O protagonismo do juiz Sérgio Moro

Dificilmente a história do Brasil registra a presença de juízes movidos apenas à vaidade e a apelos midiáticos. Talvez – e ponha talvez nisso – somente Joaquim Barbosa tenha sido tão movido à vaidade e a apelos midiáticos como é hoje o Dr. Sérgio Moro. E esta semana está sendo cheia de exemplos deste tipo de protagonismo indesejável na função que deve executar no meio social enquanto magistrado imparcial que deveria ser.

Para uma pessoa que se julga uma unanimidade nacional, um São Luiz Rei de França em suas cruzadas no século XII, que se tem por escolhido e ungido, a semana não começou bem. Rogério Cerqueira Leite o compara a Savonarola, o dominicano de Florença que na Renascença produziu as “fogueiras das vaidades”, vaidosamente também assumido como escolhido e ungido. Acabou enforcado e queimado depois de destruir os Médici em sua cruzada puritana (e retrógrada).

O juiz reagiu em carta à Folha de S. Paulo, dizendo que artigos como estes [no caso, o artigo do Professor Emérito da Unicamp] não deveriam ser publicados. Ultrapassando suas funções, quer se impor até para um jornal que sempre o aplaudiu, como aquele que define o que é publicável ou não é publicável.

Acontece que a publicação deste artigo apenas mostra ao juiz que ele, ao mesmo tempo em que é adorado por seus piagnoni (os seguidores de Savonarola), também é detestado por quem pensa além das estreitas viseiras impostas por interesses que não podem ser confessados e que se desvelam, queira ou não o santo juiz, na persecução de alguns e pelo esquecimento de outros delatados por seus “colaboradores” conseguidos à força de pressão psicológica de prisões preventivas definitivas.

Todos lembram o infeliz espetáculo dado pelos procuradores da lava jato, sob a batuta de Dallagnol, quando da apresentação da denúncia contra Lula. Isto foi numa quarta-feira. Pois o santo juiz estava nos EEUU e retornou no fim de semana. Na segunda-feira aceitou a denúncia tornando réu o até então investigado e denunciado. Uma mudança de estatuto jurídico fundamental. Ele precisou de poucas horas para tomar uma decisão.

Pois não teve o meritíssimo a mesma pressa em intimar o já réu Eduardo Cunha e somente semanas depois – isto é – nesta quinta-feira, dia 13.10.16 – intimou-o a apresentar sua defesa no processo que lhe foi transferido em pelo ministro Teori Zavacki em 14.09.16. E no despacho ainda desqualifica a Justiça Eleitoral para investigar questões complexas, razão por que a exclusão de crime eleitoral… Suspende a tramitação em segredo de justiça em nome do “interesse público”. Quem define o que é de interesse público? (Registro aqui que sou contra o tal de “segredo” exceto em questões de direito de família).

Por que terá feito isso justamente nesta quinta-feira, pós feriado? Ora, ele precisava mostrar algum protagonismo para recuperar a imagem levemente ferida pelo artigo do físico Rogério Cerqueira Leite. E precisava embarcar na onda de uma execrável manifestação no Santos Dumont contra o ex-deputado. Daria mídia!

Acontece que se engana o Sr. Juiz se imagina que aqueles que estranhavam sua demora em despachar num processo que não envolvia um petista apoiariam a barbárie da agressão contra o ex-deputado.

Aqueles que se aliam à análise e à comparação histórica feita por Cerqueira Leite repudiam as agressões físicas, seja contra petistas seja contra Eduardo Cunha. Nem por isso deixam de perceber as manhas de um protagonismo que sempre quer estar na crista de alguma onda para chamar sobre si holofotes de uma mídia inteiramente descerebrada pelos interesses financeiros frequentemente mesquinhos de seus proprietários.

Moro intima Cunha quando Cunha é agredido! Teria ele intimado não fosse o artigo de Cerqueira Leite, não fosse o texto de Paulo Nogueira circulando na internet, não fosse Cunha agredido no Santos Dumont? Para um juiz midiático, cujas ações e resoluções seguem os trâmites dos processos – justos contra criminosos corruptos – mas obedecem também ao catecismo do marketing, nada melhor do que intimar nesta quinta-feira o ex-deputado Eduardo Cunha, de quem ele não pretende ouvir delação alguma!

Já sabe Cunha que a pena lhe será leve, e que dispor das informações sem revelá-las é muito mais lucrativo do que a redução de pena que teria com uma delação de tudo o que sabe! E sabem disso os que têm rabo preso com Eduardo Cunha. E sabe disso até mesmo o presidente provisório que sabe que depois de prestar o serviço será defenestrado como foi o deputado e como será o santo juiz. Foi este aviso que lhe quis dar Rogério Cerqueira Leite lembrando Savonarola, uma bela lembrança que não poderiam ter os acólitos do Sr. Juiz que confundem Engels com Hegel.  

João Wanderley Geraldi é reconhecido pesquisador da linguística brasileira e formou gerações de professores em nosso país. Há já alguns anos iniciou esta carreira de cronista-blogueiro e foi juntando mais leitores e colaboradores. O nome de seu blog vem de sua obra mais importante, Portos de Passagem, um verdadeiro marco em nossa Educação, ao lado de O texto na sala de aula, A aula como acontecimento, entre outros. Como pesquisador, é um dos mais reconhecidos intérpretes e divulgadores da Obra de Mikhail Bakhtin no Brasil, tendo publicado inúmeros livros e artigos sobre a teoria do autor russo.