Os caminhos que levam ao golpe de estado nem sempre são sutis. Sutis são as conversas prévias, os cochichos, a armação. Mas ninguém é capaz de prever a ação dos militantes mais afoitos. E estes afoitos perdem a sutileza. Na situação política de hoje, os afoitos começaram a dar as cartas, a criar os fatos, fazendo avançar o que deveria ir vagarosamente se formando, até se chegar a uma maioria absoluta da população apoiando ações de golpe. Eles foram mais eficazes, neste sentido, nos anos 1960. Passaram pelo parlamentarismo, perceberam a falta de maioria quando o povo derrubou o regime parlamentar. Retrocederam, mas não cederam. Continuaram sua campanha de formação. Vieram as marchas da fé… E aí um generalzinho do interior de Minas, afoito, deflagra o maior 1o. de abril de nossa história, que de tão mentirosa, passou a celebrar seus atos como se tivessem acontecido em 31 de março…
Os afoitos de hoje estão criando problemas… E aí a rede Globo manda seus serviçais criticarem a afoiteza dos procuradores… E o Estadão, pasmem, publica reportagem mostrando que os delegados da PF encarregados das investigações da Lava Jato fizeram campanha nas últimas eleições, não como cidadãos quaisquer, mas como achicalhadores de uma candidatura, de um partido. Neste contexto, obviamente acaba acontecendo o que denuncia Roberto Toledo:
“Não foi essa pergunta que fiz” disse a representante do MPF ao delator que denunciou Aécio de receber 1/3 da propina de Furnas. E aí, Moro?”
O Estadão e a Globo desistiram do golpe? Estariam dispostos à negociação proposta por Dilma de vender seu mandato, desde que ele não seja interrompido? Entre o pré-sal, faz medida provisória que autoriza empresas privadas a desapropriarem propriedades em nome do interesse público (!), eis alguns aneis já entregues. Estadão e Globo vão cobrar os dedos também. Nesta troca, sacrificar delegados e procuradores antes tão elogiados é a perda menor dentro de um lucro maior. Mas o lucro maior fará com que voltem a conspirar contra a democracia, porque esta implica também num bem estar social em que a riqueza não fique toda para os 10% mais aquinhoados, dentre os quais 1% é de fato o abocanhador principal. Por isso, esta ‘mudança no temp’ é apenas superficial, uma retirada estratégica para voltar à sutileza do golpe anunciado e já gestado.
João Wanderley Geraldi é reconhecido pesquisador da linguística brasileira e formou gerações de professores em nosso país. Há já alguns anos iniciou esta carreira de cronista-blogueiro e foi juntando mais leitores e colaboradores. O nome de seu blog vem de sua obra mais importante, Portos de Passagem, um verdadeiro marco em nossa Educação, ao lado de O texto na sala de aula, A aula como acontecimento, entre outros. Como pesquisador, é um dos mais reconhecidos intérpretes e divulgadores da Obra de Mikhail Bakhtin no Brasil, tendo publicado inúmeros livros e artigos sobre a teoria do autor russo.

Comentários