O perdulário governo provisório. 50 bilhões é muito, 160 bilhões é aceitável

Quem ninguém ouse dizer que a imprensa brasileira não está colaborando com o governo provisório, de forma ativa, passiva e outras que inventarem. Os fatos são outros quando se trata do provisório governo daqueles que não são corruptos, ainda que rapidamente tenham perdido três “inocentes” ministros.

No ano passado, quando foi encaminhada ao Congresso Nacional a peça orçamentária para 2016, previa o governo legítimo de Dilma Rousseff um déficit de 60 bilhões. Um escândalo, tratado como falta de eficiência e de bom senso na condução dos negócios da nação. O presidente do Congresso, o senador Renan Calheiros, reclamou e exigiu cortes nos gastos do governo. Houve redução de ministérios, fez-se de tudo e se chegou a um déficit de 50 bilhões.

Pois o governo provisório encaminhou assim que se viu sentado na cadeira da presidência, um pedido de déficit de 160 bilhões para o ano de 2016 (nada mais do que 70 bilhões do que havia pedido, com escândalo para a imprensa, o governo legítimo). E agora encaminha um orçamento prevendo um déficit de 1670bilhões para 2017.

Os economistas sempre consultados em seus comentários ácidos para o governo petista, sequer são chamados nas reportagens e quando chamados, justificam as necessidades públicas da economia. O nervoso mercado que reagia desconfiado a déficits, agora se acalma porque sabe que virão benesses extremas.

E isso tudo quando o golpe foi deflagrado em nome do ajuste fiscal, do déficit zero, da economia de dinheiro para pagar juros da dívida, etc. etc. Todos já ouvimos este discurso. Mas agora tudo mudou. Déficit inaceitável há um ano, e de 1/3 do déficit da nova peça orçamentária, agora pode ser três vezes superior e ser aceitável. Não faltaram articulistas ao estilo Dora Kramer e Elaine CASTAnhêde, a moça da massa cheirosa, a defender a necessidade de um déficit para que haja recuperação da economia em 2018.

Henrique Meirelles, o representante dos banqueiros, terá que dar explicações a seus patrões, mas banqueiro não passa fome e pode adiar cobranças de juros agora para ter lucros exorbitantes logo mais, quando o Banco Central, alegando persistência da inflação de demanda de um povo sem dinheiro para comprar comida, aumentar a taxa SELIC. Será então que os bancos lucrarão.

Com um déficit já autorizado para 2016, o governo temerbroso comprou apoio dos governadores, renegociando dívidas e assumindo um rombo de 50 bilhões; com o mesmo déficit, pagou a dívida com o judiciário e com o ministério público pelos serviços prestados à nação ao longo da articulação do golpe de estado, com aumentos superiores e 40% e 20% respectivamente. Como isso tudo não tinha apelo popular, o governo elevou em 12% o valor do bolsa-família para tentar conquistar apoio nas classes menos favorecidas. Os banqueiros sabem que estas despesas são necessárias, e então o mercado está calmo, aguardando o saco de bondades que lhes será dado sem a menor dúvida, através do aumento das taxas de juros que ficaremos todos devendo, mas que eles registrarão em seus papeis como lucros estupendos.

 Até agora o perdulário governo temerbroso vem gastando de roldão para conseguir se manter com um mínimo de apoio também junto ao povo. Mas que o povo não se engane. Virá o saco de maldades, que aparentemente não atingirá imediatamente o bolso de cada um, mas que lhes retirará direitos de toda ordem. Assim que desmantelado o SUS, assim que direitos duramente conquistados desaparecerem, assim que direitos trabalhistas não mais existirem, então o bolso sentirá o saco das maldades, e o mercado ficará feliz por encontrar quem vai pagar a conta das bondades. A classe trabalhadora sabe que vai perder, mas as bondades imediatas para situações em que o dia de hoje é que conta produzirão seus efeitos políticos. Os golpistas sabem que a pobreza não vive mas sobrevive ao presente; amanhã será outro dia de sobrevivência. E é isto que sempre se explorou no país. Voltaremos a ter a tranquilidade de pagar com um prato de comida e uma roupa velha por serviços prestados nos quintais da classe média mais abastada, que voltará a sorrir contente.

João Wanderley Geraldi é reconhecido pesquisador da linguística brasileira e formou gerações de professores em nosso país. Há já alguns anos iniciou esta carreira de cronista-blogueiro e foi juntando mais leitores e colaboradores. O nome de seu blog vem de sua obra mais importante, Portos de Passagem, um verdadeiro marco em nossa Educação, ao lado de O texto na sala de aula, A aula como acontecimento, entre outros. Como pesquisador, é um dos mais reconhecidos intérpretes e divulgadores da Obra de Mikhail Bakhtin no Brasil, tendo publicado inúmeros livros e artigos sobre a teoria do autor russo.