Se a memória não falha, foi Michel Foucault que teria afirmado que o Século XX seria o século dos especialistas. A afirmação, dita por quem foi, parece que se confirmou: inúmeras novas áreas de conhecimento foram abertas, separando-se de outras e constituindo novos campos de pesquisa. Mesmo no cotidiano em que vivemos a percepção do valor do especialista nos era dada pela imprensa: na TV, nos jornais, nas revistas, a toda hora, especialistas eram consultados, davam vereditos (especialista não opina, dá vereditos). Ainda hoje há resquícios desta prática do século passado, particularmente são chamados à veridicção os economistas. Sempre aqueles ‘Chicago Boys’, no caso da imprensa brasileira, que afinal a imprensa não está aí para brincar de democracia e pluralidade. O pensamento deve ser único, uniforme, monocórdico.
Pois o Século XXI está mostrando, ao menos no Brasil, que o lugar do especialista está sendo reduzido, seus espaços estão diminuindo. Na área da produção científica, as posições mais amplas, de visões mais panorâmicas começam a aparecer, quer nos nomes de interdisciplinaridade, quer sob o rótulo de multidisciplinaridade, quer sob os auspícios dos estudos culturais. Mudanças radicais em processo.
Obviamente quando entramos num processo, permanece o velho enquanto o novo surge. Assim, o especialista em chantagem e negócios escusos, Eduardo Cunha, ganhou o espaço total da “Coluna do Estadão” (diga-se de passagem, uma imitação do” Painel do Leitor” da Folha de S. Paulo) numa entrevista em que deixa público que a Câmara dos Deputados continuará com seu saco de maldades no provável governo do traíra Michel Temer, o Temerbroso, como uma espada de Dâmocles a ameaçar o Temerbroso caso ele não se comporte segundo os desejos de Eduardo Cunha. Entre estes desejos, já confessados, está o encerramento destas investigações injustas que enlameiam o seu nome. Aliás, investigação absoluta mente nula no que tange à Comissão de Ética da Câmara dos Deputados, porque presidida por “um parlamentar que, na sua adolescência, era ladrão de toca-discos. Será tudo anulado.”
Do outro lado, mostrando o novo que surge, temos dois fatos importantes na política brasileira que seguem a nova onda em que se afogam as especialidades restritas. Primeiro, um governo apresentado como novo, de um partido novo, incorruptível. Tão novo será este governo e este partido no comando político do país, que eles estão no governo há apenas 31 anos! De início, em posição de vitrine (José Sarney), depois sempre na posição de ministros de ‘bons’ ministérios, por onde corre orçamento polpudo, além das indicações de diretores da Petrobrás, obviamente. Então teremos aí uma novidade, um partido não especialista, novo, capaz de tudo.
O segundo fato a comprovar que estamos em processo de mudanças radicais também nos modos de governança e de distribuição dos poderes aparece com clareza meridiana na composição do provável futuro governo novíssimo do Temerbroso: José Serra, um homem de competências múltiplas, não especializado numa área como as coisas eram no século passado. Ele tanto é cogitado (ou foi cogitado?) pra ser Ministro da Fazenda, depois foi apontado como o próximo Ministro da Educação, e agora se afirma que será o futuro Ministro das Relações Exteriores. Como não se pode ser especialista em tudo, este o exemplo prototípico da novidade do século: não se precisa saber nada de uma área para se tornar seu gestor público. A questão não é mais de especialidade, mas de metas a serem alcançadas. Na Fazendo, José Serra seria condutor do processo de estrangulamento das políticas sociais em nome do superávit primário (assunto primário, é claro); na Educação seria o ministro da privatização deste mercado que insiste em continuar nas mãos do poder público; nas Relações Exteriores será o vendilhão do que nos resta. Porque todos sabemos, diplomacia é algo que passa longe dos comportamentos e modos de ser de José Serra. Como se sabe, ele é um trator no trato de inimigos e parceiros que se lhe ponham no caminho. Aécio que o diga. Adequadíssimo para a função diplomática do futuro governo, que chega lá dirigindo um trator cujo motorista já foi Eduardo Cunha mas que passou o cargo ao senador Anastasia, que passará a direção ao presidente do STF, aquele que terá o pagamento à vista por suas vistas cegas, e depois, enfim, chegará às mãos do Temerbroso para um período tenebroso para todos, inclusive daqueles que foram às ruas pedir isso que aí vem.
João Wanderley Geraldi é reconhecido pesquisador da linguística brasileira e formou gerações de professores em nosso país. Há já alguns anos iniciou esta carreira de cronista-blogueiro e foi juntando mais leitores e colaboradores. O nome de seu blog vem de sua obra mais importante, Portos de Passagem, um verdadeiro marco em nossa Educação, ao lado de O texto na sala de aula, A aula como acontecimento, entre outros. Como pesquisador, é um dos mais reconhecidos intérpretes e divulgadores da Obra de Mikhail Bakhtin no Brasil, tendo publicado inúmeros livros e artigos sobre a teoria do autor russo.

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