O Romance do Fascismo Brasileiro.

 

Resenha

MOUSTAKAS, Isabel. Esta Terra Selvagem. Quando o ódio e a intolerância invadem uma cidade. São Paulo : Cia. Das Letras, 2016.

A informação que consta na orelha do livro é que Isabel Moustakas nasceu em Campinas, em 1977. Uma procura no Google não só mostra as ofertas deste excelente livro, mas nos dá imagens da autora e já uma resenha, em que o livro é como um romance curto, um thriller, postado em www.minhavidaliteraria.com.br 

Repitamos parte do enredo: João, um repórter que faz cobertura na área de crimes, recebe uma telefonema de Marta, sete meses após o assassinato de seus pais e o incêndio de sua casa, a que ela assistiu antes de ser raptada, violentada e solta quase sem vida depois de uma semana, período em que mídia e polícia a imaginavam a autora do crime. Encontro marcado, João entrevista Marta e assiste a seu suicídio, realizado de forma cruenta e dolorosa: uma faca introduzida através do olho e aprofundada até o cérebro.

A partir daí, João começa a seguir pistas dadas por Marta na entrevista: Henrique seu colega de escola e a professora Elza. Procura a professora, descobre endereço dos pais de Henrique, com quem conversa e confirma que ele havia abraçado o pensamento nazi e fazia parte de um grupo que assolava o “horripilante deserto” que é São Paulo: violentando e assinando gays, imigrantes, judeus. A propósito, o pai de Marta era boliviano. No enredo, Henrique descobre que tinha sangue judeu, procedente da mãe Ágata. Como se pode imaginar, o assassino racista terá o mesmo fim que deu a outros: um ‘presépio’ será montado por seus próprios companheiros com seu pai, sua mãe e ele próprio assassinados:

Ágata estava à direita de Henrique, ajoelhada, também nua, exceto por uma espécie de véu a cobrir sua cabeça, as mãos unidas em posição de oração, seguras por um prego enorme e enferrujado, as vísceras expostas graças e um corte transversal que lhe rasgara o ventre, o corpo amarrado pelo tórax a um dos pés da mesa, para que se mantivesse naquela posição.

João se desespera quando, chamado por telefone em plena madrugada, vai ao endereço para ver o presépio. Já está de caso com Elza, e a ela tinha dito que Henrique tinha sangue judeu. Em minha leitura, neste momento anotei: estes assassinatos tornam professora Elza suspeitam já que João havia contado sobre o sangue judeu de Henrique. A conferir e conferido.  Deixo o resto da trama para o leitor usufruir do texto, porque resumos apenas destroem o trabalho literário.

Mas comentemos: a estrutura do romance e a linguagem empregada pela autora são espetaculares. As cenas são de uma ligeireza que nos faz perder a respiração, e passamos a viver como repórteres de crimes numa cidade em que o cotidiano não é mais assaltado extraordinariamente pela violência e pela intolerância: o cotidiano é de violência e intolerância, assim retratado já no segundo capítulo:

… e também porque mais de vinte ataques tiveram lugar em São Paulo desde o início do ano.

Uma jovem haitiana currada e espancada no banheiro da estação Belém.

Um rapaz de ascendência indígena escalpelado e estrangulado em plena praça da República, numa madrugada de terça-feira.

Um paraibano teve os olhos vazados com uma chave de fenda (deixada no local) num ponto de ônibus da Vila Ema.

Dois gays mortos a tijoladas na Granja Julieta.

O corpo de uma travesti encontrado num terreno baldio, os genitais destroçados e uma suástica esculpida (à faca) no meio da barriga.

Etc.

 O grupo racista usa camisetas brancas e coturnos com cadarços verde-amarelos. Suásticas no ombro sob fundo verde-amarelo! Nenhuma ligação explícita com o tempo e espaço vivido pela autora, em tempos bicudos como os de agora. Aliás tempo movido pelos pensamentos de um dos líderes do grupo, um sapateiro a mostrar que ideologia de direita não é apanágio de ricos:

… É sempre engraçado este tipo de conversa.  Passar o Brasil a limpo. Lavar, higienizar. Sempre me lembrava de Travis Bickle antecipando (ou profetizando, vai saber) a “chuva de verdade” que viria (virá?) limpar tudo. O problema é que a “chuva de verdade” desses caras é quase sempre uma mistura de sangue e merda. Mais sangue do que merda, muito mais. Daí que esses papos são engraçados, mas de um jeito perigoso. Basta lembrar o que o perturbado Travis aponta no final do filme. A imagem da mão do sujeito explodindo com o tiro de Magnum-44 me veio à cabeça.

As citações, ainda que curtas, mostram um estilo: rápido, quase de imagens em filme, com economia de palavras. Mas sem deixar de dizer a história que narra e a história que vive. Aquele “virá?” no parêntesis a propósito da “chuva de verdades” é extremamente significativo para quem considera a literatura como “o real de uma representação”, e esta representação é constituída pelo autor em seu diálogo com seu mundo, com seu espaço, com seu tempo. Dialogicamente e cronotopicamente.

Nos finais da década de 1970, Renato Tapajós escreveu o romance da tortura empregada pela ditadura militar. Depois de ler Em Câmara Lenta, tão cinematográfico quanto Terra Selvagem não se podia negar a tortura. Depois de ler Terra Selvagem ninguém poderá negar o que os jornais (até os jornais, pasmem!) noticia em suas páginas policiais, jamais nas páginas políticas e jamais de forma analítica: nosso país está habitado por neonazistas, por neofascistas. E eles estão aí: manifestam-se à luz do dia, financiados por uma elite que não esconde seu mal-estar com o fato de terem aberto oportunidades a um povo que, segundo ela, deve continuar na senzala.

Terra Selvagem, que a gente lê de um fôlego só, é o romance que sem piedade com o leitor, abre os olhos para a criminalidade política, racista, intolerante que transforma a cidade que habitamos em um deserto horripilante.           

 

João Wanderley Geraldi é reconhecido pesquisador da linguística brasileira e formou gerações de professores em nosso país. Há já alguns anos iniciou esta carreira de cronista-blogueiro e foi juntando mais leitores e colaboradores. O nome de seu blog vem de sua obra mais importante, Portos de Passagem, um verdadeiro marco em nossa Educação, ao lado de O texto na sala de aula, A aula como acontecimento, entre outros. Como pesquisador, é um dos mais reconhecidos intérpretes e divulgadores da Obra de Mikhail Bakhtin no Brasil, tendo publicado inúmeros livros e artigos sobre a teoria do autor russo.