O tempora! O mores! Políticos tremebundos

Hoje uso licenças ‘poéticas’. Primeiro a exclamação de Cícero. Depois a inspiração mais próxima num capítulo do livro Espelho dos nomes, do linguista  Marcos Bagno. Precisamente o capítulo intitulado O salvador do nosso povo. É que estamos em tempos de ‘pactos’ salvadores  do nosso povo, isto é, do nosso grupo político que está no poder como mordomo há mais de 30 anos. Como o autor de Espelho dos nomes é um adjetivador inveterado, inspiro-me nele para trazer para cá algumas de suas qualificações adjetivais.

Isto porque as notícias são tremebundas, “apavorantes, terríveis, que fazem tremer”. Das tantas, selecionemos apenas três, há mais é óbvio e ulutante:

  1. Aprovada a delação premiada de Sérgio Machado pelo ministro Teori Zavacki, que resolveu não correr mais riscos de atrasos, para não ser atropelado por outros ministros e perder os holofotes, o governo Temer que abreviar o tempo de tramitação do processo de afastamento definitivo da presidente Dilma. Razão para esta pressa: não se sabe o que mais pode vir desta delação do amiguinho, ex-PSDB, depois PMDB e como indicação deste, ex-presidente da Transpetro. As duas gravações feitas, com Renan e com Sarney mostram o potencial do perigo! E o Temerbroso está temeroso, para não dizer tremebundo, apavorado. Vamos que com tanto senador comprometido, ele não consiga os 54 votos necessários a sua permanência no governo usurpado! Pressa, pressa Renan. Antes que você saia da presidência do senado, por uma gesto sempre atrasado do nosso ministro do STF, entregue-me o impeachment definitivo. Siga o exemplo de Eduardo Cunha, que me entregou a autorização para o processo e só depois caiu por decisão do mesmo ministro. Acontece que o exemplo não é nada saudável, salutar, benéfico para Renan: ele sabe que assim que terminar a tarefa, vem o Teori Zavacki correndo, correndo…
  2. Pois não é que o Gilmar Mentes devolve o pedido de investigação do Aécio Neves  ao nosso Procurador Geral da República, enviando-lhe a defesa feita pelo dito, para que verifique se há mesmo necessidade  de investigação? Como houve dois pedidos de investigação, ambos nas mãos do ministro do PSDB, o primeiro deles o Gilmar Mentes já havia sido devolvido há um mês! Agora devolve o segundo. A primeira bola, Janot não chutou ainda. Chutará a segunda? Alguém tem alguma dúvida de que as coisas são protelatórias? Processo vai, processo vem em meio a tantas notícias, vai caindo no esquecimento. Não fora a existência de novas denúncias, novas delações, novas gravações em que o nome do limpinho sempre aparece, ninguém mais lembraria  do vai e vem dos processos. Ou alguém se lembrava que há um mês o Gilmar Mentes já havia devolvido ao Janot o primeiro pedido de investigação? Uma pena Gilmar! Não o deixam em paz para julgar com precisão segundo o preciso.
  3. E o Sérgio Moro está inocentado: não é crime autorizar a publicação de escutas telefônicas, mesmo que estas envolvam a autoridade máxima do país, que supostamente teria for privilegiado. E mesmo que as escutas divulgadas tenham sido feitas após despacho judicial que suspendia as gravações! Ou seja, gravação ilegal pode ser divulgada à vontade, desde que seja divulgação feita pela Força Tarefa da Lava Jato, seja esta divulgação espalhafatosa e autorizada, seja esta divulgação resultado de vazamentos seletivos… Aliás, falando em vazamentos seletivos, que há por trás dos vazamentos das gravações bombásticas de Sérgio Machado???: Até a Globo, em seu telejornal que não assisto, teve que divulgar estas gravações pelo bombástico das singelas trocas de turnos, todos mostrando que há um pacto para zerar tudo uma vez afastado o empecilho deste governo petista que aparelha a Polícia Federal, dá-lhes liberdade de investigação mesmo que esta atinjam seus próprios líderes. Onde já se viu tamanha ousadia? É preciso parar com isso, daí o pacto michelino. Escapemos todos, já que, como diz Sérgio Machado, fui 10 anos do PSDB e sei. “Renan, não sobra um, Renan!”

Tudo está deixando os políticos tremebundos. Tremem as bundas, tremem os lábios, tremem que tremem, Temer. Depois de tremarem ‘a construção de uma presidência’, percebem que os nós podem ser defeitos. Apresse-se Renan, entregue ao Temer o julgamento definitivo. Mas saiba, enquanto não entregar, você está a salvo de uma decisão intempestiva de Teori Zavacki.

João Wanderley Geraldi é reconhecido pesquisador da linguística brasileira e formou gerações de professores em nosso país. Há já alguns anos iniciou esta carreira de cronista-blogueiro e foi juntando mais leitores e colaboradores. O nome de seu blog vem de sua obra mais importante, Portos de Passagem, um verdadeiro marco em nossa Educação, ao lado de O texto na sala de aula, A aula como acontecimento, entre outros. Como pesquisador, é um dos mais reconhecidos intérpretes e divulgadores da Obra de Mikhail Bakhtin no Brasil, tendo publicado inúmeros livros e artigos sobre a teoria do autor russo.