Com o mau tempo em Campinas, chuvas, trovoadas, ventos, raios e granizo – que na infância chamávamos de chuva de pedra – perdi a conexão. Foram apenas quatro dias, e este tempo me pareceu uma eternidade.
Como as informações da TV são o que são, obviamente é preferível um ‘exílio’ momentâneo a ficar numa poltrona a ouvir mentiras ou calamidades vistas com lentes de aumento, com análises culpabilizando governos municipais, como se em três ou quatro anos devessem os prefeitos resolver todos os problemas da urbanização acelerada sofrida pelas transformações dos modos de produção no campo, um modo capitalista de produção, que expulsou da terra trabalhadores rurais e pequenos agricultores.
Às vezes aparecia – não sei se ainda aparecem – algum comentário mais amplo, culpabilizando a sociedade pelos estragos produzidos na natureza, e vaticinando que as calamidades recém iniciadas são a resposta da natureza ao desmazelo e ganância da sociedade. Nenhuma análise mais profunda que mostre que este desmantelamento é consequência não da sociedade, mas da forma de organização desta sociedade no seu modo de produção capitalista.
Ao retornar deste ‘exílio aqui’ – para retomar o poema de Moacir Félix (Canção do exílio aqui) – me dou conta da nossa dependência da tecnologia. E lembro a reação de um amigo quando de introdução destas maquinarias até mesmo nos bares. Ele apontava para uma das desgraças das máquinas: no passado, ficava-se tomando a ‘saideira’ enquanto chegava a conta; atualmente vai-se para uma fila, fica-se de pé, para poder pagar.
São os tempos…
E eu aproveitei o tempo para ler: formei uma razoável biblioteca ao longo da vida, para ler literatura e história quando me aposentasse. Livrei-me da biblioteca ‘profissional’, doando teses, dissertações, revistas e alguns livros para a biblioteca do programa de pós-graduação da área da Universidade Federal do Espírito Santo que pagou as remessas de correio de um pouco mais de dois mil volumes. Despeguei-me depois de mais 3000 volumes vendidos a Universidade Estadual do Oeste do Paraná, que também levou meus documentos: pastas de correspondências do tempo em que escrevíamos cartas, meus relatórios de atividades, meus pareceres nos tempos em que se fazia isso na máquina de escrever (e sempre guardei cópias feitas a carbono!). Agora me sobraram os livros que quero ler: literatura, história e filosofia.
E obviamente, muito egoísta, conservei tudo o que tenho de Mikhail Bakhtin e sobre MIkhail Bakhtin. Mas tenho retornado mesmo aos meus livros de poesia: por isso lembrei a Canção do Exílio Aqui, que preciso reler, afinal estamos exilados novamente enquanto durar o governo usurpador e perdurar a censura rosaweberiana do STF: não pode falar a palavra golpe porque aqueles que nos deram o espetáculo de 17/04/16 se sentem ofendidos ao serem chamados de golpistas… e a juíza concordou e pede explicações… Quem sabe ela poderia pedir explicações a todos os correspondentes de jornais internacionais em que as análises batem na mesma tecla: um golpe praticado contra a honestidade de uma presidente por inveterados ladrões.
João Wanderley Geraldi é reconhecido pesquisador da linguística brasileira e formou gerações de professores em nosso país. Há já alguns anos iniciou esta carreira de cronista-blogueiro e foi juntando mais leitores e colaboradores. O nome de seu blog vem de sua obra mais importante, Portos de Passagem, um verdadeiro marco em nossa Educação, ao lado de O texto na sala de aula, A aula como acontecimento, entre outros. Como pesquisador, é um dos mais reconhecidos intérpretes e divulgadores da Obra de Mikhail Bakhtin no Brasil, tendo publicado inúmeros livros e artigos sobre a teoria do autor russo.

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