Muito governo, pouco Estado

É triste ver os resultados da pesquisa feita pela Fundação Perseu Abramo sobre as percepções da sociedade pela periferia de São Paulo.

Não que esperasse uma posição muito clara a propósito das relações sociais básicas, por exemplo entre pobres/ricos ou trabalho/capital. Mas perceber que a grande divisão estabelecida pelos sujeitos da pesquisa é entre “nós” (empresários + trabalhadores) e “governo” nos mostra inúmeras nuanças que perpassam pelo imaginário social.

Sempre fui contra a denominação de “classe média” para aqueles que tiveram um acesso maior ao consumo graças a políticas sociais que diminuíram a miséria e, sobretudo, graças à política de distribuição de renda (ainda que pálida) através do aumento real do salário mínimo. Não houve mudança de classe social. O que houve foi um período – cujo fim foi decretado pelo capital em 2014 – em que o trabalhador brasileiro passou a receber um pouco mais do que um salário mínimo, isto é, um salário que sequer repunha a força de trabalho.

Acontece que aqui, desde as épocas coloniais, o fosso abismal entre capital e trabalho é enorme. E não esqueçamos a herança da escravatura, cuja abolição jogou nas ruas uma quantidade de força de trabalho sem qualquer perspectiva. Para sobreviver, aceitou as condições da casa-grande… cada um agora se virando individualmente. No nosso contexto histórico, não faz “qualquer” sentido um trabalhador braçal ter um salário equivalente ao engravatado do escritório.

Convivi com uma experiência de administração municipal que elaborou um plano de carreira de seus servidores em que salários de professores, médicos e procuradores – todos com curso superior – eram, de partida, equivalentes. No momento da opção pela nova carreira, houve gente que preferiu ficar na carreira antiga porque não admitia que a Diretora de sua escola recebesse salário equivalente ao seu de professora!!! Ou seja, a valorização do trabalho do chão da escola que é realizado pelo professor, é por este mesmo encarado como menor do que o trabalho de gestão (para usar o termo da moda!).

Em países com um bem-estar social mais elevado, com uma distribuição de renda mais justa – e isso não quer dizer que não haja pessoas extremamente ricas e proprietárias dos meios de produção – os salários percebidos não são assim tão distantes. No convívio familiar, acostumado aos hábitos brasileiros, perguntava a minha filha “por que você não contrata uma babá para diariamente trabalhar duas horas pegando as crianças na escola e liberando vocês de terem que sair mais cedo do trabalho, o que lhes exige trabalho noturno em casa?” Recebi como resposta: “Não poderíamos pagar! Quem ganha salário não pode pagar salário na Dinamarca!” Pois não é que a diferença entre o salário que perceberia uma babá por duas horas de trabalho diário era pouco menos do que percebia a professora universitária, pesquisadora, orientadora de teses, autora de livros!!!

Para nossa cultura, uma “falta” de distinção abissal entre os salários de trabalhadores é percebida como “desvalorização”!!! Não se pensa na valorização do trabalho, mas na “desvalorização” de trabalhos que imaginamos mais “elevados”, ainda que nenhuma cidade possa sobreviver sem garis…  

Que o individualismo está presente na periferia é mais ou menos óbvio. As pessoas não vivem fora do âmbito de sua sociedade mais ampla, e nesta o individualismo tem império. Que percebam o “progresso” individual como produto do esforço pessoal é repetição clássica da ideologia do trabalho, do “ser alguém na vida”, isto é, de fugir da classe social de trabalhadores. Esta ideologia é propagada principalmente por aqueles que receberam heranças e por isso tiveram um patamar do qual partir, ao contrário dos trabalhadores que vivem dos seus salários e sem heranças a contabilizar.

Há um ponto da pesquisa que gostaria de salientar porque me parece merecer uma discussão bastante séria: a visão “salvífica” que se tem de “governo”. O governo é responsável por tudo. Não se faz distinção entre Estado e governo. O governo é o inimigo. O governo é também o “pai” que deveria cuidar de todos. Esta visão patriarcal me parece o grande entrave do avanço político no Brasil.

Não precisamos de pais ou salvadores – estes heróis que duram o tempo de vida que a mídia lhes conceder! Mas vivemos numa sociedade que, de cabo a rabo, quer salvadores, quer pais e quer um governo, sem perceber que este não passa de um servidor do Estado cujas políticas deveriam ser definidas de forma a considerar sua população como um todo…

Esta visão e esta necessidade de salvadores explicam certas eleições em que operários votam em patrão… a repetir que somente quem tem pode dar… porque espera receber e não construir um Estado efetivamente seu. 

João Wanderley Geraldi é reconhecido pesquisador da linguística brasileira e formou gerações de professores em nosso país. Há já alguns anos iniciou esta carreira de cronista-blogueiro e foi juntando mais leitores e colaboradores. O nome de seu blog vem de sua obra mais importante, Portos de Passagem, um verdadeiro marco em nossa Educação, ao lado de O texto na sala de aula, A aula como acontecimento, entre outros. Como pesquisador, é um dos mais reconhecidos intérpretes e divulgadores da Obra de Mikhail Bakhtin no Brasil, tendo publicado inúmeros livros e artigos sobre a teoria do autor russo.