Michel e Aécio: kkkkk Mas depois do riso, é preciso voltar à razão

Nesta crise política sem fim previsto em qualquer horizonte possível, numa república em que transitam pelos corredores do poder, sobretudo, delatores, ou seja, criminosos supostamente arrependidos que buscam, na verdade, algum privilégio porque a eles estão acostumados, a cada dia um mergulho na lama com flash e direito a manchetes, análises, comentários. Claro, a imprensa que se arvora como a instituição de julgamento geral, esquece por conveniência que os mesmos nomes incensados ontem estão agora na mira da polícia e da justiça.

Há crimes? Sim. Precisam ser investigados? Sim. Há defesa possível? Deve ser ouvida. A condenação prévia pela imprensa, gerando opinião publicada – dita pública – é um mau serviço à justiça e à sociedade. Não importa quem sejam os acusados, Lula ou Aécio, Dilma ou Temer.

A questão que as notícias estão pondo, hoje, ao escrutínio do cidadão é a existência de provas dos crimes praticados dos delatados deste momento. O Grande Irmão está fotografando, filmando, gravando. O clima é de insegurança para os políticos dependentes das gordas verbas dos ricos que os financiaram e que por isso mesmo foram pelos políticos beneficiados.

O que espanta nas delações da JBS vindas a público é que num ambiente extremamente corroído, instável, controlado, vigilante, os criminosos não deixem de praticar os mesmos atos pelos quais seus adversários políticos estão sendo processados. Enquanto nos bastidores praticam os crimes que atribuem aos outros, em público condenam descaradamente supostas ações que eles mesmos estão, no momento, praticando.

É o caso de Aécio Neves, presidente do PSDB. É o caso de Michel Temer, o da “ponte para o futuro”, elevado ao cargo de Presidente da República pelos mesmos políticos que, a cada dia, têm suas falcatruas reveladas.

Não sobra nada, dirá a imprensa. Não sobra nada será dito por desavisados. No entanto, neste “não sobra nada”, é preciso considerar um aspecto fundamental que a imprensa faz questão de ignorar: uma delação tem que ter provas. Se a atual delação tornada pública contém provas, muitas das delações anteriores ainda não foram comprovadas. Não dá para colocar tudo no mesmo saco, apesar das decepções, das desilusões e da raiva que tudo isso produz.

Existe investigação precisamente para isso: para comprovar delações, sem esquecer que delatores são criminosos confessos e, portanto, na própria delação, podem estar cometendo crimes. É fato de que a delação da JBS vem com gravações e comprovações, mas não se pode transferir a existência destas provas para todas as demais delações apresentadas no passado, como faz questão de embaralhar a mídia golpista.  

Dá para rir neste momento da “seriedade” com que apareciam na TV Aécios e Michéis. De rabo preso, em veste de mansas ovelhas, escondiam a voracidade de lobos que gananciosamente abocanhavam, aproveitando e não desperdiçando tempo, os seus quinhões.

Teriam estes agora pegos com a boca na botija a certeza de se safarem impunes? Parece que sim. A arrogância de compartilharem com o regime jurídico-midiático a que servem da mesma ideologia parecia-lhes suficiente anteparo a qualquer investigação. Iam prestando seus serviços, até com rapidez.

Mas esqueceram de algo elementar no que tange ao poder: quem tem poder quer mais poder. E sempre mais poder. Ora, o poder da república, hoje, nem está nas mãos dos capitalistas brasileiros, nem está nas mãos dos políticos. Está nas mãos do sistema jurídico e midiático, aliados numa só expressão “ditadura jurídico-midiática”. O exercício do poder, ao contrário ao que estamos habituados, não se exerce através de um nome, mas através de um sistema articulado e harmonioso.

A grande pergunta a fazer é: a quem serve este sistema? A quem estão servindo? Por que martelam e destroem as grandes empresas nacionais? Por que viajam tanto à capital do império? Por que assinam convênios de cooperação internacional sem anuência das instituições responsáveis pela tramitação de tais convênios?  

Nem os bancos ficarão felizes por não receberem seus créditos: afinal, os bancos financiam atividades econômicas que estão indo pelo ralo… e logo irá seu próprio dinheiro! Por isso cada vez mais a pergunta se torna crucial. A quem servem? Não tenho resposta… Alguém tem? Mas que desconfio do mero ataque de honestidade, ah!, desconfio sim.

João Wanderley Geraldi é reconhecido pesquisador da linguística brasileira e formou gerações de professores em nosso país. Há já alguns anos iniciou esta carreira de cronista-blogueiro e foi juntando mais leitores e colaboradores. O nome de seu blog vem de sua obra mais importante, Portos de Passagem, um verdadeiro marco em nossa Educação, ao lado de O texto na sala de aula, A aula como acontecimento, entre outros. Como pesquisador, é um dos mais reconhecidos intérpretes e divulgadores da Obra de Mikhail Bakhtin no Brasil, tendo publicado inúmeros livros e artigos sobre a teoria do autor russo.