Hipólito da Costa, patrono do jornalismo brasileiro, fundador do Correio Braziliense (número inaugural de 1 de junho de 1808), conhecido pela crítica que fazia à regência de D. João VI, nos tempos em que havia jornalismo, sofreu perseguição e foi preso. Sobre ele a passagem do historiador Chico Castro (A Noite das Garrafadas, Edição do Senado Federal, 2012). Qualquer semelhança com os tempos presentes de condenação sem lei e sem crime é uma infeliz coincidência:
“Preso na cadeia da cidade de Limoeiro por ordem do intendente-geral da Polícia Pina Manique, que a expediu através de um bilhete escrito à mão, e entregue em sua casa pelo corregedor José Anastácio Lopes Cardoso. A detenção ocorreu pelo simples fato de o jornalista pertencer a uma loja maçônica, acusão de crime que não se sustetava em nenhuma legislação secular,[…] quer dizer, a ninguém podia ser imputado um delito que não se encotrava tipificado em alguma legislação.
Vendo a ilegalidade da prisão consoante o direito natural, as autoridades se voltaram para o Direito Eclesiástico (neste caso a aplicabilidade se destinava a pontos referentes à disciplina do clero) que antevia penas para os infratores estabelecidas nas bulas papais de Clemente XII e Benedito XIV. Nos cárceres da Inquisição sofreu por muito tempo os horrores de intermináveis interregatórios, torturas psicológicas praticadas por algozes do Santo Ofício, até se ver livre pela ação da maçonaria, que aliciou os guardas para libertá-lo.” (p. 128-129).
Atualizando: crime que não existia, passou a existir por decisão de um Tribunal;
torna-se crime o simples fato de visitar 111 vezes o mesmo sítio e interessar-se por qualquer apartamento em qualquer praia;
faz-se crime por decisão morista, ops! moralista, uma empresa tentar aliciar um possível comprador reformando seu imóvel à venda;
se falta lei, volta-se a autoridade para o Parlamento, que fará lei de anistia aos nossos bons corruptos que votam pela família, pelo torturador, pelo neto ainda não nascido, pela sogra, pela ‘tia que me criou’, pelo marido político exemplar de honestidade preso no dia seguinte por desvios; e embora mais ou menos 98% dos votantes tenham amantes, ninguém teve o colhão de votar pela dita cuja;
torna-se extremamente meritória a tortura da prisão preventiva sem data de término;
faz-se da delação, da deslealdade, da traição virtudes insuperáveis ao amparo da recém criada república do interior;
toma-se por justo o ladrão que denuncia quem denunciado deve ser.
E as prisões inquisitoriais continuarão até que uma certa liderança seja presa; depois chegará dezembro e face ao “desgaste na opinião pública”, encerra-se a lavação porque os sujos sobrantes são puros de coração.
Enquanto isso, os limpos governarão, porque deles é o reino do senhor temeroso e astuto, por decisão inabalável da divina cunha.
João Wanderley Geraldi é reconhecido pesquisador da linguística brasileira e formou gerações de professores em nosso país. Há já alguns anos iniciou esta carreira de cronista-blogueiro e foi juntando mais leitores e colaboradores. O nome de seu blog vem de sua obra mais importante, Portos de Passagem, um verdadeiro marco em nossa Educação, ao lado de O texto na sala de aula, A aula como acontecimento, entre outros. Como pesquisador, é um dos mais reconhecidos intérpretes e divulgadores da Obra de Mikhail Bakhtin no Brasil, tendo publicado inúmeros livros e artigos sobre a teoria do autor russo.

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