Semana cheia! Ainda que o ‘mercado’ não esteja satisfeito porque a equipe Meirelles não apresentou suas propostas concretas, há o que festejar nos meios menos hostis ao governo que nos empurraram goela abaixo. E são tantos os festejos que vou enumerar alguns deles, em poucos comentários:
1. Tirem este negro daqui!
O segundo maior perseguido pelos golpistas (obviamente a primeira foi Dilma) foi o garçon do Palácio: Temerbroso pediu a cabeça do servidor de cafezinho!!! Crime de responsabilidade: foi acusado de ser petista. Esta demissão é exemplar. A partir da definião deste crime de responsabilidade pelo governo Cunha/Temer, todos os demais entes federados podem demitir por justa causa qualquer sujeito que cometeu o crime de ter sido ou ser do partido proscrito pelo golpe. Aliás, não se preocupem: eles chegarão muito brevemente também àqueles que votaram em candidatos do proscrito (fico pensando se a sigla PT também será proibida). Mais de 54 milhões de brasileiros serão ‘demitidos’ do Brasil. Não chegará a tanto: talvez poupem os arrependidos, desde que eles assinem acordo de delação premiada sob condução de Sérgio Moro, depois de uns tempos de prisão preventiva.
2. O primeiro processo por crime de opinião tem andamento
Rosa weber acolhe ação de deputados que se sentem incomodados pelo uso das expressões ‘golpe’ e ‘golpista’. Entram com ação no STF. Até aí, o ‘jus esperniando’ justifica. Mas uma ministra do Supremo acatar a ação e exigir explicações da presidente afastada é um verdadeiro escândalo! Já proibiram o uso do vermelho – nossos golpistas das ruas realizaram algo inédito no mundo, censurando uma cor. Agora, para exemplar e mostrar como será um regime jurídico-policial, em que a lei da liberdade de expressão desaparecerá, teremos um julgamento na Suprema Corte (estou começando a me habituar aos novos tempos – para criar jurisprudência definitiva. Ninguém poderá chamar de ‘golpe’ o fato em ocorrência (que ainda não terminou o processo). Será que a nossa Suprema Corte vai demandar que José Serra, do Ministério da Chevron, consiga extradição dos jornalistas estrangeiros para serem aqui julgados por crime de opinião? E os grandes jornais que estão usando esta ‘expressão proibida’ serão fechados por determinação de Rosa Weber? Bom, como se sabe, a Suprema Corte brasileira, num regime jurídico-policial, tem poderes ilimitados e talvez este ilimitados não seja apenas no conteúdo, mas também no espaço. O mundo é o objetivo do golpe. Temerbroso terá que amargar a mesma desilusão de Fernando Henrique, que pensava ser nomeado Secretário Geral da ONU ao término de seu mandato na presidência da república.
3. A famosa densidade parlamentar
O novo ministério foi saudado até por Fernando Gabeira, aquele mesmo da sunga de crochê, como constituído em busca de ‘densidade parlamentar’ para que o novo governo aprouvasse o que lhe aprouver no congresso. Gabeira fará coro com Arnaldo Jabor, ambos concorrendo para o mesmo título de “Crítico a favor”. Pois a tão cantada densidade decantou na escolha do líder do governo: o chefete mais próximo do Temerbroso (Moreira Franco) perdeu para o governo paralelo de Eduardo Cunha: o líder ficou quem Eduardo Cunha queria, um parlamentar sergipano envolvido em inúmeros processos, incluindo crimes de morte (ops! não há mais crime de morte, há apenas ‘limpeza ética’) a mostrar que não só os ministros do governo Cunha/Temer têm o direito de serem processados.
4. A PEC da bengala
Proposta a mudança de idade para a aposentadoria compulsória, seu objetivo era evitar que Dilma Rousseff viesse a nomear ministros para o STF. Um motivo absolouta fútil, porque os governos petistas se caracterizaram por nomear seus algozes para o STF: os mais notórios foram/são Joaquim Barbosa e Dias Toffoli. Pois agora a densidade parlamentar do Temerbroso derrubou o veto de Dilma. E o governo Cunha/Temer não nomeará qualquer ministro para o STF! Que maldade. O princípio da densidade jurídica corre perigos! Cunha/Temer vão chamar a direção da OAB para elaborar um programa especial de constituição de densidade jurídica. A densidade policial não precisa de programa! Já existe. Comprova-o o grampo posto no gabinete do ministro Barroso no STF: há que controlar quem não se ajusta no comportamento à Gilmar Mentes.
5. Se foi a cultura
No rearranjo ministerial, acabou o interesse no desenvolvimento da cultura. Mas teremos uma secretaria para a qual busca o governo Cunha/Temer desesperadamente uma mulher! Branca, obviamente. E sem assento nas reuniões de palácio. As atividades culturais impulsionadas por projetos do passado podem voltar a seu ostracismo. Nossa atual cultura deve ser a mediocridade.
6. O DEM sem densidade
Os demos ganharam um ministério bem visível: MEC. Mas como não têm qualquer densidade educacional, quem comandará efetivamente a área será o PSDB de José Serra (Mria Helena, ocupante da secretaria executiva do MEC, foi sua secretária de educação e depois de alguns fiascos foi substituída pelo titular, Paulo Renato Sousa!). Mendonça Filho, o ministro, será a rainha da Inglaterra no ministério. Ou o DEM tem densidade cutural, para além da prática do coronelismo político?
7. Os programas sociais serão mantidos, garantiram o Temerbroso, o Paulinho da Força, o escambau.
Pois já temos resultados imediatos: redução em 10.000 o número de médicos do programa Mais Médicos. Centenas de municípios ficarão sem médicos. O SUS será redimensionada, pois afinal a saúde é um bem, e somente tem bens quem pode pagá-los. Como quer o atual Ministro dos Planos de Saúde, a população que já tem uma renda excessiva e terá renda maior ainda no governo Cunha/Temer deverá pagar planos de saúde. Sem novas contratações no Minha Casa, Minha Vida. Objetivo: estabelecer planos realistas. Não esqueçamos: toda vez que se fala em ‘realismo’, vem bomba – redução de investimentos na pobreza. Paulino da Força vai saracotear a língua, as palavras, os discursos para mostrar que não haverá qualquer prejuízo para os trabalhadores, quer previdenciários, quer pecuniários. O aumento real do salário mínimo acabará, mas isso a Força explicará direitinho. Vamos esperar as explicações para não cometer comentários injustos.
Para a semana, ‘prometemos’ mais, muito mais.
João Wanderley Geraldi é reconhecido pesquisador da linguística brasileira e formou gerações de professores em nosso país. Há já alguns anos iniciou esta carreira de cronista-blogueiro e foi juntando mais leitores e colaboradores. O nome de seu blog vem de sua obra mais importante, Portos de Passagem, um verdadeiro marco em nossa Educação, ao lado de O texto na sala de aula, A aula como acontecimento, entre outros. Como pesquisador, é um dos mais reconhecidos intérpretes e divulgadores da Obra de Mikhail Bakhtin no Brasil, tendo publicado inúmeros livros e artigos sobre a teoria do autor russo.

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