O VERBAL E A GRAÇA VERBAL (1)

                                                                                                          

         O trabalho com a linguagem, executado através dos processos discursivos, percorre um continuum de objetivos que vão desde a necessidade de construir uma compreensão comum e aproximadamente idêntica até a abertura máxima dos sentidos. Nos processos interativos trabalhamos, na relação com a alteridade, com recursos expressivos para compor ora textos extremamente referenciais, ora para compor textos ficcionais que construindo um mundo próprio nos fala do mundo que não é, que não existe, para nos fazer compreender com maior profundidade ou apanhar por outros ângulos o mundo que é. Entre o trabalho pragmático e referencial e o trabalho estético, uma gama de outros textos são possíveis. Todos eles – os textos – enquanto materializações de um discurso cuja materialidade se encontra nas relações sociais, operam com esta sistematização aberta que é a língua para apresentar em sua superfície  as vinculações com as diferentes esferas das atividades humanas, situadas estas numa organização social cujos fundamentos nos fornecem os estudos sociológicos. O discurso científico e o discurso didático são talvez os melhores exemplos das tentativas, dos tateios de uma referencialidade e sentidos únicos compartilhados entre os sujeitos sociais. O discurso poético, o discurso estético, espicaçando a linguagem e as línguas, venda e desvenda um mundo secreto, nem por isso menos concreto. Ao nos mostrar valores que conduzem nossas ações, fundados em princípios tão distantes que os perdemos de vista, espantam-nos e fazem rever o que comanda assim tão sub-repticiamente nossos fazeres e nossos dizeres.

         Por isso, como diz o poeta

Passarinho parou de cantar.

Essa é apenas uma informação.

Passarinho desapareceu de cantar.

Esse é um verso de J. G. Rosa.

Desapareceu de cantar é uma graça verbal.

Poesia é uma graça verbal.

(Manoel de Barros, Tributo a J. G. Rosa)

         São as graças verbais do trabalho de seleção e composição estética que fazem o leitor estancar a linearidade do texto para rever, reolhar, entreolhar os diferentes links de sentidos postos em circulação e que tornam bem mais complexas as compreensões do aparentemente simples.

         No conto O Corcundinha, de Roberto Arlt, a personagem-narradora “bancava o noivo” de uma das filhas, na casa da senhora X. E nela estrangula Rigoletto, um corcundinha que encontrara num bar e com o qual maquinara o plano para descobrir se efetivamente a “noiva” o amava: para prová-lo, esta deveria dar um beijo no insolente corcundinha Rigoletto. Como a noiva se recusou, Rigoletto faz um longo discurso em que defende insolentemente seu direito de ser beijado e a obrigação da moça em beijá-lo. O narrador o estrangula, não só por sua insolência. Na verdade, como já dissera antes:

Recordo (e isto a título de informação para os aficionados da teosofia e da metafísica) que desde a mais tenra infância os aleijados chamaram-me a atenção. Eu os odiava ao mesmo tempo que me atraíam, assim como abomino e me excita a profundidade aberta sob a sacada de um nono andar, de cujo parapeito já me aproximei mais de uma vez com o coração tremendo de cautela e delicioso pavor. (p. 17-18)

         Tomemos uma graça verbal, quando o narrador nos fala do comportamento sardônico e feroz de Rigoletto: Ele continuava observando uma conduta impura.

         Ao selecionar o item lexical “observando”, em lugar de outros possíveis como “tendo”, “mantendo” ou em lugar de “observando uma conduta” tivesse empregado “comportando-se” ou “conduzindo-se”, perderíamos esta graça verbal que nos faz recordar que nossas condutas são obediências a regras, cumprimentos do estabelecido sem que nos demos conta disso. Observamos uma conduta, isto é, seguimos a regra, mantemos o estatuído…

         Obviamente a graça estética não se constroi apenas pela seleção dos itens lexicais, mas também pelas surpresas do enredo. Costurando a linguagem com outras linhas, operando com a construção do fantástico, a escritora uruguaia Giselda Zani toma um enredo tão simples como a procura de outra morada – uma outra Passárgada, já que onde se está é sempre onde não se quer estar – no conto La casa de la Calle del Socorro nos faz acompanhar Cristina em sua surpresa de encontrar em lugar tão central uma vivenda com jardim e sala de estar onde os objetos parecem ter ali nascidos. Perdida em suas surpresas, decide alugar a casa e quer saber com quem lidar sobre os detalhes da transação. Antes mesmo de indicar sua direção, Cristina ouve o mordomo escandir sílaba a sílaba o nome de sua avó – Doña Maria Cristina Deschamps de Lefaur. Como ele sabia seu nome e de sua família? Que outros mundos há numa casa que já foi habitada? Que outros mundos conheceram seus habitantes de que o velho mordomo ainda é um representante? Ou melhor, de que mundo outro vem este mordomo?

         Voltemos ao poeta brasileiro Manoel de Barros

           Mundo Pequeno

I.                                              

O mundo meu é pequeno, Senhor.

Tem um rio e um pouco de árvores.

Nossa casa foi feita de costas para o rio.

Nos fundos do quintal há um menino e suas latas

           maravilhosas.

Seu olho exagera o azul.

Todas as coisas deste lugar já estão comprometidas

           Com aves.

Aqui, se o horizonte enrubesce um pouco, os

           Besouros pensam que estão no incêndio.

Quando o rio está começando um peixe,

                                                 Ele me coisa

Ele me rã

Ele me árvore.

De tarde um velho tocará sua flauta para inverter os

           os ocasos.

         Aqui o poeta embaralha léxico e sintaxe. Faz estranhar e faz pensar no mundo material encorpado no pensamento humano, em que o olho exagera o azul, o rio me coisa e me rã e me árvore. Eu sou as coisas. As coisas são o que sou. Para isso, é preciso inverter os ocasos para que outro dia nasça, um dia poético, porque enfim

… devemos compreender que estamos neste pequeno planeta, casa comum, perdidos no cosmos e que, efectivamente, temos uma missão que é civilizar as relações humanas na Terra. As religiões da salvação, as políticas da salvação diziam: sejam irmãos, porque seremos salvos. Creio que hoje seria necessário dizermos: sejamos irmãos porque estamos perdidos, perdidos num pequeno planeta dos arredores de um sol suburbano de uma galáxia periférica de um mundo privado de centro. Estamos aí, mas temos as plantas, os pássaros, as flores, temos a diversidade da vida, temos as possibilidades do espírito humano. Está aí, doravante, o nosso único fundamento e o nosso único recurso possível. (Edgar Morin, 1997, p. 44)

Nota

  1. Publicado in. Subtrópicos. Revista da Editora da UFSC. N. 3, dez 2013, p. 8.

                    

Referências

ARLT, Roberto. As feras. São Paulo : Iluminuras, 1996.

BARROS, Manoel. Tratado geral das grandezas do ínfimo. Rio de Janeiro : Record, 2001.

_______________ O livro das ignorãças. In. _______ Poesias Completas. São Paulo : Leya, 2010.

MORIN, Edgar. Amor Poesia Sabedoria. Lisboa : Instituto Piaget, sem data (original de 1997).

ZANI, Giselda. Dos relatos. Montevideo : Ediciones de la Banda Oriental, 2000.

 

João Wanderley Geraldi é reconhecido pesquisador da linguística brasileira e formou gerações de professores em nosso país. Há já alguns anos iniciou esta carreira de cronista-blogueiro e foi juntando mais leitores e colaboradores. O nome de seu blog vem de sua obra mais importante, Portos de Passagem, um verdadeiro marco em nossa Educação, ao lado de O texto na sala de aula, A aula como acontecimento, entre outros. Como pesquisador, é um dos mais reconhecidos intérpretes e divulgadores da Obra de Mikhail Bakhtin no Brasil, tendo publicado inúmeros livros e artigos sobre a teoria do autor russo.