Numa primavera em que o calor vem forte, prenunciando um verão rigoroso, espera-se há três dias uma chuva anunciada pelos meteorologistas… e a chuva não chega. Mas cruza uma aragem pela varanda.
Estou na rede, muita tosse e zoeira. E vejo que o vento movimenta a pequena floreira pendurada no travão da varanda. São pequenas flores, brancas, amarelas e vermelhas. Movimentam-se com o vento, mas não espantam o beija-flor que as namora, que as beija, que sobrevoa, chega perto, se afasta, mas volta.
Um barulho mais forte – o beija-flor se vai. Chegou o casal de bem-te-vis: eles tomam banho na piscina, num sobrevoo muito rápido, em que apenas encostam n’água o rabo. Uma, duas, três vezes. Depois, voam para os fios que trazem energia para a casa.
Estão lá, os dois. Um deles movimenta as asas, numa espécie de dança. Interpreto com me ensinaram a olhar para meus canários belgas que chamam a fêmea cantando e erguendo as asas. E mais, temos até a expressão: quando nos referimos a um rapaz que está tentando conquistar uma menina, que ele “anda arrastando asas”. Assim também faz o galo…
Então compreendo que meu bem-te-vi está namorando, está arrastando asas, mas já não canta. A fêmea está com ele. De repente, ela dá um curto voo. Vai para outro fio. Ele acompanha e volta à sua dança.
Então ela ergue o rabinho, num gesto coquete. E eu olho: que acontecerá agora? Um voo nupcial?
Mas os bem-te-vis gostam de nos dizer que nos viram, mas não gostam de serem vistos: ambos voaram para fora de meu campo de visão.
E aí só me resta imaginar o que queria ter visto, e não vi.
Bem-te-vi. Bem que queria ver. Não vi.
João Wanderley Geraldi é reconhecido pesquisador da linguística brasileira e formou gerações de professores em nosso país. Há já alguns anos iniciou esta carreira de cronista-blogueiro e foi juntando mais leitores e colaboradores. O nome de seu blog vem de sua obra mais importante, Portos de Passagem, um verdadeiro marco em nossa Educação, ao lado de O texto na sala de aula, A aula como acontecimento, entre outros. Como pesquisador, é um dos mais reconhecidos intérpretes e divulgadores da Obra de Mikhail Bakhtin no Brasil, tendo publicado inúmeros livros e artigos sobre a teoria do autor russo.
Lindo texto.
Delicado.
As palavras são tão bem utilizadas que consegui imaginar toda a situação.
Bom que o texto tenha levado a imaginar a cena… este é um texto ensaio de escrever algo distinto, ver se aprendo a escrever para ficar e não somente sobre política e textos e acadêmicos. Obrigado pela força.
Quanta delicadeza. Que delícia de texto! Também queria mais…
Pois para haver mais teria que reler o Jorge. Faltam-me engenho e arte…
Lindo texto! Em meio a tanto desamor que estamos vivendo, conseguir olhar ao nosso redor e enxergar essa delicadeza é um ato de resistência e fortalece a caminhada!
Sensível! Um olhar de soslaio é uma história criada! Abç