Não cai a Bastilha sem povo na rua

Os acontecimentos deste domingo comprovam: um preso político somente sai em liberdade nas ondas de uma revolução, com os injustiçados de sempre tomando as ruas, brigando e elaborando as mudanças necessárias a uma nova ordem das coisas e das gentes.

Na África do Sul, com Mandela, foi praticamente uma guerra civil. Na Índia com Gandhi foi um movimento popular. Na Rússia dos Czares, foi uma revolução armada. Na China, um jovem impedindo que um tanque seguisse adiante, na Praça da Paz. Na chamada primavera de Praga, foi movimento pacífico nas ruas. Em 1968, em Paris e em Berlim e em Roma e em Amsterdã … foi a juventude que saiu às ruas e mudou o panorama político não só de seus países. Na chamada primavera árabe, ainda que orquestradas as movimentações pela CIA e pelo Departamento de Estado, as pessoas nas ruas derrubaram ditaduras sólidas em nome da liberdade que não veio.

Em síntese, a Bastilha não cai sem povo na rua. Mas é verdade: há que ser muito povo, muita gente, um mar de gente. E obviamente as maiorias nunca serão unanimidade. Como não houve em todos os movimentos históricos. A permanência do que há interessa sempre a uma minoria. E nos estados modernos, esta minoria tem a sua disposição muitos aparatos: a justiça para produzir peças de falsidade sempre que necessário; os ministérios para correrem atrás de saídas indignas; os tribunais para referendarem e azedarem a vida da cidadania; as cortes supremas para os “olhares de paisagem” e, quando necessário, para obedecerem a quem manda; e toda mídia tradicional para a lavagem cerebral. Mas sobretudo dispõe do aparato bélico: os musculosos imbecis que não exercitam qualquer pensamento, as milícias que financia, as polícias militares que arma, as forças armadas que ameaçam.

São estes últimos aparatos que fazem temer. Mas de que são compostas as polícias e as forças armadas? De filhos dos cidadãos, de filhos e irmãos da maioria, que os filhos da minoria têm outros afazeres: gastar a roldo o que lhes proporciona a rapina dos pais e depois engravatados e bem acondicionados com seus MBAs continuarem a mesma rapina para proporcionar aos novos rebentos a mesma vida à larga, e assim sempiternamente até que… o povo saia às ruas.

Os episódios deste domingo, em que um juiz tresloucado e comandado pelos interesses das empresas norte-americanas acionou um indigno Presidente de um Tribunal, que acionou um desembargador em férias e prestativo, tudo para suspender a concessão de um habeas corpus e um alvará de soltura expedido pelo desembargador plantonista, mostram que Lula tem razão: ao dar o prazo até 10 de agosto para que o sistema inJudiciário brasileiro reponha as leis no comando da vida nacional.

A partir daí, somente as ruas conseguirão a queda da Bastilha brasileira, localizada em Curitiba e em todos os rincões brasileiros onde mais de 400 mil presos estão nas “bastilhas” face à vagabundagem de cartórios, juízes, desembargadores e ministros. Trata-se de prisões preventivas sem fim ou de penas já cumpridas… e estes ainda injustamente presos têm pais, têm irmãos, têm mulher, têm filhos. A existência deste descalabro foi denunciada não por um petista mas por Gilmar Mendes, o ministro do PSDB.

Toda e qualquer mudança sempre será chamada pela minoria de “aventura”. A Rede Globo baterá na tecla. Mervais e Camarottis exercitarão seus silogismos e falta de perspectivas históricas. A lavagem cerebral será de amargar…

Mas não há outra saída: as ruas ou a farsa e a pobreza distribuídas em doses iguais para a classe média de cintos apertados e para os miseráveis e excluídos de sempre.

João Wanderley Geraldi é reconhecido pesquisador da linguística brasileira e formou gerações de professores em nosso país. Há já alguns anos iniciou esta carreira de cronista-blogueiro e foi juntando mais leitores e colaboradores. O nome de seu blog vem de sua obra mais importante, Portos de Passagem, um verdadeiro marco em nossa Educação, ao lado de O texto na sala de aula, A aula como acontecimento, entre outros. Como pesquisador, é um dos mais reconhecidos intérpretes e divulgadores da Obra de Mikhail Bakhtin no Brasil, tendo publicado inúmeros livros e artigos sobre a teoria do autor russo.