Desde que se tornou um político de direita e enriquecido professor de economia, José Serra olha para os brasileiros com olhos bem abertos e com o ar de interrogação: “Você não percebe que nasci para ser presidente?” E teve sua oportunidade: ofereceu-se duas vezes ao escrutínio da resposta. E por duas vezes a resposta não foi a que previa e que deseja. Isto só fez tornar mais fundo o poço de rancor contra o Brasil. Fez de tudo para mostrar este rancor na privataria. Agora retorna à cena pública sobrecarregado pela atuação brilhante no golpe – fez vencer sua posição de que o golpe deveria ser o afastamento de Dilma e a entrega da presidência ao Michel Temer via TCU, e não a cassação da chapa toda como queria Aécio Neves, o que levaria a novas eleições em 90 dias e também recusando a tese terceira (não é da ordem terceira, mas da Opus Dei mesmo) de Geraldo Alkmin de deixar Dilma no poder sangrando. Vencedor (obviamente o processo no TSE já está engavetado por Gilmar Mentes) na tese da forma do golpe, chega ao poder poderoso. Tanto que faz e desfaz no nível nacional e agora procura exportar o modelo de golpe também no nível regional. Ou se não, vejamos.
O presidente do STF, Ricardo Lewandowski reúne-se com o presidente do Senado, Renan Calheiros e marcam o início das sessões de votação (do já decidido, mas enfim mantenham-se as formalidades de uma morte anunciada) do impeachment.
José Serra tem reunião com Michel Temer e lhe impõe outro calendário, em nome da reunião do G-20 a que Temer quer comparecer como “Chefe de Estado”, coisa que jamais será a não ser formalmente, como já o é interinamente. O interino já cansou de ser interino e uterino. O golpe já foi parido, logo não há razões para demoras tantas.
Pois Michel Temer se reúne com Renan Calheiros. Calheiros telefona para Ricardo Lewandowski, o que presidirá as sessões! E a data de início se modifica, de segunda-feira para sexta-feira anterior, sem sessões durante o final de semana, quer o presidente do STF para evitar espetacularização! Logo saberemos que haverá sessões aos sábados e domingos, basta que o queira o Sr. José Serra. Tudo para o bem da viagem presidencial…
Da embrulhada toda, resta uma lição para quem ainda não a tenha aprendido: manda mais Serra do Temer. Manda mais Gilmar Mentes do que Ricardo Lewandowski.
Acostumado ao rancor à esquerda, nosso chanceler também quer exportar o golpe, torná-lo regional, quiçá internacional (ele ainda chegará à ONU depois que Lula para lá recorreu). O tratado do Mercosul prevê o rodízio da coordenação do bloco a cada seis meses, seguindo a ordem alfabética dos países membros. Terminou o mandato do Uruguai, a Venezuela deve assumir e assumiu, mas Serra não gostou. Costurou um apoio dos neoliberais da Argentina e Paraguai, e recusam os três a presidência à Venezuela.
Costurado o golpe contra a Venezuela, obtida a “maioria parlamentar”, vem agora a pesquisa de algum crime que justifique o golpe… A Venezuela, a partir de agora, não cumpre compromissos a que se submeteram todos os membros do bloco! Antes cumpria? Houve antes alguma censura à Venezuela?
Como se faz no Brasil. O golpe já está decidido, é preciso apenas encontrar um crime para dar aparências de legalidade e institucionalidade. Nada se rompe para que sejam afastados os indesejáveis que não rezam pela cartilha de neoliberalismo, sob a qual prestaram juramento de pés juntos e braços estendidos Serras et caterva. E o pior é que não é daqueles pés juntos que levam à cova. Quem vai para a cova será o Brasil que dentro de três ou quatro anos voltará de pires na mão pedindo empréstimos ao FMI, porque agora sim temos bons administradores da coisa pública e privada: vende tudo e fica devendo. Para onde vai o dinheiro da venda? Alguma obra vistosa deixou FHC além do apagão? Está deixando o PSDB de vinte anos de governo em São Paulo, além da falta d’água por não investir em captação?
O rancor nunca foi bom conselheiro. E é o rancor que move o golpe, que move a política dos neoliberais tupininiquins! Com raras exceções, eles nem provém da s grandes famílias ilustres dos velhos engenhos… por isso já são rancorosos de nascença. E nós, não a FIESP, pagamos o pato!
João Wanderley Geraldi é reconhecido pesquisador da linguística brasileira e formou gerações de professores em nosso país. Há já alguns anos iniciou esta carreira de cronista-blogueiro e foi juntando mais leitores e colaboradores. O nome de seu blog vem de sua obra mais importante, Portos de Passagem, um verdadeiro marco em nossa Educação, ao lado de O texto na sala de aula, A aula como acontecimento, entre outros. Como pesquisador, é um dos mais reconhecidos intérpretes e divulgadores da Obra de Mikhail Bakhtin no Brasil, tendo publicado inúmeros livros e artigos sobre a teoria do autor russo.

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