“Não existe a primeira nem a última palavra, e não há limites para o contexto dialógico (este se estende ao passado sem limites e ao futuro sem limites). Nem os sentidos do passado, isto é, nascidos no diálogo dos séculos passados, podem jamais ser estáveis (concluídos, acabados de uma vez por todas): eles sempre irão mudar (renovando-se) no processo de desenvolvimento subsequente, futuro do diálogo. Em qualquer momento do desenvolvimento do diálogo existem massas imensas e ilimitadas de sentidos esquecidos, mas em determinados momentos do sucessivo desenvolvimento do diálogo, em seu curso, tais sentidos serão relembrados e reviverão em forma renovada (em novo contexto). Não existe nada absolutamente morto: cada sentido terá sua festa de renovação. Questão do grande tempo.”(Bakhtin. Metodologia das ciências humanas)
I
Para construir o mundo, ninguém parte de nada! Sobre uma natureza encontrada, dada, operamos todos nós e jamais sozinhos: é preciso pensar que sobre ela atuam outros seres com que compartilhamos a vida. Mas entre estes, somente nós “elaboramos” o mundo, pois lhe damos sentidos, jamais dados, jamais acabados, jamais prontos, jamais definidos. Das nossas elaborações, embora em muitos momentos históricos a humanidade tenha sido obrigada a conviver com definições ao estilo “Roma dixit”, conhecemos o caráter provisório. É para esta provisoriedade que Bakhtin nos chama a atenção. E mais além: diz-nos que os sentidos elaborados jamais se constituíram fora das relações com os outros, fora do diálogo, que existiu, que existe e que permanecerá quando nos formos e nem mais lembrança houver.
Isto significa que também este mundo cheio de sentidos que herdamos, o peso do passado que carregamos, é passado sempre revisitado, sempre ressignificado. Os fatos (como os elementos da natureza) não se modificam por si: são modificados pelo presente que lhes dá novas interpretações e novos sentidos (e novos usos).
Assim é também com a vida dos textos. Aqueles que compõem esta recolha, publicados por Valentin N. Volochínov entre 1925 e 1930, acrescido de um texto não publicado mas anexado a um relatório de doutoramento em 1928, têm uma longa história de leituras distintas, em que até mesmo a paternidade de alguns foram postas em dúvida. Voltaremos às questões das leituras e da paternidade posteriormente.
II
Valentin Nikolaevitch Volochínov nasceu em 30 de junho de 1895 em São Petersburgo(2). De 1904 a 1913 fez seus estudos secundários; aos 18 anos entra na Faculdade de Direito. Em 1917, tendo o pai abandonado à família, nosso autor suspende seus estudos universitários para trabalhar como instrutor e em 1918 assume o lugar de “Presidente do comitê executivo dos colaboradores do tribunal popular do distrito de Petrogrado” e de secretário do bureau dos assuntos criminais. No início de 1919, a convite do amigo Boris Zubakin, vai para Nevel, onde começa a surgir o grupo de amigos reunidos não institucionalmente, mas informalmente para estudos e discussões, incluídos entre seus temas a questão religiosa e a filosofia de Kant. Este grupo, bem mais tarde, passou a ser denominado entre nós como “Círculo de Bakhtin”. Em 1920 o grupo constituído em Nevel se dispersa. Em 1922 Zubakin é preso e posto em liberdade, e mais tarde preso e exilado. Volochínov vive em Vitebsk para onde também foi Bakhtin. Em 1922 ele retorna para Petersburgo, no mesmo ano em que Medvedev volta para a cidade. Bakhtin chegará mais tarde, e sempre a convite dos amigos. Volochínov retoma seus estudos na Universidade: no departamento de literatura e de artes da Faculdade de Ciências Sociais, conforme seu pedido de 29.08.22.
Em 1924 pede matrícula no doutorado no ILJaZV (Instituto de Línguas e Literaturas do Oriente e do Ocidente), sucessor do Institut A. Veselovskij criado em 1921. Este instituto recebeu o nome de ILJaZV em 1923, depois foi denominado como IRK – Institut rec^evoj kil’tury – e em 1932 passa a Instituto de Linguística (cf. Sériot, 2010). Volochínov tinha como pretensão a construção de uma sociologia da arte. Seu tema para o doutorado era a transmissão da palavra do outro em obras literárias. Em 1925 faz curso no ILJaZV; em novembro de 1926 torna-se doutorando sem bolsa; em 1927 receberá bolsa a partir de novembro. Faz rapidamente carreira: em 09.12.1927 assume a presidência (Presidium) da seção de literatura; em 15.06.1928 é nomeado secretário da subseção de metodologia da literatura e em 1930 obtém o posto de mestre-assistente do Instituto Pedagógico Herzen na cidade já agora denominada Leningrado. A partir de 1934, passa mais tempo nem hospitais e sanatórios por causa da tuberculose. Morre aos 41 anos, em 13 de junho de 1936, deixando uma tese inacabada e uma tradução igualmente inacabada de Phisolophie des formes symboliques de E. Cassirer.
É bastante significativo que os dois livros que publicou em vida – O Freudismo (1926) e Marxismo e Filosofia da Linguagem (1929) – tenham sido precedidos de ao menos um artigo publicado, respectivamente em 1925 sobre Freud (ver aqui o texto Para além do social – Um ensaio sobre a teoria freudiana) e em 1928 sobre a linguística (ver aqui o texto As mais recentes tendências do pensamento linguístico ocidental). Note-se que os três primeiros textos de 1930, cujos temas e forma de tratamento têm a ver com capítulos do segundo livro, foram publicados depois deste.
A controvérsia sobre a autoria, relativamente aos dois livros e ao ensaio A palavra na vida, a palavra na poesia (ver neste volume) se iniciou com a conferência proferida em 1970 pelo Prof. Ivanov na Universidade de Moscou, na comemoração dos 65 anos de Bakhtin, e com seu texto publicado em 1973. Neste Ivanov atribui a Bakhtin a autoria de alguns ensaios e dos livros Marxismo e filosofia da linguagem, publicado por Volochínov e O método formal nos estudos literários, publicado por Pavel N. Medvedev.
Depois disso muita água rolou e muito se discutiu a autoria destes textos. Não vou retomar esta discussão em sua profundidade. Apenas vou trazer alguns elementos para a defesa de um ponto de vista não só meu, mas compartilhado com outros pesquisadores e estudiosos das obras do chamado Círculo de Bakhtin.
Iniciemos por este batismo de “Círculo de Bakhtin”. Obviamente o círculo jamais existiu como algo institucionalizado, vinculado a alguma academia específica, em cujos arquivos se poderiam encontrar seus rastros. Mas seus componentes, nem sempre os mesmos em todas as cidades, se reuniam como comprovam tanto as repercussões na imprensa (desde Nevel) quanto as fotografias que ainda circulam entre nós. Obviamente, o batizado é posterior, como acontece nestes casos. Interessa aqui salientar que o próprio Bakhtin, nas conversas com Viktor Duvakin em 1973, se reconhece como pouco conhecido à época e como participante de grupos de intelectuais numericamente restritos. Como diz Ponzio (2011, p. 46)
“O “círculo de Bakhtin” não era uma “escola” no sentido acadêmico do termo, nem Bakhtin era “líder”, “diretor de escola”, nem, neste sentido, um “mestre”; dessa forma, não apenas a expressão “cículo” é um equívoco se for atribuído a ele um significado de escola, mas é ainda mais a expressão “de Bakhtin”, se entendida em termos de derivação, de pertencimento, de genealogia.
Trata-se muito mais de um grupo, de uma intensa e afinada colaboração, em clima de amizade, em pesquisas comuns, a partir de interesses e competências diferentes.”
Nestas mesmas conversas com Duvakin, Bakhtin explicitamente diz que não é o autor de Marxismo e filosofia da linguagem:
“B: Poetas? Poetas… conhecia poetas. Não estava particularmente próximo a nenhum dos grandes poetas, mas conhecia muitos; os conhecia quase todos. Bem, antes de tudo conhecia, mesmo não sendo íntimo, ainda que fosse o meu poeta preferido e como pessoa eu gostasse muito, Viatcheslav Ivánov… Mas não tinha particular intimidade com ele.
D: Mas onde se encontraram?
B: Encontrávamos em Leningrado, à noite; me apresentaram a ele ali… o caso é que eu tinha um amigo íntimo, Volochínov… é autor do livro Marxismo e Filosofia da Linguagem, livro que, digamos, atribuem a mim. Bem, indico o próprio Valentin Nikolaevich Volochínov. Seu pai era amigo de Viatcheslav Ivánov, tanto que tratava até mesmo de “tu” a Viatcheslav Ivánov… e assim me apresentaram para ele em uma noite literária, ainda quando eu estava em Leningrado.” (Duvakin, 2008, p.80)
Nas contínuas mudanças de cidades – até a fixação mais definitiva em Petersburgo, donde mais tarde sairá Bakhtin novamente a convite – sempre Bakhtin parece chegar depois, e sempre a convite dos amigos. Por que razões o convidariam? Tentativa de ajudar o amigo, certamente. Mas não um amigo qualquer: parece que sua presença era desejada pelos demais membros do grupo, e a cada cidade novos parceiros se aglutinavam. Parece indiscutível que Bakhtin tivesse alguma capacidade de agregar e produzir interesse pelas discussões. Por isso, como ensina Ponzio (op.cit.) o que se caracterizam como “bakhtinianos” são os temas, os interesses, as perguntas, o modo de busca de respostas em diálogo constante entre os membros do grupo. É neste sentido que se deve entender o “Círculo de Bakhtin”.
Outro dado que pode ser levantado é relativo ao período de produção do livro Marxismo e filosofia da linguagem. Em 1928 Volochínov publica o artigo sobre as correntes que chamou de “objetivismo abstrato” e “subjetivismo idealista”, um ensaio de apenas 9-10 páginas. O assunto renderá dois capítulos do livro, com 40 páginas na versão em português (na versão em espanhol serão 43 páginas). Esta síntese, “audaciosa e apressada” segundo Sériot (op.cit., p.62) é considerada “menos uma história das ideias linguísticas do que uma tipologia da filosofia da linguagem” (p.73), e ele mesmo passa logo depois a tratar desta distinção entre correntes linguísticas, casualmente fazendo referência aos mesmos autores em que se baseara Volochínov para sua divisão em “objetivismo abstrato” e “subjetivismo idealista”:
“Em linguística, duas correntes muito diferentes vão iniciar uma crítica radical ao método dos neo-gramáticos: aquela que vem do estruturalismo na escola de Genebra, com Ferndinand de Saussure e o “idealismo” da escola de Munique, com Karl Vossler.” (Sériot, op. cit. p. 74)
Tomando por base o relatório de doutorado de 1927-1928, certamente entregue no final do período do calendário anual (possivelmente meados de julho de 1928), que se faz acompanhar do texto Algumas ideias-guia para a obra Marxismo e Filosofia da Linguagem e de seu respectivo sumário, e considerando que ao final do texto apresentado no relatório em 1928, o autor faz referência a seu ensaio que não chegou a ser publicado, sobre o discurso relatado:
“Um ensaio na aplicação concreta de minha concepção geral metodológica para o tratamento de questões sintáticas especializadas pode ser encontrado no meu trabalho “Problemas de transmissão do discurso alheio” (um ensaio em pesquisa sociolinguística) que deve aparecer na coleção Contra o Idealismo em Linguística (ILIaZV – Giz, 1928)”
e que constituirá toda a terceira parte( capítulos 8 a 11) da obra Marxismo e filosofia da linguagem (na edição brasileira com 57 páginas), e considerando ainda que já em 01.05.1929 Troubetzkoy responde a uma carta que lhe enviara Roman Jakobson, afirmando “Eu não li o livro de Volochínov. O que me dizes é muito interessante” (Sériot, op. cit. p. 40), o que significa que o livro, depois de passar pelos trâmites burocráticos então certamente existentes, foi publicado nos primeiros meses de 1929.
Pode-se concluir que o autor deve ter escrito o livro em tempo escassíssimo! Ele contava com o ensaio publicado em 1928 sobre as tendências linguísticas no Ocidente; o texto do relatório que dará provavelmente origem ao primeiro capítulo do livro (sobre os temas dos dois capítulos seguintes ele apenas os menciona neste texto de 1928). Havia ainda o ensaio de 1926 (A palavra na vida, a palavra na poesia), que poderia ter sido a base dos capítulos 6 e 7 do livro, mas apresentado de forma bastante distinta. E dispunha do ensaio não publicado que dará origem à terceira parte do livro, sobre o discurso do outro e os problemas de sintaxe. Mesmo supondo-se que este ensaio tenha sido bem mais longo que os demais ensaios publicados, para um livro que vem à luz no começo do ano seguinte, houve muito o que trabalhar!
Com base nestes elementos, penso que na verdade o Círculo de Bakhtin realizava um trabalho coletivo: os temas eram discutidos, as primeiras versões lidas e anotadas, e embora o texto final ficasse sob a responsabilidade de um autor, não era a autoria em si que interessava ao grupo. Neste mesmo sentido, aliás, há uma afirmação de Patrick Sériot, surpreendente porque no resto do mesmo parágrafo interessa-lhe defender uma autoria individual:
“Le plus vraisemblable est que tous ces ouvrages son le fruit de discussions multiformes, que l’influence peut être multilatérale, et que chacun des auteurs a elabore à sa façon des thèmes que étaient discutés dans de nombreuses occasions avec des interlocuteurs variés. Il est vraisemblable que le juriste Volochinov à Nevel’ et Vitebsk a énormément appris des philosophes Bakhtine et Kagan, mais qu’à Lenigrad le sociologue et phisofophe du langage Volosinov a plutôt servi pour Bakhtine d’introducteur à la science nouvelle em train de se mettre em place. À cette époque, Volochinov est de plus en plus autonome par repport à Bakhtine sur des questions aussi essentielles que le marxisme, le freudisme, le marrisme. Il a cesse dès 1926 de participer aux discussions théologiques de ses amis, ce dont témoigne indirectement la letre de Pumpjanskij à Kagan […].” [O mais provável é que todas estas obras são fruto de discussões multiformes, que a influência pode ter sido multilateral, e que cada um dos autores elaborou a seu modo os temas que eram discutidos em numerosas ocasiões com interlocutores variados. É provável que o jurista Volochínov em Nevel e Vitebski tenha extraído muito dos filósofos Bakhtin e Kagan, mas já em Leningrado o sociólogo e filósofo Volochínov introduziu Bakhtin na nova ciência em gestação. Nesta época, Volochínov era cada vez mais autônomo em relação a Bakhtin em questões tão essenciais como o marxismo, o freudismo, o marrismo. Ele deixou desde 1926 de participar das discussões teológicas de seus amigos, é o que testemunha indiretamente a carta de Pumpjanskij a Kagan.] (grifos meus)
Certamente o autor está querendo dizer que Volochínov não mais participava do grupo desde 1926, porque não está enumerado entre os participantes listados por Pumpjanskij na carta a Kagan. Trata-se de encontrar argumentos para uma independência e autonomia que justifiquem a autoria solitária de Marxismo e filosofia da linguagem. Talvez sua posição de doutorando no ILJaZV efetivamente tenha afastado Volochínov do grupo. Talvez. Isto não significa que as influências que teve anteriormente tenham desaparecido, e mais, as relações com Bakhtin aparentemente continuaram, como registra o próprio Sériot trazendo a passagem das memórias da colega de estudos de Volochínov, Olga Frejdenberg, de manuscrito encontrado na casa da família Pasternak nos anos 1970 em Oxford:
“Desnickij, que me criticava constantemente por minha “javétidologia” e meu interesse pelo passado, não obstante me apreciava e gostava muito de mim. Seu braço direito era N. V. Jakovlev, o antigo secretário científico. Jakovlev por seu turno tinha seu próprio braço direito. Era Volochínov, um jovem senhor elegante, esteta, autor de um livro de linguística que tinha sido escrito para ele por Bloxin [Bakhtin]. Este Volochínov me propôs cinicamente trabalhar para ele e em seu lugar, em troca do que ele faria minha promoção por intermédio de Jakovlev e Desnickij. Eu recusei e nossas relações tornaram-se glaciais.” (apud Sériot, op. cit.p. 39-40)
Nem tanto ao céu, nem tanto ao mar! No mesmo ano em que um texto atribui a Bakhtin a autoria deste livro, Bakhtin o desmente nas conversas com Duvakin. Considere-se o que afirma Amalia Rodríguez Monroy
“A Rússia dos anos 1920 era uma autêntica encruzilhada de ideias e fervores políticos, de mudanças profundas que alcançavam também a atividade intelectual nos campos mais diversos. Surgiam movimentos renovadores nas artes dispostos a irromper em todas as esferas da cultura e do pensamento. A necessidade de dar um giro radical nos estudos literários era não menos palpável e levava já mais de dez anos preparando-se nos escritos sempre controvertidos dos formalistas. Seus detratores provinham quase sempre do marxismo de orientação sociologista, mas com propostas que careciam de uma metodologia mais depurada o que dava prestígio e solidez ao formalismo.” (Monroy, 1994, p.15-16)
Não seria absolutamente descartável a hipótese de um trabalho mais ou menos conjunto dentro do grupo, com partes da redação dos textos alteradas, mil vezes modificadas por qualquer de seus integrantes(3). Esta é uma hipótese mais provável do que aquela trazida à baila quanto à autoria do artigo vitalismo, publicado por Kanaiev, que poderia ter escrito a carta endereçada a Bocharov dizendo que era trabalho de Bakhtin porque tendo mudado de posição em relação ao vitalismo, queria se ver livre de um artigo publicado muitos anos antes! (Sériot, 2010, p. 44)(4).
Se aceita a hipótese de um trabalho coletivo, ainda que com um único redator e publicado em nome deste enquanto integrante do grupo, cabe-nos hoje respeitar a decisão então tomada! E nossa escuta das vozes que falam nas mesmas palavras de cada texto deve ter presente que a paternidade não é o que importa, mas o que elas – estas vozes – nos dizem, mesmo que as palavras escritas tenham sido apenas daquele sob cujo nome os textos foram publicados. É por isso que os ensaios aqui reunidos estão todos atribuídos a Valentin N. Volochínov.
Ainda sobre o Círculo, é interessante registrar aqui algumas poucas palavras de David Shepherd(2004) na introdução ao livro “The Bakhtin Circle in the Master’s Absence”, que reúne textos da Conferência Internacional de Estudos Bakhtinianos de 1999:
“Talvez o mais importante traço constante do Círculo de Bakhtin tenha sido precisamente sua inconstância, flexibilidade e informalidade (p.6).
Dada tais flutuações nos membros do Círculo, não parece irrazoável aceitar que a fonte de sua estabilidade tenha sido na verdade o home cujo nome ele carrega.” (p.7)(5)
Há ainda outras questões inevitáveis. Não se trata, mais uma vez, de dizer sobre elas uma última palavra, mas de acrescentar à cadeia infinita outras palavras. Duas destas questões precisam ser apontadas aqui.
A primeira diz respeito ao uso da expressão “enunciação”. Não se pode dizer que o grupo tratava dos enunciados isolados [orações], pois esta hipótese é explicitamente afastada por Bakhtin no texto “Os gêneros do Discurso”. Interessava-lhes a totalidade do enunciado concreto e neste sentido se aproximam muito mais das análises de discurso do que das análises morfo-sintáticas ou mesmo da linguística textual. Ainda que Sériot afirme
“… il nous semble três erroné de parler de “théorie de l’énonciation” à propôs de Voloshinov (et de Bakhtine). Si l’on traduit sobytie vyskazyvanija (littéralement: “l’événement de l’énoncé”)[…] par “l’énonciation”, c’est non seulement un grave anachronisme, mais encore une tout autre orientation, que entraîne dans une lecture du “locuteur” de Volochínov comme s’il s’agissait d’un “sujet de l’énonciation”: c”est lire Volochínov à travers les catégories de Benveniste.” (p. 72) [… parece-nos extremamente errôneo falar de “teoria da enunciação” a propósito de Volochínov (e de Bakhtin). Se se traduz sobytie vyskazyvanija (literalmente: “o acontecimento do enunciado”) […] por “a enunciação”, isto é não só um grave anacronismo, mas ainda uma outra orientação, que leva a uma leitura do “locutor” de Volochínov como se fosse o “o sujeito da enunciação” de Benvenista.]
Sem dúvida, prefiro o “anacronismo”, sem com isso querer dizer que o locutor (do Círculo) seja o sujeito da enunciação de Benveniste. Mesmo porque as teorias de sujeito que lhes subjazem são extremamente distintas.
O sujeito da enunciação de Benveniste de “apropria” da língua, como se ela existisse independentemente dos seus falantes, e a emprega segundo suas intenções. O locutor do Círculo de Bakhtin é socialmente constituído através da linguagem: sua consciência é sígnica, o que lhe é interior é o mesmo que lhe é exterior, ele não pré-existe a não ser como organismo biológico sem desde sempre estar mergulhado no mundo da linguagem, uma atividade constitutiva das línguas e dos sujeitos que as falam. Em outras palavras
“O falante não se manifesta no diálogo, como se fosse já dado fora dele, como se tivesse um caráter já definido antes, nem o diálogo é prelúdio para a sua realização fora dele. O falante se realiza no diálogo e apenas nele.” (Ponzio, 2011, p. 14-15 – grifos do autor)
Adotada a perspectiva constitutiva [das línguas e da consciência dos sujeitos] produzida na relação dialógica, de que outra forma se deve entender a tradução literal “o acontecimento do enunciado” senão como enunciação? Ele aconteceria ser ter sido pronunciado, proferido em algum momento, num tempo e espaço específico em que o acontecimento se daria? Poderia se pensar no “acontecimento do enunciado” ao estilo de Foucault, em seu período arqueológico: o enunciado estaria lá, numa camada do recorte arqueológico, e retornaria enquanto “mesmo” em outras camadas em que é retomado? Creio que uma das razões para Foucault abandonar a arqueologia em benefício da genealogia seja precisamente o que chamou, na Arqueologia do Saber, de “descontinuidades” dentro de uma mesma formação discursiva. Como explicar as descontinuidades a não ser fazendo uma genealogia da emergência dos enunciados? Em outras palavras, era preciso ir às enunciações, aos seus contextos restritos e amplos para explicar os processos de descontinuidades. É o que faz magistralmente Bakhtin em seu estudo sobre Dostoievski.
O segundo problema tem a ver com as leituras das obras do Círculo: uma ‘recepção’ francofone em tempos em que se discutem os discursos, em que se esgotam as análises estruturalistas. Uma ‘recepção’ que influencia os demais países ocidentais. Ora, em termos do que defende o Círculo de Bakhtin, um texto ressurge em suas leituras. Seria possível uma leitura contextualizada num tempo que nos é anterior? Seria possível desvestir-se do que se sabe para ler como um homem que nada leu do que se produziu depois da data do texto sobre que se debruça? Nem os filólogos mais ferrenhos no estudo do que já passou o conseguiram. Aliás, uma tal leitura, se possível, seria cientificamente útil?
Aceitando as provisoriedades com que lidamos, tomemos da própria teoria exposta em Marxismo e filosofia da linguagem uma indicação: toda compreensão se faz com as contrapalavras com que chegamos aos textos – orais ou escritos – com que operamos. A escuta e a leitura são produtivas precisamente por isso: não repetem as palavras do locutor/autor, mas constroem uma compreensão e a elas podem acrescentar uma intepretação, tomando esta como a compreensão associada a uma criação (crítica ou não, mas que leva adiante e para frente aquilo que se compreendeu).
Uma compreensão necessariamente contém contrapalavras. Uma tradução se faz com base numa compreensão, logo contém contrapalavras do tradutor. As compreensões fazem parte da cadeia infinita em que entram todos os enunciados uma vez proferidos no contexto próprio de sua enunciação. Descontextualizar e recontextualizar é próprio do funcionamento da linguagem. Afinal, “um sentido não se realiza impondo-se sobre os outros mas, ao contrário, através de uma relação e reenvio com esse, e como tendência, como deslocamento, nunca como determinado e pronto, mas sempre por determinar” (Ponzio, 2008, p.14). Por isso, “reconstituir o que perdemos quando fazemos de MPL [Marxismo e filosofia da linguagem] um texto sem idade, sem história, sem contexto, sem origem, em outras palavras, sem dialogismo…” (Sériot, 2010, p.17, grifos meus). Ora, recuperar a história e o contexto não afasta o contexto do diálogo que se dá precisamente nesta recuperação! Assim, o projeto de Sériot de “dizer” o que “realmente disse Volochínov” está fadado ao fracasso. Na teoria do próprio Volochínov no livro Marxismo e Filosofia da Linguagem (que Sériot quer datar e a que quer atribuir autoria e sentido que o afastem do Círculo), ler um texto não é dar ao texto um seu sentido mitológico de origem: é também fazer uma leitura datada, situada inclusive dentro dos interesses de pesquisa muito mais amplos do que aqueles explicitados. Vive Sériot num contexto contemporâneo de recuperação do estruturalismo, e a ele não está infenso quando retoma concepções distintas que apontam para outros caminhos.
Mais do que reconstruir um tempo passado, talvez interesse salientar a influência na construção do novo que um texto do passado foi capaz de exercer. Ao darmos novos sentidos ao que se enunciou, abrimos porteiras para novos sentidos no presente que provisoriamente se produzem alavancados nos sentidos novos que se dão ao que passou. O avanço na compreensão do mundo não se dá pela repetição do passado, mas por sua retomada criativa que implica, agora para outro Bakhtin, Nicolai Bakhtin, o esquecimento do presente para se projetar criativamente para um futuro.
Creio que foi precisamente isso que fizeram os membros do Círculo de Bakhtin, retomando o passado (objetivismo abstrato/subjetivismo idealista) esquecendo a linguística que se fazia no presente para projetar estudos da linguagem no futuro.
NOTAS
- Este é o texto de introdução ao livro “A construção da enunciação e outros ensaios” de V. Volochínov, com pequenas alterações e exclusão de duas partes desta introdução. O título desta introdução obviamente dialoga com o lema do grupo que se reúne em Nevel, e de que participavam Kagan, Bakhtin e Volochínov entre outros: Mir ne dan, a zadan (O mundo não está dado, mas a fazer ou O mundo não está dado, mas está por elaborar), que por sua vez dialoga com Hermann Cohen “die Welt ist neich gegeben, sondern aufgegeben” (Cf. Sériot, 2010, p.28).
- Os dados biográficos foram extraídos de Sériot, P. (2010)
- Para todos aqueles que no Brasil têm tido a experiência de orientação de dissertações e teses acadêmicas, o trabalho coletivo apresentado apenas pelo mestrando ou doutorando não é nenhuma novidade! O que há do orientador e do orientando em tais trabalhos? Certamente em muitos deles, tudo é apenas do orientando; mas certamente em outros, há muito do orientador tanto em termos de ideias e temas quanto na forma de apresentá-los. Afinal, como orientadores estamos formando pesquisadores e futuros orientadores. Por que este mesmo tipo de trabalho coletivo não teria sido praticado pelo Círculo de Bakhtin?
- Iniciei a leitura de Sériot (2010) certo de que teria, após a leitura, todos os argumentos para dirimir minhas dúvidas quanto a autoria dos textos disputados. À medida que fui estudando seu texto, fui me convencendo cada vez mais de que houve no Círculo um trabalho coletivo, e que não vale a pena buscar o que escreveu um, o que escreveu outro. Melhor dedicar este tempo para estudar as obras, aprender como eles elaboravam seus conceitos, como trabalhavam, para poder no presente aproveitar esta experiência intelectual para tratar dos temas que hoje nos assaltam.
- Para os interessados nas discussões sobre o Círculo e seus membros, obviamente pessoas de carne e osso, com suas ideias, interesses e escritas independentes, a leitura do livro organizado por Bandist, Shepherd e Tihanov é fundamental.
Referências
Bakhtin, Mikhail. “Metodologia das ciências humanas” in. ______ Estética da criação verbal. Tradução de Paulo Bezerra. São Paulo : Martins Fontes, 2003, p. 393-410.
______________ O Freudismo. Um esboço crítico. Tradução de Paulo Bezerra. São Paulo : Perspectiva, 2001.
______________ (Volochínov). Marxismo e filosofia da linguagem. Tradução do francês de Michel Lahud e Yara Frateschi Vieira. São Paulo : Hucitec, 2ª. ed. 1981.
______________ (Pavel N. Medvedev). El método formal en los estudios literarios. Introducción crítica a una poética sociológica. Tradução de Tatiana Bubnova. Madri : Alianza Editorial, 1994.
______________ Mikhail Bakhtin em diálogo. Conversas de 1973 com Viktor Duvakin. Tradução do italiano de Daniela Miotello Mondardo. São Carlos : Pedro & João Editores, 2008.
Brandist, Craig, Shepherd, David & Tihanov, Galin. The Bakhtin Circle. In the Master’s Absence. Manchester e New York : Manchester University Press, 2004.
Monroy, Amalia Rodríguez. “De la palabra y su fiesta de resurrección: problemas de una poética formal”. Prólogo a Mijail Bajtin (Pavel N. Medvedev). El método formal en los estudios literarios. Madri : Alianza Editorial, 1994, p. 13-35.
Ponzio, Augusto. “Problemas de sintaxe para uma linguística da escuta”. Introdução a Palavra própria e palavra outra na sintaxe da enunciação. São Carlos : Pedro & João Editores, 2011, p. 7-57.
______________ “Introduzione” a Il linguaggio come pratica sociale. Bari : Dedalo Libri, 1980, p. 5-17.
______________ “O símbolo e o encontro com o outro na obra de Bakhtin”. Prefácio à Mikhail Bakhtin em diálogo, op. cit, p. 9-20, 2008
______________ “Introduzione” a Linguaggio e escritura. Roma : Meltemi, 2003, p. 7-31.
SÉRIOT, Patrick. “Volochínov, La phisophie de l’enthymème et la double nature du signe”. Prefácio a Marxisme et Phisolophie du Langage. Les problèmes fondamentaux de la méthode sociologique dans la Science du langage. Nouvelle édition bilíngue traduit du russe par Patrick Sériot et Inna Tylkowski-Ageeva. Limoges : Lambert-Lucas, 2010, p. 13-109
Shepherd, David. “Re-introducing the Bakhtin Circle”. Introdução a The Bakhtin Circle in the Master’s Absence. Manchester e New York : Manchester University Press, 2004.
Voloshínov, Valentin N. El signo ideológico y la filosofia del lenguaje. Buenos Aires : Nueva Visión, 1976.
___________________ A construção da enunciação e outros ensaios. Tradução e organização de João Wanderley Geraldi. São Carlos : Pedro & João Editores, 2012.
João Wanderley Geraldi é reconhecido pesquisador da linguística brasileira e formou gerações de professores em nosso país. Há já alguns anos iniciou esta carreira de cronista-blogueiro e foi juntando mais leitores e colaboradores. O nome de seu blog vem de sua obra mais importante, Portos de Passagem, um verdadeiro marco em nossa Educação, ao lado de O texto na sala de aula, A aula como acontecimento, entre outros. Como pesquisador, é um dos mais reconhecidos intérpretes e divulgadores da Obra de Mikhail Bakhtin no Brasil, tendo publicado inúmeros livros e artigos sobre a teoria do autor russo.

Comentários