A crer na análise do Professor Álvaro Bianchi, do Departamento de Ciência Política da UNICAMP, em entrevista à Escola Politécnica de Saúde Joaquim Venâncio (FIOCRUZ) – disponivel em www.epsjv.fiocruz.br/noticias/entrevista/a-ameaca-maior-paira-sobre-conquistas-sociais-e-trabalhistas-do-povo-brasileiro – a classe trabalhadora está num mato sem cachorro, pois perderá qualquer que seja a solução da crise política. Cito aqui apenas a pergunta e a resposta que finalizam a entrevista, que merece ser lida como um todo:
Em meio a uma crise política dessa envergadura, o governo e o congresso têm aprovado ou anunciado pautas prejudiciais aos trabalhadores, como a lei antiterrorismo, o anúncio de um pacote de medidas que incluem até a demissão de servidores e a insistente defesa de uma nova reforma da previdência. Na tentativa de superar a crise, e se salvar do impeachment, o que os trabalhadores podem esperar dos próximos movimentos do governo?
O que a crise deixou claro é que o Partido dos Trabalhadores não quer governar contra os grandes empresários e os partidos conservadores. Às vezes dá a impressão de que prefere perder o governo a enfrentar os golpistas. A resistência até agora não passou de discursos em atos públicos. Quando o coronel Juan Domingos Perón foi preso na Argentina, em 1945, uma greve geral foi convocada. Mas no Brasil, até o momento, nem o governo nem a Central Única dos Trabalhadores ousaram falar em uma greve geral contra o golpe. A mobilização do governo é simplesmente retórica. Infelizmente, nem os discursos estão à altura dos acontecimentos. Na manifestação do dia 18 de março centenas de milhares de pessoas esperavam Luiz Inácio Lula da Silva declarar guerra contra o golpistas. E o que ele fez foi prometer paz e amor aos empresários e ao PMDB. Não adianta continuar esperando uma guinada à esquerda. É incrível que pessoas inteligentes continuem esperando que a presidenta Dilma vá reagir aos golpistas com um programa de reformas populares. O governo não fez isso quando contava com o apoio para tal. Não é agora, enfraquecido e rejeitado pela opinião pública que fará a reforma agrária, sobretaxará as grandes fortunas ou ameaçará os superlucros dos banqueiros. O que o governo tentará fazer é aplicar, na medida de suas poucas forças, uma agenda similar àquela de Michel Temer e costurar uma nova coalizão partidária. E para fazer isso utilizará os mesmos recursos que mobilizou até agora: concessões à agenda neoliberal e cargos para os partidos conservadores. Mas nas circunstâncias atuais não acredito que o governo tenha força para fazer o que quer, ou seja, cortar radicalmente direitos sociais.
João Wanderley Geraldi é reconhecido pesquisador da linguística brasileira e formou gerações de professores em nosso país. Há já alguns anos iniciou esta carreira de cronista-blogueiro e foi juntando mais leitores e colaboradores. O nome de seu blog vem de sua obra mais importante, Portos de Passagem, um verdadeiro marco em nossa Educação, ao lado de O texto na sala de aula, A aula como acontecimento, entre outros. Como pesquisador, é um dos mais reconhecidos intérpretes e divulgadores da Obra de Mikhail Bakhtin no Brasil, tendo publicado inúmeros livros e artigos sobre a teoria do autor russo.

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