Na desigualdade, ser criança e adolescer

Nas Metamorfoses, em 240 fábulas, Ovídio mostra seres
humanos transformados em pedras vegetais bichos coisas.
Um novo estágio seria que os entes já transformados
falassem um dialeto coisal, larvar, pedral, etc.
Nasceria uma linguagem madruguenta, adâmica, edênica,
inaugural –
Que os poetas aprenderiam – desde que voltassem às
crianças que foram
Às rãs que foram
Às pedras que foram.
Para voltar à infância, os poetas precisariam também de
reaprender a errar a língua.
Mas esse é um convite à ignorância? A enfiar o idioma
nos mosquitos?
Seria uma demência peregrina.
(Manoel de Barros. O Guardador das Águas)

 

Para voltar a ser criança, sem passar pelas metaformoses necessárias, assumindo, no entanto, “uma demência peregrina” para “dar um gosto incasto aos termos”, o melhor caminho de que dispomos é o da escuta das falas infantis e das falas poéticas.

Tomo, pois, um enunciado proferido por Ana Carolina Uberti Saccheto(4 anos, 11 meses) como roteiro, sabendo desde o início que vou traí-la pelo inalcançável de excesso no que nos diz:     – Tudo o que eu penso sai pela minha boca.

Neste enunciado dito com o ar surpreso da descoberta, surpreendendo quem a escuta, Ana Carolina afirma a relação linguagem e pensamento de uma forma precisa, assumindo uma teoria da expressividade e uma teoria dos processos mentais como processos linguísticos: pensa-se com a língua que se fala e fala-se o que se pensa. E o jogo desta relação se constitui no processo de outra relação, a relação com a alteridade, com o outro de que aprendemos a língua com que pensamos e para o qual fazemos “sair pela boca” o internamente elaborado. Se uma e outra língua, a interna e a externa, têm distinções, estas não são de natureza mas de funcionamento e elaboração, rápida e menos explícita em suas formas internas, mais sofisticada e necessariamente mais explícita em suas formas externas, porque estas dirigem-se a outro que precisa elaborar uma compreensão responsiva.

Nestes processos, desde o ventre materno até além de nossa morte, no ser biológico limitado (nos dois sentidos de limitado: as linhas de nosso contorno físico que podem ser traçadas dizendo seus limites e por sermos datados e situados num espaço tempo) constituímo-nos como sujeitos ilimitados (nos dois sentidos de ilimitados: porque não é possível traçar limites aos múltiplos sujeitos que somos e porque sempre estaremos em devir, em formação, mesmo depois de conhecermos nossa segunda morte, quando o último que de nós se lembra vier a morrer, porque deixamos rastros, uma história, alguns feitos que terão compreensões que nos serão inacessíveis).

Assim nos fazemos socialmente nos fazemos o que chegamos a ser sem ponto final: sujeitos sociais encorpados, concretos, temporais, com história própria compartilhada com as histórias dos outros, tanto daqueles que nos precederam quanto daqueles que nos sucederão. Conheceremos e compreenderemos o mundo como o conhecem e compreendem aqueles com que convivemos. Falaremos como eles, e sofreremos juntos necessidades e reveses, e sentiremos alegrias comuns. Sem no entanto deixarmos de ter a sensação de sermos cada um de nós unos, únicos, sigulares,  irrepetíveis: na história compartilhada traçamos nossos caminhos e nossa insubstituibilidade. Não podemos dizer “não estou aqui”. Não temos álibi para a existência (Bakhtin, 2010). Somos o que fomos e o que seremos dentro das constrições que nosso tempo nos fez sermos.

Somos diferentes na semelhança. As condições próprias das culturas, que enriquecem a experiência humana, nos fazem diferentes e a diferença nos identifica: identidades certamente provisórias, de aproximações com o grupo familiar, com a classe social, com os nacionais que nos fazem ver os outros como estrangeiros, isto é, nascidos em outros espaços e outras culturas. E ainda entre nossos iguais somos diferentes: não percorremos todos os mesmos caminhos interlocutivos, por isso não internalizamos as mesmas contra palavras com que construímos nossas compreensões responsivas. Até mesmo na sequência temporal de nossas vidas: ter lido primeiro um autor e depois outro; ter ouvido primeiro uma história depois outra, enquanto outros fizeram o caminho inverso, faz com que tenhamos internalizado diferentes compreensões ainda que das mesmas narrativas.

A diferença é o brilho da humanidade, e a correlação multicultural é sempre produtiva, ainda que algumas das diferenças culturais nos choquem e até mesmo nos levem a ações para superá-las, como é o caso das culturas que ainda matam por apedrejamento mulheres por motivos fúteis, fazem excisão do clitóris para evitar o prazer feminino, etc. São casos-limite de diferenças que gostaríamos de suprimir. Isto porque o diálogo entre duas culturas, como o diálogo entre dois sujeitos, não leva a uma síntese em que ambas ou ambos se diluem, mas modificam um e outro. No entanto, para além das diferenças construímos desigualdades.  

E este não é um tempo das diferenças nas semelhanças do mesmo tempo-espaço. Somos nascidos sem direito a definir a geografia e a história; somos nascidos de pai e mãe e seremos filhos do mundo em que eles viveram, vivem e viverão. E neste mundo que nos é dado viver, nascemos em tempos de desigualdades.

A desigualdade é uma construção histórica. E no sistema capitalista de produção já nascemos desiguais. A desigualdade “é, ao menos em parte, determinada por fatores que os indivíduos não controlam, como a origem social ou os talentos inatos, da mesma forma que a desigualdade das dotações iniciais de capital” (Piketty, 2015, p. 85).

O capital acumulado, transferido por herança entre membros da mesma família, desde sempre já marca uma desigualdade. Por outro lado, numa série histórica de 120 anos, no valor adicionado no processo de produção de bens, o capital – que pertence a uma minoria – apropria-se na forma de lucros de um terço das rendas, enquanto o trabalho  representa os outros dois terços distribuídos entre a grande massa de trabalhadores, incluídas como “rendas do trabalho” todas as contribuições sociais recolhidas pelas empresas mas pagas pelos assalariados (Piketty, 2015, p.59 e seguintes).

No caso brasileiro, a recente divulgação de dados pela Receita Federal relativos a 2012 e 2013, “o número de brasileiros com renda mensal superior a 160 salários mínimos (maior faixa da pirâmide) caiu de 73.743 para 71.440. Esta pequena elite que corresponde a 0,3% dos declarantes de IR concentrou, em 2013, 14% da renda total e 21,7% da riqueza, totalizando rendimentos de R$ 298 bilhões e patrimônio de R$ 1,2 trilhão” (Correio do Povo, Porto Alegre, 09.09.2015, p. 6).

Obviamente estas declarações ao fisco envolvem rendas do trabalho assalariado (daqueles que estão no topo da pirâmide de salários) e sobretudo rendas obtidas pelo capital na forma de lucros, juros e dividendos. Como se sabe, esta “renda atualmente obtida pelos ricos sem mordidas do IRPF – 196 bilhões de reais em 2013, em números exatos – tornou-se protegida da taxação há 20 anos. No embalo do Consenso de Washington e do neoliberalismo do recém-empossado presidente Fernando Henrique Cardoso, o governo aprovou em 1995 uma lei instituindo a isenção” (As fortunas que não pagam imposto de renda. Outras palavras. Boletim 553, 06.09.2015).

Se estes valores fossem tributáveis, pelo índice pago pelos assalariados de 27,5%, a arrecadação equivaleria a 50% da arrecadação prevista pelo fracassado ajuste fiscal. Mas tributar lucros e dividendos está longe dos propósitos do Congresso Nacional. Se estes são isentos, imagine-se a dificuldade de tributar grandes fortunas, pois são estas fortunas que elegeram os componentes do parlamento nacional.

Em resumo, somos semelhantes por natureza, somos diferentes pelas constrições próprias de espaço-tempo em que nos constituímos, e somos desiguais por uma construção social aparentemente irremovível.

Ser criança neste contexto nos faz semelhantes, diferentes e desiguais. Enquanto criança, os convívios próximos são aqueles da família estrita de pais e irmãos, da família ampliada que infelizmente cada vez se torna menos presente, dos amigos da rua e dos colegas da creche ou da escolinha, as diferenças vão se construindo quase invisíveis. Quando a adolescência amplia os espaços de convívio e a identificação desejada já não é com aqueles que nos são próximos, mas com o grupo, com a tribo, com os mitos midiáticos, chegando até mesmo à recusa das identificações anteriores, as desigualdades sobressaem e são sentidas na pele de cada adolescente. Por isso “crescer doi”. E doi não só fisicamente.

Enquanto não formos capazes, no Brasil, de enfrentar nosso verdadeiro escândalo social, a desigualdade que beneficia tão poucos brasileiros, adolescer aqui será dolorido porque no horizonte de mundos possíveis as portas estão fechadas para atravessamentos de classe e de renda e de acesso aos bens culturais universais, pois “os nascidos de trapo têm mil encolhas…” (Manoel de Barros).

* Texto apresentado no Fórum “Ser criança e adolescer numa sociedade desigual”. Unicamp/Penses e Movimento Despatologiza. Campinas, 14 e 15 de setembro de 2015.
** Agradeço aos pais de Ana Carolina, Letícia Fleck Uberti de Richard Saccheto, pela autorização para uso do enunciado citado.

Referências
Bakhtin, Mikhail. Para uma filosofia do ato responsável. S. Carlos : Pedro & João Editores, 2010.
Barros, Manoel. O guardador das águas. São Paulo : Art Editora, 1989.
Piketty, Thomas. A economia da desigualdade. Rio de Janeiro : Intrínseca, 2015.

João Wanderley Geraldi é reconhecido pesquisador da linguística brasileira e formou gerações de professores em nosso país. Há já alguns anos iniciou esta carreira de cronista-blogueiro e foi juntando mais leitores e colaboradores. O nome de seu blog vem de sua obra mais importante, Portos de Passagem, um verdadeiro marco em nossa Educação, ao lado de O texto na sala de aula, A aula como acontecimento, entre outros. Como pesquisador, é um dos mais reconhecidos intérpretes e divulgadores da Obra de Mikhail Bakhtin no Brasil, tendo publicado inúmeros livros e artigos sobre a teoria do autor russo.