Foi muito explícito o nosso desastrado Ministro das Relações Exteriores ao declarar em Washington, na capital onde tratava de negócios, de bons negócios: o PSDB não é Madame Bovary e não vai trair o governo Temer a que dá sustentação.
Estaria o ministro autorizado a falar em nome da cúpula tucana, já que vem criticando os jovens do partido, a que chama de “cabeças de vento”? Como qualquer um pode perceber nas fisionomias, a renovação geracional em que apostavam os carecas envelhecidos do partido parece que está indo pelo esgoto: os senadores Cássio Cunha Lima (já se tornando grisalho) e Aécio Neves podem não resistir às denúncias de delatores, ainda que volte a afirmar aqui: uma denúncia de delator não é prova alguma, até porque denunciam por prêmios e criminoso confesso que luta por prêmios não tem palavra confiável.
Agita-se, portanto, o ninho tucano. Enquanto suas bases mais jovens querem desembarcar do governo de Michel Temer, a velharia que sabe estar tendo suas últimas oportunidades executivas troveja em voos rasantes que já não tem mais forças para voos altos ao gosto do estadista de Higienópolis, particularmente quando passeia sua plumagem pelas margens do Sena, em Paris, onde tem um apartamentinho avaliado em 11 milhões de euros (mais ou menos 40 milhões de reais, o equivalente a mais ou menos 10 triplex no Guarujá, valor que o professor universitário amealhou com seu salário de professor e os subsídios recebidos na presidência da república).
Como se sabe, FHC saiu a campo para costurar algum acordo político. Vá lá que se entregue Aécio Neves – a quem Aloysio Nunes, sempre em Washington, declarou sua solidariedade pessoal. Mas tem que ficar por aí… Uma eleição indireta resolveria o assunto? FHC se colocou à disposição: gostaria de retornar, talvez para tentar recuperar sua popularidade realizando as reformas trabalhista e previdenciária. Todos sabemos: tais reformas darão popularidade ao presidente que as realizar, popularidade bem entendida, entre aqueles que não são do povo de que se quer retirar qualquer direito.
Foi rechaçado. Então o melhor mesmo é manter Michel Temer. O Estadão, que faz parte da elite e do grupo paulista desta elite, sai a campo com editorial tentando salvar Michel Temer. Aloysio Nunes dá declarações fazendo referências literárias: o PSDB não seguirá o modelito Madame de Bovary. Ela traiu e teve fim trágico. O PSDB não trairá Michel Temer. Mas assim mesmo, no horizonte visível hoje, terá fim eleitoral trágico…
Dá para crer que o candidato à vice-presidente de Aécio Neves estava autorizado a dizer o que disse. Falava em nome da cúpula, das plumagens de alto coturno e bico longo. O PSDB dará sustentação ao governo Michel Temer e mandará no governo. É provável que o deslocamento de Torquato Jardim para o Ministério da Justiça faça parte deste tabuleiro do acordo das elites.
Enquanto estes voos vão acontecendo, cresce o movimento das diretas-já. O público no Largo da Batata, em São Paulo, não ficou para trás do público do Rio de Janeiro. O maior movimento de massas que o país conheceu, o das diretas-já no fim da ditadura militar, começou com manifestações bem menores! Aquele movimento não levou os políticos a aprovarem eleições diretas, mas acabou com a ditadura militar e seu candidato à presidência não levou a faixa presidencial.
Se o movimento de agora não levar à eleição direta, poderá acabar com qualquer veleidade de uma solução política para o país, abrindo as portas para aventureiros ao estilo Bolsonaro ou Dória nas eleições de 2018, se houver eleições. E elas acontecerão se o Altíssimo Sr. Juiz de Todos sentenciar Lula e o encarcerar por causa de um tríplex cuja propriedade delegados, procuradores e juiz não conseguem comprovar, isto é, apresentar provas. Mas para que provas na Vara de Sérgio Moro?
João Wanderley Geraldi é reconhecido pesquisador da linguística brasileira e formou gerações de professores em nosso país. Há já alguns anos iniciou esta carreira de cronista-blogueiro e foi juntando mais leitores e colaboradores. O nome de seu blog vem de sua obra mais importante, Portos de Passagem, um verdadeiro marco em nossa Educação, ao lado de O texto na sala de aula, A aula como acontecimento, entre outros. Como pesquisador, é um dos mais reconhecidos intérpretes e divulgadores da Obra de Mikhail Bakhtin no Brasil, tendo publicado inúmeros livros e artigos sobre a teoria do autor russo.

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