De verdade verdadeira, aos domingos havia mais tempo de cozinha. Depois da missa, havia que melhorar o almoço: pensar na galinha com molho e a massa feita à força da mão, amassada, estendida e tornada “talharin”. Depois, mas tarde, veio o domingo segundo de maio como Dia das Mães.
E na escola, em gestos imprecisos, havia que fazer o presente como “trabalhos manuais”. Recortar a cartolina, inventar o inventado pela professora, colorir e esconder para entregar no glorioso Dia das Mães. Depois, vinha o suplício: a redação. Sobre o Dia das Mães, que em verdade se resumia a esta entrega orgulhosa do presente fabricado, uma alegria contida, talvez alguma lágrima, não lembro. Como contar a volta à rotina se nada havia a contar além disso?
O tempo passado, as rusgas de parte a parte, os filhos são do mundo e o Dia das Mães se transformou ora numa cesta com café da manhã e flores, ora num presente posto no correio com antecedência, ora num simples telefonema. E a vida ia em frente. Lá e cá. E continua indo… Com os mandos invertidos: se antes obedecíamos, agora queremos que obedeça. Não obedece: segue. A obediência visível não inclui a desobediência invisível do pensamento e da vida vivida.
Assim vão as mães… assim vão os filhos.
Para um domingo como este, trago uma prece de Maria Carolina de Jesus, filha e mãe. Uma prece comum a todas as mães.
Prece de mãe
O meu filho tem muito valor
Diz a mãe, cheia de vaidade!
É imenso seu amor
É sincera sua amizade.
Quando o filho está doente
A mãe não dorme um segundo
Sempre terna e impaciente
E o seu receio é profundo.
O seu afeto não arrefece
Pensa no filho demasiadamente
E se algo lhe acontece
A mãe está sempre presente.
O meu filho há de ser um homem!
Ele haverá de saber lutar
Quando alguém citar seu nome
Será para o elogiar.
O meu filho não haverá de esmorecer
Vai ser honesto e trabalhador.
Os empecilhos há de vencer
Vai ser um homem de valor.
A luta na vid anão vai lhe estarrecer
Hei de vê-lo prosperar-se
Deus há de lhe proteger,
E os seus passos guia-los.
Do filho a mãe é um escudo
Por ele, ela enfrenta tudo.
OH! Deus grande Senhor!
Dai-lhe sempre proteção
Que ele seja superior
À sedução.
O meu filho há de crescer
Heroico, bom e inteligente.
Deus ajude, há de ser
Uma boa semente.
Que não viole a retidão
Que faça o próximo feliz.
Que tenha um bom coração
E que ame o seu país.
Que faça bem sem opções
Os fracos, os humildes, ele proteja
Que pratique as boas ações.
E assim seja.
João Wanderley Geraldi é reconhecido pesquisador da linguística brasileira e formou gerações de professores em nosso país. Há já alguns anos iniciou esta carreira de cronista-blogueiro e foi juntando mais leitores e colaboradores. O nome de seu blog vem de sua obra mais importante, Portos de Passagem, um verdadeiro marco em nossa Educação, ao lado de O texto na sala de aula, A aula como acontecimento, entre outros. Como pesquisador, é um dos mais reconhecidos intérpretes e divulgadores da Obra de Mikhail Bakhtin no Brasil, tendo publicado inúmeros livros e artigos sobre a teoria do autor russo.

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