O medo de ser feliz

 

As mudanças sociais não ocorrem sem que o medo de um futuro diferente seja superado. De modo geral, o movimento constante entre equilíbrio e desequilíbrio numa sociedade, beneficia o equilíbrio da manutenção do status quo, um estado de equilíbrio da estrutura existente, porque o medo predomina tanto entre aqueles que se beneficiam quanto daqueles que se beneficiariam com um futuro outro.

No entanto, quando a pressão da estrutura vai além da capacidade de carregá-la, aqueles que a sustentam com seu trabalho acabam fazendo opções que os obrigam a romper com o medo. E aqueles que se beneficiam da composição social que os beneficia tem medo de que o medo acabe.

O momento em que vivemos, em que as forças de direita reagem para que não haja mais avanços sociais e que, em verdade, acham que é preciso retroceder para que os que nunca tiveram três refeições por dia; que nunca tiveram onde morar; que nunca tiveram acesso aos bens da cultura, como a educação; que sempre tiveram a precariedade e a sobrevivência como preocupação cotidiana, estes todos podem começar a perceber que o mundo pode ser bem diferente. Retroceder antes que o medo superado se torne alegria e felicidade.

Para estes que têm medo de que o medo acabe, e param aqueles que defendem um mundo mais alegre e feliz, nada melhor do que ouvir o escritor moçambicano Mia Couto. Para quem ainda não o ouviu, que seja pela primeira vez. Para quem já o ouviu, para não esquecermos jamais que este medo de que o medo acabe explica muito das reações às conquistas sociais que querem estancar e fazer retroceder. Eis o link:

 http://ocheirodailha.blogspot.com/2011/09/sobre-o-medo.html

João Wanderley Geraldi é reconhecido pesquisador da linguística brasileira e formou gerações de professores em nosso país. Há já alguns anos iniciou esta carreira de cronista-blogueiro e foi juntando mais leitores e colaboradores. O nome de seu blog vem de sua obra mais importante, Portos de Passagem, um verdadeiro marco em nossa Educação, ao lado de O texto na sala de aula, A aula como acontecimento, entre outros. Como pesquisador, é um dos mais reconhecidos intérpretes e divulgadores da Obra de Mikhail Bakhtin no Brasil, tendo publicado inúmeros livros e artigos sobre a teoria do autor russo.