No balcão de negócios: “está tudo na mesa para a gente discutir”

Com uma rapidez espantosa as razões efetivas do golpe parlamentar estão vindo à tona. E nem se tem a vergonha de esperar tornar o golpe defenitivo, com a votação vitoriosa do impeachment sem crime de responsabilidade no Senado Federal. Como são favas contadas, já na interinidade tudo começa a aparecer. Não nas páginas políticas, mas nas páginas econômicas. De lá se urdiu o golpe; é lá que está o projeto de país. Enquanto os holofotes vão para renúncias lacrimosas de Eduardo Cunha, para a eleição do novo presidente da Câmara, para os movimentos políticos dos partidos da nova situação e da nova oposição, para os vazamentos das delações premiadas, a verdade do golpe vai passando quase desapercebida.

Como todos sabem, o pré-sal representa as joias da coroa. Foi por ele que se deflagraram as escutas telefônicas denunciadas por Snowden. Foi por ele que as sete irmãs do petróleo financiaram e financiam operações de toda ordem -desde o treinamento de juízes, procuradores, delegados até o fornecimento privilegiado das informações obtidas pela espionagem dos órgãos de segurança dos EEUU. Afinal, como se sabe, na diplomacia norte-americana, “o que é bom para os negócios é bom para os EEUU”. Ou alguém acredita que um simples doleiro sabia tudo o que ocorria na Petrobrás? Pois oficialmente foram suas denúncias que levaram a peixes grandes – diretores da estatal – e destes se chegou aos corruptores empresários. É porque já sabem o que querem ouvir, que delegados, procuradores e juiz da Lava Jato tornaram famoso o refrão: “isso não vem ao caso” toda vez que uma verdade indesejada era afirmada.

Pois conseguiram as operações aumentar o caldo e satisfazer as reais razões do golpe. E elas aparecem se vagar algum nos planos econômicos: redução do tal custo Brasil, que significa na verdade reduzir salários e condições de trabalho; investimentos no que é útil à economia (isto é, aos ricos), restringindo ao máximo todos os benefícios sociais desde licenças de tratamento de saúde, aposentadorias por invalidez até elevação da idade mínima para aposentadoria num patamar superior àquele de expectativa de vida do brasileiro; redução de ministérios e suposta redução da maquinaria pública. É o tal plano A de Henrique Meirelles: economia nos gastos públicos, isto é, empobrecimento da população.

No Plano B, trata-se de empobrecer a nação. Venda-se tudo; concessões e privatarias estão todas postas na mesa, particularmente na área de energia, transporte (aéreo, particulamente pois sobrou quase nada do transporte rodoviário), venda de patrimônio dos bancos estatais, leilões do pré-sal e até venda de créditos da Receita Federal. Como as grandes empresas brasileiras, que se transformavam em transnacionais, eram as empreiteiras e como estas já são cartas fora do baralho, sobram como compradores os bancos brasileiros e estrangeiros e, obviamente, as empresas multinacionais. Serão estas as donas das usinas, das distribuidoras de energia, do pré-sal. Os bancos preferirão se manter na sua segura área de atuação: comprarão os créditos da Receita Federal por uns 50% de seu valor, para receberem 100% dentro de alguns poucos anos. Obviamente, os lotes serão ofertados por muito menos do que 50% para que a imprensa noticie que a venda se deu com alto ágio, mas sem qualquer discussão sobre o preço inicial de venda, como aconteceu durante toda a privataria tucana. 

Pois diz um economista do sistema, Gesner Oliveira da Go Associados: “Se o juro que o setor público paga é muito alto – e é altíssimo – vale a pena vender ativos a um preço relativamente baixo, para abater dívida e deixar de pagar juros estratosféricos”. Está data a justificativa para os “grandes negócios” como foi a venda da Cia. Siderúrgica Nacional por um preço inferior ao aço existente em seus pátios. Preços relativamente baixos é piada! Abater a dívida? Ora, se para pagar o golpe foi necessário elevar o déficit deste ano de uma previsão de um pouco mais de 90 bi para um déficit de 170 bi e se o orçamento do próximo ano foi prevê um déficit de 160 bi, e como o governo não fabrica dinheiro, este total será coberto pelo aumento da dívida pública com a venda de títulos do Tesouro, então toda a arrecadação prevista com a venda a preço de banana do patrimônio público – é prevista uma arrecadação de 120 bi vendendo tudo o que está na mesa (e este valor é dito de boca cheia) – então o depauperamento da nação sequer cobrirá o déficit previsto pelo econômico governo de Michel Temer, o temerbroso.

Alguém já esqueceu o que aconteceu com a dívida pública depois de toda a privataria tucana? Vendeu-se o possível e o impossível – não conseguiram vender o Banco do Brasil, a Caixa Econômica e a Petrobrás – e no entanto o governo previtizante do Sr. Fernando Henrique Cardoso encerrou seu segundo mandato recorrendo três vezes a empréstimos do FMI!!!! Reavivada a memória, alguém acredita que haverá redução da dívida pública com a venda de ativos? 

Bom, dirá um ingênuo: ao menos não precisará tomar emprestado 120 bi que arrecadar com os preços baixos dos ativos postos à venda. Mas se o problema são os juros estratosféricos que o governo paga, por que não reduzir a taxa SELIC? Todos sabemos que os juros pagos no Brasil são os maiores do mundo. Mas ninguém fala em reduzir a taxa, porque isso não interessa aos banqueiros que dispõem do Ministério da Fazenda e para os quais irão trabalhar os “técnicos e especialistas” que assessoram o Ministério assim que muda de governo!

Bom, dirá novamente o ingênuo: baixar as taxas de juros aumentará o crédito disponível e isso levará a um grande consumo que levará ao aumento da inflação! Então mantenhamos a taxa bem alta (para alegria dos banqueiros e “investidores” internacionais) para não termos inflação! Como se a inflação atual fosse uma inflação de demanda. Ao contrário, a demanda está tão baixa que para por novamente nos eixos o andar da economia, esta demanda deve aumentar através de investimentos governamentais, nas tais parcerias de investimento propostas pelo mesmo governo. Não é a demanda que está produzindo inflação, mas a falta de produção porque é mais atrativo investir no mercado financeiro a taxas estratosféricas do que investir na produção. E empresário algum é burro para deixar de ganhar. Logo, onde a porca torce o rabo é precisamente na taxa de juros paga: é tão alta para impedir a inflação da demanda inexistente, que provoca a inflação por falta de produção e investimento!!! Ou seja, a taxa SELIC é causa da inflação que diz combater, numa conversa para boi dormir. Ela é alta porque os banqueiros bancam técnicos, especialistas e ministros da fazenda. Não sou economista, mas não me passem atestado de imbecilidade usando uma linguagem inacessível a nós, pobres mortais. O povo não é burro!  

Já disse aqui que este é um governo perdulário. E precisa de dinheiro para pagar o impeachment: aumento para o judiciário, para a procudoria, para o bolsa família para tentar obter algum apoio popular, para comprar os governadores abrindo mão de 50 bi das dívidas dos Estados, etc etc.

No final, todas as contas serão pagas pelo povo mais empobrecido pelas políticas econômicas, e por uma nação sem patrimônio algum que possa alavancar seu futuro. É o nosso futuro que está na mesa, no balcão de negócios deste governo perdulário.   

 

 

João Wanderley Geraldi é reconhecido pesquisador da linguística brasileira e formou gerações de professores em nosso país. Há já alguns anos iniciou esta carreira de cronista-blogueiro e foi juntando mais leitores e colaboradores. O nome de seu blog vem de sua obra mais importante, Portos de Passagem, um verdadeiro marco em nossa Educação, ao lado de O texto na sala de aula, A aula como acontecimento, entre outros. Como pesquisador, é um dos mais reconhecidos intérpretes e divulgadores da Obra de Mikhail Bakhtin no Brasil, tendo publicado inúmeros livros e artigos sobre a teoria do autor russo.