Provavelmente a maior demanda que o sistema econômico faz à rede de escolas é a preparação para o trabalho: uma profissionalização que dispense as empresas de treinamentos demorados e custosos quando da contratação de mão de obra. Profissionalização também para aqueles profissionais que amanheceram incompetentes e foram dispensados de seu trabalho, num sistema em que cada vez mais o trabalho humano vem sendo substituído pela maquinaria mecatrônica e eletrônica.
Comecemos com uma pequena história contada por uma professora especialista em formação profissional na escola. Um grande conglomerado da área eletrônica, de capital alemão, instalou uma unidade de produção numa grande cidade brasileira. O sistema de produção totalmente mecanizado e eletronicamente controlado, exigia a presença de poucos trabalhadores e a maioria deles para ficarem em frente ao monitor verificando se tudo corria bem. Toda vez que o monitor começasse a apresentar imagens embaralhadas ou imagens não comuns, o serviço a ser executado era levantar um interfone, avisar o supervisor o que estava aparecendo no écran. Recebia então instruções: tecla X ou Y, dê enter, aguarde um instante. Se voltar tudo ao normal, tudo bem. Continue seu “trabalho”. Se a solução não fosse adequada, novas instruções, novos cliques em novas teclas até que a máquina voltasse a operar normalmente e na telinha voltasse a imagem costumeira. A pergunta imediata é: que preparação é necessária para este “trabalho”?
Outra história: minha filha acabava de defender sua tese de doutoramento na Universität Siegen (Alemanha) em Engenharia de Produção Mecânica, na área de Gestão de Projetos. Sua preocupação imediata de sucesso no mercado de trabalho tinha como posto que, estando ela com 27 anos, teria um tempo determinado de possibilidades, pois o mercado a descartaria em torno de seus 45 anos. Era preciso “fazer o pé de meia” imediatamente para garantir algum futuro na vida. Com uma formação técnica em química, com um curso de graduação em engenharia de produção química, com um doutorado em engenharia de produção mecânica, com especialização em Gestão de Projetos(2), entrando no mercado de trabalho e trabalhando neste mercado, ainda assim estaria despreparada menos de 20 anos depois? O trabalho não forma? Não ensina? Não produz experiência? Aos 45 anos não estaria melhor preparada do que quando saía da universidade? Que sistema de produção é este que torna obsoletas não só as máquinas, mas também as pessoas? Que não tem qualquer interesse pela experiência, mas exige trabalhadores “iniciantes com experiência”?
Jorge Gerdau, presidente do movimento “Todos pela Educação”, entrevistado pelo jornal O Estado de S. Paulo, responde à pergunta sobre as razões que o levaram, enquanto empresário, a liderar um movimento sobre a educação. A resposta veio clara e precisa: o grupo não conseguia obter nas fábricas brasileiras a mesma produtividade que obtinha em outros países, ainda que a tecnologia e as condições de produção fossem as mesmas. Observando quais diferenças existiam entre uma e outra fábrica, o grupo de trabalho constituído dentro da empresa mostrou que a maior diferença estava no nível de escolaridade dos trabalhadores. Em função disso, o Grupo Gerdau fez um projeto de escolarização para seus trabalhadores, de modo que hoje nem para servir o cafezinho o empregado pode ter menos do que o ensino médio. A produtividade da fábrica brasileira não só se equiparou à produtividade de fora, como a ultrapassou.
Bauman (2008, p. 14) retoma um conceito elaborado por Habermas: o da comodificação entendida como tarefa principal do Estado capitalista: “…a reprodução da sociedade capitalista é obtida mediante encontros transnacionais interminavelmente repetidos entre o capital no papel de comprador e o trabalho no de mercadoria, então o Estado capitalista deve cuidar para que esses encontros ocorram com regularidade e atinjam seus propósitos, ou seja, culminem em transações de compra e venda”
A comodificação entre capital e trabalho, como se sabe, no modelo neoliberal se fez e se faz por dois processos simultâneos: a desregulamentação das relações empregador/empregado, e pela privatização de empresas e órgãos governamentais, tornando nicho de mercado serviços antes prestados pelo Estado(3).
Consideremos a seguinte passagem(4):
A tarefa de recomodificação do trabalho foi a mais afetada até agora pelos processos gêmeos da desregulamentação e da privatização. Essa tarefa está sendo excluída da responsabilidade governamental direta, mediante a “terceirização”, completa ou parcial, do arcabouço institucional essencial à prestação de serviços cruciais para manter vendável a mão-de-obra (como no caso de escolas, habitações, cuidados com os idosos e um número crescente de serviços médicos). Assim, a preocupação de garantir a “vendabilidade” da mão-de-obra em massa é deixada para homens e mulheres como indivíduos (por exemplo: transferindo os custos da aquisição de habilidades profissionais para fundos privados – e pessoais), e estes são agora aconselhados por políticos e persuadidos por publicitários a usarem seus próprios recursos e bom senso para permanecerem no mercado, aumentarem seu valor mercadológico, ou pelo menos não o deixarem cair, e obterem o reconhecimento de potenciais compradores.
Tendo passado vários anos observando de perto (quase como participante) os mutáveis padrões de emprego nos setores mais avançados da economia norte-americana, Arlie Russel Hochschild descobriu e documentou tendências surpreendentemente semelhantes às encontradas na Europa e descrita de forma muito detalhada por Luc Boltanski e Eve Chiapello como o “novo espírito do capitalismo”. A preferência, entre empresários, por empregados “flutuantes”, descomprometidos, flexíveis, “generalistas” e, em última instância, descartáveis (do tipo “pau-para-toda-obra, em vez de especializados e submetidos a um treinamento estritamente focalizado) foi o mais seminal de seus achados. Nas palavras do próprio Hochschild:
Desde 1997, um novo termo – “chateação zero” – começou a circular em silêncio pelo Vale do Silício, terra natal da revolução informática nos Estados Unidos. Em sua origem, significava o movimento sem fricção de um objeto físico como uma bicicleta ou um skate. Depois foi aplicado a empregados que, independentemente, de incentivos financeiros, trocavam com facilidade de emprego. Mais recentemente, passou a significar “descomprometido” ou “desobrigado”. Um empregador “pontocom” pode comentar, com aprovação, sobre um empregado: “Ele é um chateação zero”, querendo dizer que ele está disponível para assumir atribuições extras, responder a chamados de emergência, ou ser realocado a qualquer momento. Segundo Po Bronson, pesquisador da cultura do Vale do Silício, “chateação zero é ótimo. Por algum tempo, os novos candidatos eram jocosamente indagados sobre seu “coeficiente de chateação”. (Bauman, 2008, p. 16-17)
Neste mundo de “chateação zero”, como pensar a escola como lugar de profissionalização? Como nos mostrou Jorge Gerdau, a escolaridade é fator de produtividade. Por outro lado, a especialização é fator de descarte no mercado, como mostrou a segunda história. E a primeira história nos mostrou que os processos eletrônicos de produção não estão exigindo grande preparação prévia do trabalhador, menor ainda do que aquela que exigia a “esteira de produção” imortalizada por Charles Chaplin em “Tempos Modernos”.
Obviamente não há um só caminho a ser percorrido. Seguramente a escola se oferecerá como “bode expiatório” para o sistema, assumindo como sua tarefa fundamental a profissionalização ou a preparação para o trabalho desde seu ensino básico, tornando-se a culpada pelo “desemprego” como se este fosse apenas um problema de habilidades dos candidatos. Por mais preparados que estejam os espanhóis – e a escola espanhola foi modelo na implantação do neoliberalismo – eles não conseguem postos de trabalho, porque o desemprego atinge índices em torno de 25% da população ativa, porque o governo vem seguindo à risca as imposições dos órgãos internacionais de controle de transferência de bens para o sistema financeiro. 6.000 professores demitidos em agosto de 2012 pelo governo português, seguindo as instruções do que chama “a Troika” (FMI, Banco Mundial e Banco Central Europeu) não perderam suas habilidades da noite para o dia…
Também não podem os sistemas de formação, escolares ou não, tornarem-se os responsáveis pela “reciclagem” dos trabalhadores dispensados de seus postos de trabalho pelo processo de mecanização eletrônica da produção. Num sociedade que não visasse o lucro como bem supremo e o consumo como o modo de vida, toda “mecanização” que diminui o esforço na produção deveria redundar em aumento do tempo disponível para a alegria de viver, para o prazer de viver. Mas o que acontece é o inverso: todos aqueles que ainda permanecem no mercado, que ainda não foram atingidos pelo sistema, estão cada vez mais ocupados, mais sobrecarregados, mais propensos a “assumir atribuições extras, responder a chamados de emergência”.
De outro lado, não pode o sistema escolar ignorar o mundo que hoje habita. Por isso, a escola deve se tornar mais do que um lugar de formação profissional, um lugar de reflexão sobre o mundo, sobre o conhecimento, sobre as relações que temos mantido entre nós humanos e com a natureza. Sem dúvida alguma, a escola de hoje deveria radicalizar sua função de produção de conhecimento e de crítica aos modos como temos nos organizado para vivermos na natureza finita, cuja exploração por mais um século na mesma forma de produção foi objeto de reflexão ficcional em O Relatório Lugano, em que a jornalista Susan George (2002) usando de estatísticas econômicas e populacionais, põe reunidos os maiores pensadores do Século XX para responderem a questão: o que é necessário fazer para que a natureza possa continuar a ser explorada da mesma forma como vem sendo explorada desde os começos do capitalismo? Para manter o sistema capitalista, uma das soluções mais importantes propostas pelos “sábios” reunidos em Lugano é a morte de no mínimo 2 bilhões de habitantes do planeta, através de guerras empreendidas mesmo com motivos torpes e falsos como a Guerra do Iraque, por onde a matança deveria começar.
Como não preferimos a matança, outras alternativas podem e devem ser buscadas para a escola, no cumprimento agora de uma nova função: o espaço da produção de conhecimentos e da crítica social, de modo que os sujeitos escolarizados deixem de ser simplesmente consumidores para se tornarem produtores de um novo modo de viver.
NOTAS
(1) Texto de exposição no III ENTEL, Unijuí, 5 a 9 de novembro de 2012.
(2) A ela somente interessavam projetos cujos orçamentos superavam os 500 milhões de euros: foi sobre eles que escreveu sua tese tentando conciliar ordem e caos em empresas de projetos que fabricam fábricas. Cf. Geraldi, Joana Grisolia. Reconciling Order and Chaos in Multi-Project Firms. Empirical Studies on CoPS Producers. Göttingen : Sierke Verlag, 2008.
(3) O exemplo mais radical e cômico (se não fosse trágico) desta privatização nos ofereceu o então prefeito de São Paulo, José Serra, que colocou à venda, em processo de privatização, os cemitérios municipais… Havia que transformar também o enterro dos defuntos em mercadoria… Um caso interessante para a futura antropologia, porque no passado, até nas batalhas havia uma suspensão da agressão para que cada lado sepultasse seus mortos.
(4) Peço antecipadamente desculpas pela extensão da citação.
Referências bibliográficas
BAUMAN, Zigmunt. Vida para consumo. A transformação das pessoas em mercadorias. Rio de Janeiro : Jorge Zahar Ed., 2008
GEORGE, Susan. O Relatório Lugano. Sobre a manutenção do capitalismo no século XXI. São Paulo : Boitempo, 2002.
GERALDI, Joana Grisolia. Reconciling Order and Chaos in Multi-Project Firms. Empirical Studies on CoPS Producers. Göttingen : Sierke Verlag, 2008.
João Wanderley Geraldi é reconhecido pesquisador da linguística brasileira e formou gerações de professores em nosso país. Há já alguns anos iniciou esta carreira de cronista-blogueiro e foi juntando mais leitores e colaboradores. O nome de seu blog vem de sua obra mais importante, Portos de Passagem, um verdadeiro marco em nossa Educação, ao lado de O texto na sala de aula, A aula como acontecimento, entre outros. Como pesquisador, é um dos mais reconhecidos intérpretes e divulgadores da Obra de Mikhail Bakhtin no Brasil, tendo publicado inúmeros livros e artigos sobre a teoria do autor russo.

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