No tempo de Patrocínio, de Ciro Vieira da Cunha

Em dois volumes, esta biografia romanceada de José Carlos do Patrocínio, redesenha o fim do século XIX e os começos do século XX, numa Rio de Janeiro de fins do império. E obviamente, é a Rua do Ouvidor o espaço mais estrito da história que aqui se conta, mas também grande parte da história da imprensa brasileira de então. É na rua do Ouvidor e em suas imediações que estão as sedes dos jornais da época – que não eram poucos – e por aí que se tomava um cafezinho para conversar, que se visitava redações e que se discutia literatura e vida política.

Ciro Vieira da Cunha não nos faz um relato cronológico de seu biografado. Ao contrário, avança no tempo de vida do abolicionista, retorna a Campos e ao nascimento, vai com ele para o Ceará na campanha – o Ceará foi o primeiro estado brasileiro a se ver livre da escravatura: “a primeira localidade a emancipar todos os seus escravos” foi a vila de Acarape, em 1882 e à festa compareceu o tribuno da abolição.

Recompor a cronologia que o autor desconsiderou pode ser útil do ponto de vista mnemônico. Como a narrativa começa com Patrocínio aos 14 anos nas escadarias da Santa Casa, tomando coragem para entrar e pedir emprego porque seu desejo era um dia ser médico, e logo informa sobre a vida anterior, vamos marcar: ele nasceu em Campos, filho da quitandeira Justina Maria do Espírito Santo e do Pe. João Carlos Monteiro, orador sacro concorrido e de quem, talvez, tenha aprendido Patrocínio seus primeiros passos de oratória frequentando a igreja e ouvindo o pai pregando.

Logo o menino sai de Campos – para onde retornará já jornalista bem sucedido e de onde trará sua mãe já na velhice. Na “corte” procura emprego e teve a sorte de consegui-lo na Santa Casa como aprendiz da Farmácia. Mais tarde fará os exames para ingressar no curso superior: não é aceito para o curso de Medicina, mas faz o curso de Farmácia, profissão que não exercerá, mas os ensinamentos aprendidos lhe serão úteis no momento em que Floriano decreta seu desterro, junto com um grupo de intelectuais e jornalistas que viajam para o posto militar de Cucuí, no alto do rio Negro. Nunca chegaram até lá, mas em Santa Isabel adoecem – malária – e Patrocínio será o farmacêutico a atender seus companheiros de infortúnio.

Da farmácia, vai para o ensino num lugar de explicador de lições. E na Faculdade, funda com Dermeval da Fonseca Os Ferrões, que conhecerá curta vida. E pela mão de Dermeval, Patrocínio entra para a Gazeta de Notícias, cujo chefe de redação era Ferreira de Araújo. Inicialmente tem o papel de “recortar” os jornais de S. Paulo (a tesoura sempre foi grande repórter…). Depois assume uma coluna política, onde mostra seu espírito de luta. E desde sempre sua bandeira: a abolição da escravatura.

Com Joaquim Nabuco constituirá a grande dupla abolicionista. Enquanto Nabuco é mais comedido, Patrocínio é direto, um polemista sem folga, “desde a primeira hora um radical sem concessões” que ataca, que fere e que não se deixa abater. Da Gazeta de Notícias vai para a “Gazeta da Tarde”, e sua razão para a mudança é que “não compreende como um homem possa submeter uma ideia a interesses de qualquer ordem” como fazia Ferreira de Araújo mantendo a vida de seu jornal.

Seu sonho será realizado: funda em 1887 seu próprio jornal, Cidade do Rio, que sobreviverá até 1902. Estará neste jornal quando o alcança a libertação, a assinatura da Princesa Isabel a que Patrocínio passará a prestar uma espécie de apoio explícito, ainda que tenha ideais republicanos. Afasta-se do Partido Republicado, dirigido por Bocaiúva, por não concordar com os caminhos que se queria imprimir à república, mas será o tribuno que falará em frente ao quartel para Deodoro, no movimento do dia 15 de novembro.

Como sabemos, Deodoro assume. Há uma tentativa de golpe de florianistas. Deodoro renuncia ao cargo, e Floriano assume a presidência com mão de ferro. Patrocínio será desterrado. Mas retorna logo, menos de seis meses depois da longa viagem do Rio até Santa Isabel, à margem esquerda do Rio Negro.

Participa então de todos os acontecimentos políticos e artísticos. É membro da Academia (cujo verdadeiro fundador, segundo o autor, é Lúcio de Mendonça pondo em prática a ideia de Medeiros e Albuquerque), vota em Machado de Assis para seu primeiro presidente. Frequenta os cafés e em seu jornal dá guarida a jornalistas e poetas (Olavo Bilac trabalhará com ele por muitos anos).

Casado, teve dois filhos – teve a infelicidade de enterrar a filha; teve com Zeca, o filho, muitos desgostos. Enfrentará tudo e no final da vida, já sem nada de seu, trabalha escrevendo crônicas semanais para dois jornais para juntar os recursos necessários para a manutenção da casa e da família.

Enquanto todo o primeiro volume desta obra vai contando a história numa linha de recortes cronológicos, com idas e vindas no tempo, todo o segundo volume é dedicado a episódios em que se envolveu Patrocínio, entre eles a descrição de suas ações no dia 15 de novembro; ou da chegada de Santos Dumont; ou da visita que lhe faz o inventor brasileiro para conhecer o balão a que Patrocínio dedicou grande parte de sua vida: o Santa Cruz, que jamais cruzou os ares e que depois da morte do tribuno da abolição será vendido como “ferro velho”.

Ler biografias romanceadas tem suas vantagens: enquanto se vai conhecendo o herói, vão aparecendo os cotidianos de um tempo passado que desconhecemos, pois a história que aprendemos na escola fixa tempos e mudanças, grandes acontecimentos, mas não nos fala deste dia a dia que levaram aqueles que ficam em nossa memória como seres da História, cujas histórias de vida pouco sabemos. Ler este livro é também andar pelo Rio de Janeiro da corte imperial, da rua do Ouvidor, é ouvir murmúrios da história, é saber fofocas e briguinhas relegadas aos cantos de página mas que, no seu presente, sofreram aqueles ‘nomes’ que conhecemos sem conhecer os homens que foram. Muitas das personagens com que cruza Patrocínio, neste tempo, tiveram seus nomes registrados na história que se ensina – na literatura ou na política – mas muitos deles desapareceram quando, presentes, foram fundamentais para a emergência de alguns acontecimentos que continuamos a reverenciar.

Referência. Ciro Vieira da Cunha. No tempo de Patrocínio. Rio de Janeiro : Edições Saraiva, 1960.      

João Wanderley Geraldi é reconhecido pesquisador da linguística brasileira e formou gerações de professores em nosso país. Há já alguns anos iniciou esta carreira de cronista-blogueiro e foi juntando mais leitores e colaboradores. O nome de seu blog vem de sua obra mais importante, Portos de Passagem, um verdadeiro marco em nossa Educação, ao lado de O texto na sala de aula, A aula como acontecimento, entre outros. Como pesquisador, é um dos mais reconhecidos intérpretes e divulgadores da Obra de Mikhail Bakhtin no Brasil, tendo publicado inúmeros livros e artigos sobre a teoria do autor russo.