O golpe é rápido em destruir o que demorou a ser construído

Moreira Franco, o gato angorá que virou ministro para deixar de ser gato, falseia a realidade para canalizar aplausos a si e aos seus. Com a inauguração oficial da chegada da água ao sertão da Paraíba, obra de desvio das águas do rio São Francisco, tornando-o ainda mais o rio da integração nacional como era chamado nos meus tempos de professor de Geografia, sai o ministro a dizer a besteira, mais ou menos nestes termos: Lula e Dilma demoraram 13 anos e não entregaram água para o sertão paraibano; nós em 11 meses fizemos isso!

Este despautério verbal, essa fala inconsequente – aliás, não pensar nas consequências está sendo o trivial das autoridades – me fez lembrar uma situação que vivi nos  longínquos anos da segunda metade dos anos 1960!

Isto porque Moreira Franco repete um obscuro comandante de uma guarnição federal do interior do Rio Grande do Sul (note: naqueles tempos se falava quartel!). Aconteceu. Numa cerimônia de entrega de título de aposentadoria para agricultores do município, patrocinada pelo Sindicato dos Trabalhadores Rurais de São Luiz Gonzaga e realizada no principal clube da cidade – certamente alguns dos agricultores beneficiados pela aposentadoria jamais tinham entrado no tal Clube Harmonia – o presidente do Sindicato, em sua fala, rememorava que o Funrural, um recolhimento que se tornou obrigatório na comercialização de produtos agrícolas – tinha sido resultado de uma dura e demorada batalha do Dep. Federal Fernando Ferrari, começada nos inícios dos anos 1960. Naquela solenidade era preciso ressaltar esta luta e a conquista deste Fundo.

Sua fala foi interrompida pelo obscuro comandante militar para nos informar e informar ao Presidente do Sindicato que isso tudo não tinha qualquer valor. Tudo começou depois da chamada Revolução (isto é, o golpe de estado de 1964). Tudo o que era de antes perdeu seu valor. Não existe! Tudo começou depois de 1964…

Em outros termos, o gato angorá repete o obscuro e ignorante comandante!!!  Instaurar uma mentira como verdade é a saída dos golpistas, de ontem e de hoje.

Só que para tanto é preciso esquecer as vaias da inauguração oficial e, sobretudo, esconder e esquecer a inauguração popular presidida por Lula e Dilma com  a presença de mais de 50 mil pessoas. O primeiro “desacontecimento” foi noticiado e ampliado. O segundo acontecimento não houve para a grande mídia brasileira. Aliás, para uma das mais lídimas representantes desta mídia, o jornal O Estado de S. Paulo, não houve a greve do dia 15 de março, nem manifestação: no dia seguinte, em todo o jornal não havia nenhuma linha sobre o movimento.

Assim como o Grande Irmão de Admirável Mundo Novo, toda a história deve ser reescrita. Acontece que os golpistas não são os vencedores na história. Continuaram nela como golpistas, nada mais…

Xxxxxx

A Polícia Federal atingiu seus objetivos com a Operação Carne Fraca: a União Europeia, a Coreia do Sul, o Chile: todos já suspenderam a entrada dos produtos do setor exportados pelo Brasil. Certamente os frigoríficos entrarão na justiça exigindo indenizações. Condenado o Estado, pagaremos as indenizações todos nós… e os delegados trapalhões continuarão em seus postos abrindo novas e brilhantes investigações…

Como aconteceu com a Copa do Mundo: a imprensa brasileira alardeou mundo a fora que não haveria Copa!!! E que os turistas que aqui chegassem seriam assassinados… Pois perdemos milhares de turistas!!! Até os restaurantes de Natal acreditaram nos nossos jornais escritos e televisivos. Não estavam preparados para fornecer alimentação para os muitos que vieram!!! Quantos teriam vindo não fosse a imprensa brasileira??? A mesma que deu imediato crédito a PF e a suas inalações indiciárias com base em telefonemas grampeados, sem qualquer análise laboratorial??? Não só a PF é culpada. A culpada maior é a alardeadora imprensa brasileira.

João Wanderley Geraldi é reconhecido pesquisador da linguística brasileira e formou gerações de professores em nosso país. Há já alguns anos iniciou esta carreira de cronista-blogueiro e foi juntando mais leitores e colaboradores. O nome de seu blog vem de sua obra mais importante, Portos de Passagem, um verdadeiro marco em nossa Educação, ao lado de O texto na sala de aula, A aula como acontecimento, entre outros. Como pesquisador, é um dos mais reconhecidos intérpretes e divulgadores da Obra de Mikhail Bakhtin no Brasil, tendo publicado inúmeros livros e artigos sobre a teoria do autor russo.