Não temos um Ministro da Fazenda. Temos uma fonte de ameaças

Durante o longo do processo civilizatório, que não se deu nem se dará de forma linear, e que também não tem uma teleologia, isto é, um fim a ser alcançado porque sempre haverá algo-a-ser-alcançado nas relações entre os homens, pois neste longo processo com retrocessos se foi cunhando uma liberdade relativa: a do pensamento. Este pode voar e alcançar patamares que elevariam no futuro o mesmo processo de civilização. Que o digam Giordano Bruno e António Gramsci.

A criação do “dinheiro” para as trocas, tornando obsoleto o escambo direto, constitui-se de numa forma mais ou menos adequada, liberando atividades não diretamente produtivas, no sentido de que seu produto não era algo trocável (como, por exemplo, a atividade intelectual), mas que passariam a ser remuneradas e permitiriam uma sobrevivência sem o amparo do mecenas (ou dos Conventos e das Abadias: os copistas e iluminadores podiam trabalhar sem preocupação com o almoço e o jantar, coisa que um agricultor não faz).

Mas há um defeito – eliminável por certo – ainda não eliminado que se chama ganância. Há aqueles que querem o máximo, muito mais do que precisam. Acumulam como reais Tios Patinhas. E assim se vai construindo a abismal diferença entre os homens, a distinção ricos e pobres; proprietários e trabalhadores.

Neste jogo da acumulação tudo vale. E foi nele que surgiu a corrupção, a propina. A Odebrecht corrompeu desde que existe. E muitas outras empresas corrompem, até na venda de material destinado à saúde (como se pôde observar no escândalo das próteses, operado também por um médico que saía pelas ruas gritando por ética na política). Pois os homens com dinheiro corrompem.

Mas os homens não agem somente com dinheiro. Também levam a ações, mesmo contra a vontade dos sujeitos que agem, por ameaças contínuas. Trata-se da coação. Trata-se da forma moderna do exercício da força física. No lugar dos socos, a ameaça! O ringue é amplo, sem cordas para o encosto. E esta forma de corromper o pensamento e ação dos outros é exercida por quem dispõe de poder (e como sabemos, ninguém dispõe do poder sem dispor do dinheiro; para chegar a ele quando não há o dinheiro, existem os “investidores” que cobrarão com ameaças o seu exercício do poder).

É desta forma de exercício da força física que se vale nosso atual Ministro da Fazenda. E ele a exerce impunemente, nos jornais, nas TVs, em todos os lugares. Como nosso sistema ainda está exigindo que as leis sejam aprovadas pelos chamados representantes do povo no Parlamento, sua vontade (e a dos banqueiros) não pode mandar em tudo: precisa encaminhar propostas ao Parlamento.

Encaminha a proposta da Reforma da Previdência – na verdade uma reforma da Constituição Democrática de 1988, reduzindo a quase zero toda a seguridade social por ela consagrada – o os políticos que estão no executivo, incluindo o Usurpador Presidente, começaram a negociar mudanças no projeto encaminhado, para que se tornasse menos draconiano. E a cada mudança proposta, consultava-se o Ministro da Fazenda e ele dava a última palavra. Inúmeras vezes os jornais publicaram: o Ministro da Fazenda concordou com a mudança. Quer dizer, o Presidente de fato é o Ministro, pois ele tem a última palavra.

Mas não ficou calado o Sr. Henrique Meirelles. Engoliu sapos, mas continua a fazer suas ameaças. A última ameaça feita aos deputados e senadores foi a de elevar a taxa de juros, a SELIC, caso a Reforma não seja aprovada. E foi mais longe: aumentados os juros, diminuirão as atividades econômicas e aumentará o desemprego (como se ele não vem aumentando sem a Reforma, mas esqueça isso… o ministro pode mentir e manipular dados à vontade, com o aplauso da patuleia jornalística e dos comentaristas econômicos: o desemprego aumenta sem a Reforma: como explicar que a não aprovação da Reforma o desemprego vai aumentar? Mas estas perguntas impertinentes não devem ser feitas a sujeitos que vivem da ameaça quando não têm razão; que preferem o exercício atual da força física à racionalidade!

Este é o nosso Ministro da Fazenda: um sujeito irracional que pretende impor autoritariamente o que seu grupo quer (para aumentar seu dinheiro) fazendo uso contínuo de ameaças, isto é, da força física contemporânea que obriga os outros agirem mesmo contra o que pensam.  

  

João Wanderley Geraldi é reconhecido pesquisador da linguística brasileira e formou gerações de professores em nosso país. Há já alguns anos iniciou esta carreira de cronista-blogueiro e foi juntando mais leitores e colaboradores. O nome de seu blog vem de sua obra mais importante, Portos de Passagem, um verdadeiro marco em nossa Educação, ao lado de O texto na sala de aula, A aula como acontecimento, entre outros. Como pesquisador, é um dos mais reconhecidos intérpretes e divulgadores da Obra de Mikhail Bakhtin no Brasil, tendo publicado inúmeros livros e artigos sobre a teoria do autor russo.