Na falta de culpa, a culpa é da Dilma

E eis que o script previsto acontece: Eduardo Cunha, depois de conversas demoradas com Michel Temer, depois de tantas manobras na Comissão de Ética, depois de um atrasado afastamento do cargo e do mandato pelo sempre lento – quando não se refere a petistas – Teori Zavacki, temos choros e ranger de dentes numa renúncia ao cargo de presidente da Câmara, para salvar o mandato. 

E diz Cunha que paga o preço por ter iniciado o processo de impeachment. Está pagando pelo que não deve. Claro, ele não tem culpa alguma a purgar, exceto aquela de ter tido a coragem de enfrentar os mafiosos petistas! Não tem contas na Suiça, jamais recebeu qualquer propina, jamais fez negócios escusos. Somente foi corajoso. E aí o PT reagiu contra ele (como se não tivesse sido ele que abriu o processo por vingança por não contar com os três votos de que precisava no Conselho de Ética!). O todo poderoso PT, o todo corrupto PT, a criminosa Dilma, todos juntos moveram mundos e fundos contra o inocente Eduardo Cunha. E tal perseguição injusta levou o impoluto amigo de Michel Temer à renúncia. 

Sem negociações com o Planalto, obviamente. Apenas a decisão externa à própria Comissão de Constituição e Justiça da Câmara: o processo de cassação de mandato por indecoroso comportamento retorna ao Conselho de Ética! E por lá começará mais uma vez um troca-troca de membros, partidos indicando novos nomes, mando Tia Eron ir pastar em outro canavial. Há que salvar o mandato para que tudo se esqueça e fique o governo devedor quites com seu general comandante do impeachment. Aqueles que apostavam num ato heroico de Eduardo Cunha, assinando colaboração com Sérgio Moro, e abrindo o bico a grasnar e pondo para fora o que sabe, podem recolher apostas. Não haverá deleção premiada; Eduardo Cunha terá outros prêmios, não só o foro privilegiado do STF, podem crer. Tudo será negociado sob os lençois e sem jornalismo investigativo.

Vago o cargo de Presidente da Câmara, não vale aqui o dito “Rei morto, rei posto”: na política brasileira do toma cá dá lá, tão bem circunstanciado pela famosa carta de Michel Temer à Presidente Dilma Rousseff, haverá candidaturas muitas, todas prontas para irem ao balcão de negócios, renunciarem a suas candidaturas dependendo do prêmio que lhes couber num governo em que se disputa espaço milímetro a milímetro. E cada milímetro tem seu preço.

E Michel Temer teme não pagar. Sabe que se não pagar, farão como ele fez. Dilma não lhe emprestou o vestido da posse para ele desfilar de “Norma Constitucional” no carnaval. Foi o bastante para ele se tornar conspirador, traidor e ilegítimo presidente. Então ele sabe o custo de uma dívida não paga. E os deputados sabem que ele sabe, por isso podem confiar nas negociações.

E mesmo que estas sejam vergonhosas, não faltarão comentaristas políticos a elogiar a forma com que ele constroi uma sólida base parlamentar!

Como já há quem ande defendendo que nem toda doação feita pelas empresas sob mira da Lava Jato podem ser consideradas dinheiro de propinas. Claro, pode ser dinheiro proveniente de contratos assinados com o governo federal ou com os governos estaduais, mas a parte que vai para o PMDB, para o PSDB (e seu tremsalão) ou para o PSB da então socialista Marina Silva, isso não é dinheiro de propina, é apenas dinheiro ganho a mais nos contratos assinados com os entes governamentais. Como se sabe, Gilmar Mentes e Eliana CASTAnhêde sabem como funciona a contabilidade de todas as empresas e como dinheiro sujo só foi para o PT e seus candidatos.

E assim vamos indo: um impedimento aqui, uma renúncia ali, uma maracutaia acolá, um negocizinho adiante, um passo atrás em tudo, sob as bênçãos da justiça e sob o olhar desatento de Sérgio Moro, vamos seguindo até que se cumpra o que ele aprendeu nos EEUU onde foi treinado para realizar a operação que realiza em banefício das sete irmãs do petróleo e dos interesses da CIA, do FBI e da economia da matriz imperial. 

Torçamos todos pela candidatura de Sérgio Moro a Suprema Corte dos EEUU. Ele merece. E Michel Temer há de ser eleito presidente da república em 2018, pela graça de Belzebu e das orações de Malafaia. 

 

João Wanderley Geraldi é reconhecido pesquisador da linguística brasileira e formou gerações de professores em nosso país. Há já alguns anos iniciou esta carreira de cronista-blogueiro e foi juntando mais leitores e colaboradores. O nome de seu blog vem de sua obra mais importante, Portos de Passagem, um verdadeiro marco em nossa Educação, ao lado de O texto na sala de aula, A aula como acontecimento, entre outros. Como pesquisador, é um dos mais reconhecidos intérpretes e divulgadores da Obra de Mikhail Bakhtin no Brasil, tendo publicado inúmeros livros e artigos sobre a teoria do autor russo.