Muita coisa acontece para tudo ficar como sempre foi

Na história brasileira do século passado e do começo deste século, há três ocorrências fora da curva normal do exercício do poder: Getúlio Vargas (e não defendo o Estado Novo, ousou construir a CLT, a Petrobrás, a siderurgia nacional, e até a FNM, a fábrica nacional de motores, alguém lembra?), Jango Goulart que defendeu a necessidade de reformas de base; en os governos petistas – já neste século – de Lula e Dilma, que errram muito mas que estão sendo perseguidos no que acertaram.

As elites brasileiras jamais se perdoarão por terem deixado estas ocorrências de mau exemplo acontecerem. Levaram Getúlio ao suicídio; depuseram Jango, e prenderão Lula e Dilma. Há que reconhecer: eles estão se humanizando, estão se civilizando. Num crescendo vagaroso, mas num crescendo de humanidade: fim da vida, deposição, prisão. Chegaram à modernidade com alguns séculos de atraso, mas chegaram. É óbvio que tramitam no Congresso Nacional propostas para um retorno aos fins da Idade Média, que viu crescer a escravatura para sustituir o susseranato, porque afinal alguém tem que fazer o serviço pesado.

E agora as coisas estão acontecendo em cascata, deixando comentaristas afogados com os fatos:

1. Depois de meses e meses a Comissão de Ética vota o parecer favorável à cassação do homem-bomba, Eduardo Cunha. Que ele é uma bomba incontrolável sabemos todos, desde as pautas-bomba enquanto presidente da Câmara; que ele é vingativo, também o sabemos, afinal no mesmo dia em que perdeu três votos petistas na Comissão de Ética, aceitou o pedido de impeachment da presidente legitimamente eleita; que ele usa continuamente de ameaças, também o sabemos e até o usurpador tem medo destas ameaças. Agora o homem-bomba podderá perder o foro privilegiado, onde negócios são permitidos através de juízes partidários de que é sumo representante Gilmar Mentes. Se cassado, irá para as mãos de Sérgio Moro. Sérgio Moro não é movido pelas leis, mas pelos holofotes e pela mídia. Esta satanizou excessivamente Cunha, agora não pode simplesmente fazer o discurso inverso, e aí Moro vai prender Cunha… nos porões de Curitiba, Cunha estará a um passo da delação premiada. Ou será calado por alguma promessa insustentável publicamente, ou falará. E se falar, até os 5 milhões recebidos da OAS pela campanha de Michel Temer aparecerão, ainda que os magistrados do STF tenham uma bola de cristal com que distinguem: doações das mesmas empresas para campanhas do PT são recursos ‘sujos’, doações das mesmas empresas ao PSDB, ao Michel Temer e outros menos cotados, são recursos limpinhos, limpinhos. As empresas assinam os mesmos contratos, recebem num mesmo caixa, mas o STF sabe o que é limpo e o que não é limpo! Aliás, sabem-no aconselhados pelos delegados, procuradores e juiz da experiência de regime jurídico-policial  que se desenrola a nossos olhos na capital do Paraná. O homem-bomba falará em delação? Duvido. Ele será o boi de piranha (porque Gilmar Mentes não permitirá que um correligionário tenha essa função e negará para sempre qualquer investigação sobre Aécio Neves: sentará no processo sem decidir jamais). O futuro nos dirá se Cunha romperá e falará, ou se pagará curta pena e será premiado a posteriori pelos amigos agradecidos.

2. Teori Zavacki não entra no jogo de cena de Rodrigo Janot, e recusa o pedido de prisão de Romero Jucá, Renan Calheiros e José Sarney. Mas o recado de Janot foi dado: a parte institucional do golpe está bem atenta e não recuará. Nada de se preocuparem apenas com a parte econômica do golpe, vendendo, vendendo, arrochando, arrochando (obviamente, aumentando salários das categorias que ‘valem’ para comprare apoio). Tomem tento: ajudem a elaborar e implantar o regime jurídico-policial que se pretende estabelecido já na interinidade. Já apontei aqui que o pedido de prisão era mero jogo de cena de um dos centros do golpe. Qualquer análise que venha a dizer que Teori Zavacki e o STF só autorizam prisão de petistas, é inadequada… ainda que possa corresponder aos fatos, afinal prisão mesmo só para petistas (com uma exceção apenas para mostrar o apartidarismo da justiça brasileira).

3. Lula é entregue à sanha persecutória de Curitiba. Não conseguem achar o crime, mas decretarão a prisão do líder popular (e muitas vezes populista). Prender Lula e prender Dilma faz parte do script necessário da elite, para que maus exemplos não se repitam com tanta constância neste país. Ora, onde já se viu querer proteção jurídica de trabalhadores (CLT), querer reformas de base (Jango), querer que todos tenham três refeições por dia na oitava maior economia do mundo (Lula/Dilma). Isto é inaceitável. Afinal, pobre e negro tem que reconhecer seu lugar. Nada de virem estorvar nossa vidinha branca, machista e de boa origem (esquecendo, obviamente, ascendências de deportados de Portugal para o Brasil no passado, ou as riquezas compostas por grilagens em gerações passadas). Tudo deve ser como deve ser.

Realmente, muita coisa está acontecendo para que tudo fique como sempre foi. Acabou a experiência de construção de uma leve democracia social; acabou o sonho de uma sociedade um pouquinho mais justa (aliás, fim empurrrado pela justiça dos ricos contra os pobres do nosso sistema judiciário); acabou o futuro, agora só resta um passado eternizado.

Esperanças? para o próximo século, talvez. Quando o mundo já não for movido a petróleo. Mas aí os descendentes de Mónica Serra já estarão ricos e garantidos.  

 

 

 

 

  

João Wanderley Geraldi é reconhecido pesquisador da linguística brasileira e formou gerações de professores em nosso país. Há já alguns anos iniciou esta carreira de cronista-blogueiro e foi juntando mais leitores e colaboradores. O nome de seu blog vem de sua obra mais importante, Portos de Passagem, um verdadeiro marco em nossa Educação, ao lado de O texto na sala de aula, A aula como acontecimento, entre outros. Como pesquisador, é um dos mais reconhecidos intérpretes e divulgadores da Obra de Mikhail Bakhtin no Brasil, tendo publicado inúmeros livros e artigos sobre a teoria do autor russo.