Multidão de professores nas ruas… na Argentina

Enquanto no Brasil o máximo que conseguimos foi uma Comissão da Verdade para esclarecer os crimes praticados durante a ditadura militar (que alguns imbecis insistem que retorne), na Argentina até generais ex-presidentes responderam a processos e foram condenados.

Condenar torturados, mesmo confesso, ou condenar seus superiores (afinal, a tal regra do “domínio do fato” só valeu para o mensalão?) é inimaginável no Brasil. Isto porque por aqui jamais houve um desenvolvimento econômico-social que fosse em benefício da população. Ao contrário, todo o desenvolvimento, quase sempre voltado para o mercado externo: as minas de ouro e prata, a cana-de-açúcar nos tempos coloniais; o café já no Século XX, o ciclo da borracha, e agora todo o ciclo da produção de grãos, particularmente soja – tudo sempre voltado para o mercado externo e o enriquecimento daqueles 0,1% dos proprietários ainda reais – nos dois sentidos de reais: régios e de fato – deste país.

Algumas tentativas históricas de olhar para dentro do país e descobrir que há uma população e que há possibilidades de um desenvolvimento social da cidadania foram feitas por Getúlio Vargas, João Goulart, Lula e Dilma. Deu no que deu: o primeiro foi levado ao suicídio; o segundo foi derrubado do governo e exilado retornando ao país como cadáver se não suicidado, morto de tristeza; Lula está sendo perseguido descaradamente por serventuários jurídicos desta minoria; Dilma foi apeada do governo por um golpe.

Houve também algo já esquecido: no governo Sarney, houve um plano econômico que transferiu 0,5% do PIB para a população mais nos níveis médios e inferiores da pirâmide social. Desapareceram as mercadorias das prateleiras dos supermercados, particularmente a carne…

Como cá nunca houve desenvolvimento visando a melhoria das condições de vida de seus cidadãos, com educação, saúde, salários, vida cultural, temos um povo achatado pela violência simbólica e física de uma elite descaradamente egoísta e, sobretudo, entreguista. E aqueles que melhor a servem demonstram com biquinhos e muxoxos o quanto detestam ser brasileiros. FHC somente sorri quando está passeando por Paris. José Serra entrega tudo o que pode, de olhos postos nos EEUU. E mesmo o santo juiz incensado pela mídia vive correndo para os EEUU para buscar as ordens dos próximos passos. Tudo aqui que se volte para o próprio país é um atentado aos interesses desta minoria (que inclui muito poucos empresários urbanos).

Acostumados a este padrão de vida, a população brasileira não tem condições de reação como têm os argentinos. E eles sofreram uma ditadura cruel, sangrenta, pior do que a brasileira. Baixaram a cabeça construindo a reação. Reagiram e foram à forra. Não perdoaram os crimes que aconteceu aqui.

Agora os professores argentinos levam às ruas de Buenos Aires mais de 50 mil professores numa manifestação de uma greve-aviso de 48 horas. Querem um salário nacional, que Macri destruiu transferindo a definição dos salários dos professores para os governadores de província (como é aqui: os estados e os municípios é que definem os salários e muitos deles sequer pagam o piso nacional!!)

Os argentinos foram às ruas. Os argentinos não se entregam ao golpe Macri de um neoliberalismo atrasado. Os argentinos são de luta.

Aqui, a luta maior é a da sobrevivência neste dia, o dia de amanhã se resolve amanhã!!! Enquanto isso, locupletam-se  os ricos e os seus servidores-capachos: a maioria dos políticos, a maioria dos juízes, desembargadores e ministros do STF, os jornalistas da grande mídia, os ideólogos economistas que pensam ser a economia uma ciência exata e não política – antigamente, quando fiz os primeiros anos da graduação, o curso se chamava Economia Política. Mas nesta lista, infelizmente, precisamos acrescentar grande parte dos nossos colegas professores, desde o nível fundamental até o ensino superior. Preferem a falsa paz da submissão à luta contínua pela construção da cidadania, inclusive a própria.

E eis que os argentinos nos dão, mais uma vez, o exemplo…  

João Wanderley Geraldi é reconhecido pesquisador da linguística brasileira e formou gerações de professores em nosso país. Há já alguns anos iniciou esta carreira de cronista-blogueiro e foi juntando mais leitores e colaboradores. O nome de seu blog vem de sua obra mais importante, Portos de Passagem, um verdadeiro marco em nossa Educação, ao lado de O texto na sala de aula, A aula como acontecimento, entre outros. Como pesquisador, é um dos mais reconhecidos intérpretes e divulgadores da Obra de Mikhail Bakhtin no Brasil, tendo publicado inúmeros livros e artigos sobre a teoria do autor russo.