movimentos sociais, dos sindicatos, dos trabalhadores, de intelectuais militantes, sem que seu sentido fosse definido com clareza.
Hoje: conceito absolutamente claro e concreto, com definição dada pela enciclopédia do PCC – Primeiro Comando da Capital, organização benemérita de profissionais em áreas submersas – escrita com o auxílio dos seus advogados, dos quais um dirige o próprio ministério da justiça graças à obra enciclopédica realizada no passado, junto à filiação num certo partido, aquele dos limpinhos.
4. Reações fisionômicas de tristeza
Ontem: sintomas de desolação de um sujeito que está frente ou sofreu a alguma ação absolutamente inadequada, como a prática de uma injustiça, a prática de um golpe, a prática de uma traição.
Hoje: retrato do desnorteio, da falta de caminhos, do descalabro de uma trajetória infalivelmente descendente (verbete elaborado com a colaboração de Dora Kramer).
5. Fisionomia séria e fechada de governante
Ontem: desprezo, arrogância autocrática, impermeabilidade e recusa de ouvir a voz alheia.
Hoje: sinônimo de realismo, austeridade e eficiência do governante de turno.
6. Bolsa empresário
Ontem: uma exigência dos empresários da FIESP e outras federações menos cotadas na bolsa de valores para a retomada do investimento e a alavancagem do desenvolvimento.
Hoje: mecanismo ineficiente para elevar a produção e garantir desenvolvimento, motivo por que deve ser abandonado para que a FIESP tenha motivos justos para fazer a renda do trabalhar pagar o pato que ela já comeu e digeriu, de modo que reclamações são desconhecimentos da realidade dos negócios atuais.
7. Financiamento de políticos pelas empresas da Lava Jato
Ontem: crime face à origem suja do dinheiro doado a campanhas eleitorais petistas, pois dinheiro proveniente do caixa 2 das empresas, quando as doações são para políticos de um partido; quando para outros partidos confiáveis, de políticos limpinhos, dinheiro limpo e nada escorregadio.
Hoje: Que é isso? Ah! Ouvi falar. Era uma coisa que existia no tempo do PT. (verbete elabora do com a colaboração robusta de Gilmar, Mentes)
Como sabem todos aqueles que estudam o vocabulário, ele é construído ao longo de um tempo, um tempo grande ou que se quer grande. Em poucos dias, na novilíngua, começam a aparecer apenas alguns elementos indicativos do futuro do novo dicionário. Por isso, outros verbetes virão com o tempo, fixando os novos sentidos.
Como se pode ver por estes poucos verbetes, o passado chegou.
João Wanderley Geraldi é reconhecido pesquisador da linguística brasileira e formou gerações de professores em nosso país. Há já alguns anos iniciou esta carreira de cronista-blogueiro e foi juntando mais leitores e colaboradores. O nome de seu blog vem de sua obra mais importante, Portos de Passagem, um verdadeiro marco em nossa Educação, ao lado de O texto na sala de aula, A aula como acontecimento, entre outros. Como pesquisador, é um dos mais reconhecidos intérpretes e divulgadores da Obra de Mikhail Bakhtin no Brasil, tendo publicado inúmeros livros e artigos sobre a teoria do autor russo.

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