Na fogueira das vaidades, o dia amanheceu excitado

Ontem, cinco de maio de 2016, ficará registrado na história como o dia da fogueira das vaidades. Explico-me.

Aproxima-se celeremente o dia do afastamento da Presidente Dilma Roussef, primeiro provisoriamente para depois defenestrá-la definitivamente com base num voto de desconfiança – como se vivêssemos num parlamentarismo com presidente e não primeiro ministro – já que não adianta querer impingir que houve crime de responsabilidade ou outro crime que a impedisse de permanecer no cargo. O jornalismo internacional tem dado um banho de conhecimento de interpretação dos fatos à imprensa local que não informa, mas deforma para aliar-se como grande força pró-impreachment à força real que derrubará nossa Presidente: 1. o interesse da geopolítica do império na destruição dos BRICS, um mau exemplo de emergências desconfortáveis aos interesses das corporações que dirigem de fato os EEUU; 2. a condução terrorista, para o império, de um desenvolvimento brasileiro alavancado por investimentos produtivos (do Estado, da Petrobrás e de grandes empresas nacionais internacionalizadas nas áreas de alimentos e construção civil) encerrando o ciclo de desenvolvimento pelo incentivo ao consumo que nos permitiu passar ilesos na crise capitalista de 2008, acontecimento que mostraria que há saídas possíveis no capitalismo que não o pensamento neoliberal e o comando da economia pelo rentismo. Este seria um pecado capital por solapar vagarosamente a ideologia do pensamento único, que aliás até o FMI e Banco Mundial estão começando a perceber como possibilidade de salvar o mundo do abismo que está em construção; 3. o tipo de sociedade brasileira, cujas raízes não podem ser esquecidas: provimos de uma sociedade escravocrata, em que a renda do trabalho era zero ou próxima de zero. Para a estrutura social assim fundada e mantida, o topo da pirâmide jamais aceitou que o trabalho fosse remunerado de forma mais digna, estabelecendo uma sociedade em que as distâncias das desigualdades fosse um pouquinho menor. Ora, o crescimento da renda do trabalho desde o começo do século XXI, com um aumento efetivo do salário mínimo de 76% nos últimos 13 anos, as políticas sociais distribuitivas, a verdadeira ‘abertura de portas’ de acesso da periferia aos bancos universitários, tudo isso apavorou tanto as chamadas ‘forças produtivas’, denominação incorreta porque na verdade são ‘forças do capital’ e uma classe média acostumada aos salamalecos de uma distribuição regulada de bens que a tornava bajulada pelo poder econômico em troca do apoio político. Assutados estes dois segmentos da sociedade brasileira, eis que se repete na política brasileira a tomada das ruas por aqueles que somente andam de carro e jamais ocupam transporte coletivo: aconteceu isso em 1964 com a marcha pela ‘tradição, família e propriedade’ (o pensamento da TFP), volta a se repetir nas marchas de 2015 e 2016 sob novo slogan, mais laico, do fim da corrupção (não o fim da sonegação, não o fim do escândalo da miséria, não o fim da discriminação social: ao contrário isso deve voltar a ser nosso padrão moral).

São duas causas externas, uma grande causa interna que levarão os senadores a afastarem e logo depois defenestrarem Dilma Roussef. Não será a análise dos fatos com base nas leis. O estado já não é mais um estado de direito, é um estado de exceção.

Pois neste contexto, cada qual querendo prestar mais serviços, sobretudo serviços visíveis, ao desencadeamento do que muito vagarosamente se poderia construir com pinceladas de mudanças na estrutura típica da sociedade brasileira, surgem as vaidades porque cada qual quer aparecer como o mais ativo desconstrutor de alternativas sociais que ‘desfariam’ o que é a nossa tradição, a nossa família, a nossa propriedade, a nossa fé, a nossa moral, os nossos valores. Para além de um vedetismo ingênuo de um Dallagnol, além de um vedetismo nada ingênuo de um Sérgio Moro, além de um protagonismo bem articulado de um Janot, outras vaidades se impuseram.

Eduardo Cunha, o Réu, em sua costumeira basófia, na véspera de seu afastamento do poder e do grupo que com ele contou mas que dele se envergonhava, alardeava que ele estava seguro e firme, já que com sua queda levaria mais de duas centenas de deputados, vários senadores, alguns empresários, etc… É a “vaidade” do poder escuso.

Em estreita correlação a este poder que permitiu uma vitória tranquila da votação pró-impeachment na Câmara dos Deputados, o ministro Teori Zavascki manteve-se calado por mais de 100 dias e não decidiu nada sobre o pedido de afastamento deste ‘dono dos deputados’, apesar da denúncia da PGR. Quando o presidente do STF, Ricardo Lewandowski, pautou o julgamento do pedido de afastamento de Eduardo Cunha da presidência da Câmara ou no mínimo seu afastamento da linha sucessória da Presidência da República, relatado pelo ministro Marco Aurélio de Melo, eis que nas primeiras horas do dia de ontem o calado Teori Zavascki fala no processo sobre o qual se mantinha sentado: decreta uma medida cautelar afastando Eduardo Cunho tanto da presidência da Câmara quanto do mandato de deputado!!! E num longuíssimo arrazoado que não foi feito numa única noite. Já estava pronto, mas para os interesses do impeachment, não se podia afastar Eduardo Cunha. E foi mantido mesmo depois de ter entregado o prato servido! As razões desta manutenção não são muito ocultas, como se sabe. Mas eis que a vaidade jurisdicional atacada pela possibilidade de um afastamento decretado pelo plenário do STF, sob a batuta de outro ministro que levaria para si os holofotes apressados da nosso imprensa, movimenta o magistrado com uma celeridade jamais vista no Supremo Tribunal Federal. Não há de se perder assim tão fácil os holofotes que bajulam decisões. Em boatos, diz-se que a decisão foi tomada para barrar o parecer do ministro Marco Aurélio que não seria muito benéfico ao movimento de sustentação dos interesses descritos anteriomente e que se expressam no #foraDilma. Mas são boatos que ‘maldosamente’ querem criar a dúvida de que não terá sido somente a vaidade ferida que apressou a decisão do relator da Lava Jato. Boatos não faltam em ambientes políticos controversos, porque ninguém, ninguém mesmo, acha que a questão é somente legal.

 

 

 

             

João Wanderley Geraldi é reconhecido pesquisador da linguística brasileira e formou gerações de professores em nosso país. Há já alguns anos iniciou esta carreira de cronista-blogueiro e foi juntando mais leitores e colaboradores. O nome de seu blog vem de sua obra mais importante, Portos de Passagem, um verdadeiro marco em nossa Educação, ao lado de O texto na sala de aula, A aula como acontecimento, entre outros. Como pesquisador, é um dos mais reconhecidos intérpretes e divulgadores da Obra de Mikhail Bakhtin no Brasil, tendo publicado inúmeros livros e artigos sobre a teoria do autor russo.