OCUPAÇÕES DE ESCOLAS: ESPERANÇA À DESESPERANÇA QUE NOS SE ABATE

Deve ser bastante difícil para o pensamento único, que vem sofrendo retrocessos até mesmo nos gabinetes “técnicos” do FMI, do Banco Europeu, do Federal Reserve norte-americano, ver no horizonte próximo o decreto de sua própria morte, cuja sepultura ele mesmo vem cavando na mesma medida em que vai impondo a pobreza e a miséria de muitos para concentrar a riqueza nas mãos de tão poucos, nesta ciranda financeira sem qualquer lastro efetivo na economia concreta da produção e do consumo. Giram papéis, recebem rendas e ainda não começaram a devorar-se uns aos outros porque há reservas de riqueza nas mãos de uma classe média que insiste em apoiar suas medidas até que também seus bolsos começarem a minguar efetivamente, até perceberem que as rendas que recebem das aplicações nos fundos de resgate automático em seu banco não salvarão seus empregos e as comodidades que por enquanto lhe são permitidas. Quando também isso terminar, começará o salve-se quem puder, com abutres caindo sobre abutre, dilacerando o cadáver que o neoliberalismo construiu.

A juventude, de pele mais sensível, na exploração dos hormônios que a faz mais amorosa, generosa e previdente (previdente sim, no sentido de prever o que o horizonte da estrutura social tal como está e que receberão como herança lhes trará como futuro) está ela respondendo à desesperança que sobre nós se abate. O primeiro movimento se deu em São Paulo contra a reorganização do sistema escolar desejada pelo governo do pensamento neoliberal, um nome para esconder a precarização da oferta de educação formal e atender necessidades orçamentárias de uma gestão que já vendeu tudo e não tem mais o que vender exceto terrenos supervalorizados nos centros das grandes cidades do estado, espaços “mal ocupados” com escolas.

Como gerir a coisa pública para a eficiência neoliberal é bater débito e crédito no fluxo de caixa, os mais de vinte anos de governo paulista nas mãos do pensamento único já vendeu tudo: bancos, estradas, água, saneamento, etc e até mesmo desistiu de fazer obras em nome das “Parcerias” em que entra com capital e sai sem nada. Não havendo mais o que vender, quer “reorganizar” as escolas para vender prédios e terrenos. Os estudantes disseram um redondo NÃO.

Depois disso, ocupar escolas fez escola e em outros estados, mesmo que com menor força, alguns projetos educacionais foram adiados, suspensos ou mesmo abandonados. Ainda há entre os “técnicos” algum receio de cutucar a onça com varinha curta.

Agora, o Paraná está dando exemplo. São mais de 200 escolas do estado ocupadas e o movimento dos estudantes paranaenses, generosamente, inicia algo que precisa se tornar nacional, pois o que pretendem alcançar é o recuo na “reforma” do ensino médio, cuja proposta deste governo retoma as ideias mal digeridas e fracassadas no passado: um ensino médio precariamente profissionalizante. Aqueles que eram professores na década de 1970 lembram o que significou a implementação de “terminalidades” profissionais no então 2º. Grau: tratava-se de oferecer mão de obra minimamente preparada e por isso mal paga para o “desenvolvimento nacional”. Participei de reuniões com empresários de uma cidade do interior gaúcho: pediam que formássemos “faturistas”, redatores de correspondência comercial, auxiliares de contabilidade, etc. etc. Cometi o disparate de perguntar a um empresário que fizera a proposta quantas vagas ele oferecia na sua indústria para “faturistas” e ele me respondeu que tinha 3 vagas… Um curso “técnico” para formar três empregados baratos para uma indústria?

Bom, é isso que quer a reforma atual, encaminhada com urgência – porque através de medida provisória – para o ensino médio, isto é, para a juventude contemporânea. Agora já não se justifica o mesmo projeto retomado da ditadura militar com base na “ideologia do desenvolvimento nacional”, mas toma-se como fundamento ideológico  numa mirabolante e cada vez mais distante saída da crise econômica a que nos lançou o rentismo do empresariado ( a FIESP deveria mudar de nome, porque seus membros se tornaram rentistas e não são mais industrialistas. E têm razão: para que um esforço de produzir com lucros inferiores àqueles que os investimentos financeiros proporcionam?). Dentro dos moldes do pensamento neoliberal, não há saída para crise alguma, somente aprofundamento de crises, de desemprego, de inércia produtiva e desregulamentação do trânsito de capitais. Note-se o capital se tornou eternamente “em trânsito”, ou seja, não está aplicado concretamente em fábricas, em máquinas, em cadeia produtiva.

Em sua grande maioria procedentes das empobrecidas classes médias, cujo horizonte mais evidente é a pobreza e a miséria do desemprego, os estudantes perceberam isso. Perceberam o engodo da reforma do ensino médio.

Que o exemplo dos estudantes do Paraná (nem o Paraná nem Curitiba se reduzem à chamada “República de Curitiba” gerida pelo Dr. Sérgio Moro) frutifique e se espraie pelo Brasil todo. Somente os estudantes têm força para impedir a aprovação da MP do Ensino Médio. Ninguém mais a tem. Nem partidos nem sindicatos de professores. A nós professores cabe apoiar nossos estudantes torcendo para que tenham sucesso, repetindo o que nossa geração conseguiu no passado: a queda da ditadura militar. Porque hoje é tempo de ações pontuais que reunindo multidões vai espicaçando e quebrando a resistência de um pensamento que “deve tirar as patas da história”, para retomar um velho chavão do passado.

  

João Wanderley Geraldi é reconhecido pesquisador da linguística brasileira e formou gerações de professores em nosso país. Há já alguns anos iniciou esta carreira de cronista-blogueiro e foi juntando mais leitores e colaboradores. O nome de seu blog vem de sua obra mais importante, Portos de Passagem, um verdadeiro marco em nossa Educação, ao lado de O texto na sala de aula, A aula como acontecimento, entre outros. Como pesquisador, é um dos mais reconhecidos intérpretes e divulgadores da Obra de Mikhail Bakhtin no Brasil, tendo publicado inúmeros livros e artigos sobre a teoria do autor russo.